Supervalorizada no mercado, a bucha vegetal volta às prateleiras com o status de produto agrícola ecologicamente correto e venerado pela indústria
Viviane Taguchi
Em Bonfim, cidadela a 40 km de Belo Horizonte (MG), quem não planta bucha, a transforma em arte ou em dinheiro. O município ostenta o título de Capital Nacional da Bucha e virou expoente da nova realidade do agronegócio mineiro: a diversificação sustentável da economia rural e o redescobrimento de um produto da época das vovós, que pegou carona na sustentabilidade, ganhou status de ecologicamente correto, e voltou para o mercado com preços supervalorizados. A bucha vegetal, ou bucha de metro, em sua forma mais tradicional, esponja, está forte no setor de cosméticos e invade o ramo de limpeza doméstica. Na indústria automotiva, substituiu a espuma sintética dos revestimentos de bancos de carros e aviões, e na construção civil, tornou-se material de isolamento acústico. As lavouras, que se concentravam apenas na região de Bonfim, se espalharam pela Zona da Mata, onde o cultivo tomou o lugar do milho em ritmo acelerado. “Constatamos um crescimento de 15% em relação ao ano passado”, diz Georgeton Silveira, coordenador técnico da Empresa de Assistência Técnica e Expansão Rural de Minas Gerais, Emater/MG. “É um cultivo que se adapta muito bem na região e tem grande demanda no mercado, visando a utilização de produtos sustentáveis em vários segmentos industriais”. Segundo o Emater, os itens que atraem os produtores são o preço do produto ante o custo de produção, R$ 35/dúzia a venda para R$ 10/dúzia de custo, e a produtividade, que gira em torno de 1000 a 1200 dúzias/hectare.
Quem começou a espalhar as lavouras de bucha pela Zona da Mata foi Sylvio Lanna. Há 12 anos, ele herdou 90 hectares de terras da família em Ponte Nova e decidiu tornar-se empreendedor rural. “Eu não tinha ideia do que fazer com aquelas terras e disseram que a bucha era rentável, que se adaptaria bem ao clima e que dava igual chuchu na cerca”, brinca. “O cultivo da bucha tem um papel fundamental na questão ambiental e reflete diretamente na economia”. Sua intenção é formar um novo pólo produtivo na região. O trabalho começou com a distribuição de sementes aos vizinhos e depois, para fazendeiros do Estado inteiro. Fora de Minas, ele vende o quilo da semente a R$ 100. “A bucha vegetal brasileira é um produto que tem demanda mundial”.
Apesar de sua produção atender a indústria cosmética, o foco de Lanna é o setor de limpeza doméstica, segmento que ele considera muito carente de soluções sustentáveis. “O momento é crucial para este setor, que precisa de alternativas sustentáveis para substituir as esponjas sintéticas”, alerta o agricultor. Além da propriedade particular, Lanna criou a lavoura de cotas Buchal da Lagoa, em Urucânia, em uma parceria com 11 empresários. “Cada sócio aportou R$ 2 mil para estruturar o parreiral, que está na primeira safra. Nosso objetivo é promover um rodízio para colhermos bucha o ano todo e atender a demanda crescente”, explica. De início, o Buchal da Lagoa conta com 15 hectares, mas a ideia é expandir para 25 hectares. “Queremos 25 safras anuais”.
O ressurgimento da bucha começou há quatro anos e ganhou fôlego mais recentemente. Quem entrou no negócio para abastecer o ramo de artesanato, rapidamente se viu obrigado a aumentar a produção para atender outros setores. Foi o caso da empresária Denilda Maria de Oliveira, diretora da Associação de Produtores Mineiros de Bicha Vegetal, de Bonfim. “Aprendemos a fazer artesanato, que na época teve muito sucesso, mas o que ficou para mais de 500 produtores rurais de Bonfim foi o beneficiamento da bucha. Só da minha empresa, saem 1500 dúzias de buchas beneficiadas por mês para o mercado”, diz a empresária. “Por aqui, a bucha é disputada demais”. Só para constar, cada unidade de bucha de metro rende de quatro a cinco esponjas, vendidas, em média, a R$ 3.
Dinheiro Rural - Dezembro de 2010
segunda-feira, 4 de abril de 2011
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