segunda-feira, 4 de abril de 2011

O plano que sumiu

Usineiros nordestinos encerram a safra de cana-de-açúcar com 62 milhões de toneladas de cana, mas esse número poderia ter sido maior se o projeto Canal do Sertão não tivesse sido engavetado pelo governo

Viviane Taguchi

Uma safra de 62 milhões de toneladas de cana-de-açúcar e apenas investimentos privados. Essa ainda é a realidade do fim da safra 2010/11 de cana no Nordeste brasileiro.Uma frustração para usineiros, produtores rurais e indústria se levarem em consideração que a situação poderia ser muito melhor, com um substancial aumento da produção. Não foi a seca e nem foi o mercado de biocombustíveis que emperrou este avanço, mas o próprio governo, que parece ter abandonado um dos maiores projetos do setor sucroenergético nordestino, o Canal do Sertão.

Lançado em junho de 2007 com pompa de “o mais promissor projeto internacional do setor sucroenergético nordestino”, o Canal do Sertão, orçado em R$ 1,2 bilhão, já poderia ter nesta safra sua primeira colheita, mas ninguém tem notícias dele. Nada saiu do papel e os produtores rurais continuam fazendo malabarismos para plantar cana somente em áreas mais próximas ao litoral e investir em verticalização e construir novas usinas com dinheiro próprio.

O Canal do Sertão era um projeto ousado, que daria a possibilidade de se plantar mais 150 mil hectares de canaviais (115 mil hectares em solo pernambucano e 35 mil hectares em terras baianas) e produzir 10 milhões de toneladas de cana-de-açúcar o ano inteiro com sistemas de irrigação. A Companhia de Desenvolvimento do Vale do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf) e a Petrobras investiriam R$ 20 milhões cada uma para financiar estudos de solo, obras e os sistemas de captação de água, e a Itochu Corporation, trading japonesa, aplicaria mais R$ 20 milhões, e daria a garantia de comprar todo o etanol produzido ali, levando-o diretamente para o Japão. Por seu turno, o governo federal, através do Plano de Aceleração do Crescimento (PAC) iria injetar nesse projeto outros R$ 20 milhões e o dinheiro restante viria da iniciativa privada, leia-se grupos de usinas tradicionais da região. A Itochu Corporation e a Petrobrás chegaram a assinar um memorando para o início do projeto, em junho de 2007, em Tóquio, ocasião que foi considerada “um marco no desenvolvimento do Nordeste”, conforme palavras do governador pernambucano Eduardo Campos. Mas até agora, o que se vê por lá ainda é uma seca tremenda, terra rachada e nenhum pé de cana plantado. E pior, nem a Codevasf, a Petrobras, a Itochu Corporation ou o Governo Federal sabem dizer o que aconteceu. “Tínhamos uma proposta consistente, que poderia expandir de forma inteligente a cadeia produtiva da cana-de-açúcar no Nordeste”, afirma Renato Cunha, presidente do Sindicato dos Produtores de Açúcar e Álcool de Pernambuco (SindaçúcarPE). “O Canal do Sertão surgiu de forma muito empolgante, mas perdeu fôlego e não decolou até agora.” Cunha acredita que divergências políticas possam ter afastado a Petrobras do projeto. “Eles perderam o interesse, não se sensibilizaram com a causa”, diz.

Até aqui, a Petrobrás vem demonstrando ter boas relações políticas com o governo de Pernambuco. Sérgio Gabrielli, presidente da estatal, durante evento que reuniu no Palácio Campo das Princesas o governador Campos e o presidente da Federação das Indústrias de Pernambuco (FIEPE), Jorge Côrte Real, declarou publicamente que apóia o grande volume de investimentos realizados no Estado. O desacordo político, então, poderia ser com o governo da Bahia, que teria reivindicado uma área irrigada maior de sua porção do Canal do Sertão. Segundo o Ministério da Integração Nacional, existem dois projetos de ampliação da área para o Estado, o esboço do Salitre e do Baixo Irecê, que se arrastavam há muito tempo, e entraram agora no PAC2. Para Cunha, do SindaçúcarPE os trabalhos do novo ministro da integração, Fernando Bezerra Coelho, que é nordestino ( mais precisamente, pernambucano de Petrolina), podem reavivar a esperança do Canal do Sertão ser viabilizado para o setor sucroenergético. “É possível que tenhamos uma retomada dessa iniciativa com o novo governo”, diz Cunha. “É o que o setor espera”.

Esta retomada, segundo o ministro Bezerra Coelho, pode surgir por intermédio da recém-lançada Secretaria Nacional de Irrigação. Através de sua assessoria de imprensa, o ministro informou que, por ora, as obras do Canal do Sertão para a cana-de-açúcar estão paralisadas, mas que a nova secretaria poderá dar novo impulso ao projeto. O Ministério, porém, não soube informar com precisão como seria esta nova fase do projeto. Na Petrobras, o Canal do Sertão também é assunto desconhecido. A assessoria de imprensa da estatal comunicou que o memorando foi assinado em 2007, um ano antes da criação da Petrobras Biocombustíveis, e por isso não poderia apontar os motivos que levaram a empresa a se afastar do projeto e a Itochu Corporation, também através de nota, lamentou a morosidade das obras.

Enquanto isso, os usineiros nordestinos, concentrados em Pernambuco, Alagoas e Paraíba, e responsáveis por 11% da receita nacional de açúcar e etanol, estão fazendo investimentos privados. Na Paraíba, o Sindicato das Indústrias de Fabricação de Etanol, a Cetrel e a Japungu Agroindustrial inauguraram a primeira planta de bioenergia a partir da vinhaça da cana para a produção de biogás e geração de energia elétrica a partir da vinhaça. No segundo semestre, a Japungu deve inaugurar também uma unidade em Pernambuco. “Produzir etanol de segunda geração é uma de nossas metas”, diz Edmundo Barbosa, presidente do sindicato. De acordo com Barbosa, a Paraíba participa ativamente da corrida tecnológica para aumentar a produtividade e a produção de etanol. “Não podemos deixar de competir”, afirma.

Em Pernambuco, Cunha preocupa-se mais com o crescimento vertical do que com a construção de novas unidades de produção. Segundo ele, as usinas pernambucanas estão localizadas, em média, a 60 quilômetros dos portos e estão investindo no aprimoramento de sua logística. “Além disso, também buscamos investimentos em genética, para melhorarmos a produtividade da cana no Nordeste em 20%.”, afirma. “Enfim, buscaremos mais competitividade enquanto o Canal do Sertão não vem.”

Já em Alagoas, a preocupação é com a irrigação. Só nesta safra, segundo dados da Cooperativa Regional dos Produtores de Açúcar e Etanol, foram investidos R$ 30 milhões em sistemas de irrigação. “Já havíamos realizado grandes investimentos em irrigação três anos atrás, mas agora as empresas estão se organizando para amplia-los”, diz Pedro Robério, presidente do SindaçúcarAL.

DNHEIRO RURAL 78

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