A gigante brasileira quer morder um bom pedaço do mercado internacional começando pelo Canadá. Para isso, contará com a força da Shell
Viviane Taguchi
Durante 64 anos, a Costa Pinto era apenas mais uma usina fincada no interior paulista. Da junção com a Santa Bárbara, em 2000, saiu a Cosan – Co, de Costa Pinto, e San, de Santa Bárbara. E então, todas as décadas de calmaria ficaram esquecidas no passado. Dez anos se passaram desde a formação do grupo, o que implica em mais 21 usinas, capital aberto na Bovespa e Bolsa de Nova Iorque, Esso, Radar, Rumo e União e, para quem acha que a Cosan cresceu muito, prepare-se: o gigante está apenas despertando. No próximo mês, a líder brasileira em produção de açúcar e etanol deverá assinar o acordo final com a Shell International Petroleum Company Limited para a criação de duas joint ventures (JV) que marcarão a história do etanol nos quesitos tecnologia e distribuição. Sem falar nos bilhões de dólares que o negócio envolve, significa mesmo “ganhar o mundo”. A Cosan está apenas dando o primeiro passo para entrar definitivamente no mercado internacional de biocombustíveis e a Shell será a porta de entrada para os seus objetivos. Quando o Memorando de Entendimento (MoU) deste negócio foi anunciado, em fevereiro, falava-se apenas na liderança no mercado brasileiro. No entanto, as intenções Cosan-Shell vão, comprovadamente, bem além disso. “Podemos dizer que estamos passando por um processo de internacionalização acelerado”, define o presidente da Cosan Açúcar e Álcool (CAA) e vice-presidente do Grupo Cosan S.A, Pedro Isamu Mizutani. As estratégias da Cosan para morder as fatias do mercado são bem claras: para o Brasil, a Cosan comprou a Esso. Para o mundo, une-se à Shell. “Para ser bem direto, o que queremos é ser o 2º grande player mundial do setor de biocombustíveis”.
Mizutani, assim como a própria Cosan, cresceram e se fizeram juntos. Ele era apenas um estagiário recém-saído da faculdade quando entrou para a Costa Pinto. Tornou-se um executivo de grandes negócios, braço direito de Rubens Ometto Silveira Mello, já é um “canasauro”, termo usado no setor para quem já alcançou três décadas de usina e agora, junto com Marcos Lutz, bem mais novo na companhia, irá orquestrar a carimbada internacional da marca, que começará pela América do Norte a partir do mês que vem. “As joint ventures poderão abrir as portas do mercado internacional com força para os biocombustíveis, e a Cosan quer sim, ser o líder neste nicho de mercado. Quando veementemente juntarmos os ativos da Cosan com a tecnologia da Shell, teremos uma empresa muito bem consolidada na América do Norte, sobretudo no Canadá”, diz ele. “Isso será fundamental para entrar nos Estados Unidos”. No mercado doméstico, a Cosan cresce aos poucos através da Esso, adquirida em 2008. A intenção é abocanhar até 10% do mercado nos próximos anos. Hoje, detém 5,6% do mercado de combustíveis no Brasil. “É um processo difícil e demorado, mas queremos crescer ainda mais”.
Até julho, as JVs Cosan-Shell serão finalmente assinadas. Uma é a JV Açúcar e Etanol e a outra, a JV Downstream. Juntas, as empresas juntarão US$ 4,9 milhões em ativos das 23 usinas de açúcar, etanol e cogeração de energia, terminais de distribuição, participação no Uniduto e participação na integração vertical e mais US$ 2,5 milhões de dívidas líquidas da Cosan, com US$ 3 milhões com ativos de distribuição da Shell no Brasil, ativos de combustíveis de aviação e ativos de tecnologia de 2ª geração e a contribuição total em caixa, de US 1,925 milhões. A associação pode dar à Cosan um aumento de R$ 2,764 bilhões em seu valor de mercado, segundo os analistas do Morgan Sanley, Javier Martinez e Alessandro Baldoni, em relatório divulgado recentemente. “O valor de mercado da Cosan deve subir de R$ 9,025 para R$ 11,789 bilhões com esta associação”. A estimativa é que as JVs elevem o valor da Cosan em R$ 769,5 milhões, metade da sinergia esperada de 1,5 bilhão (a outra metade vai para a Shell) porque no setor de combustíveis, os maiores ganhos vêm de escala e, associada à Shell, a Cosan ganhará boa parcela nas vendas de etanol, diesel e gasolina.
Por parte da brasileira, os investimentos não param de crescer. Para esta safra, são US$ 90 milhões na produção de açúcar, R$ 2,2 bilhões em cogeração de energia e R$ 50 milhões/ano para mecanização da lavoura. “Sabemos que somos um player importante, que está sempre na hora certa e no lugar certo. Por isso, estamos sempre prontos para nova empreitada”, finaliza Mizutani, bem ao seu jeitinho modesto e com a naturalidade de quem já se acostumou a lidar apenas com gigantes mundiais.
Dinheiro Rural (Maio de 2010)
segunda-feira, 4 de abril de 2011
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