sexta-feira, 8 de julho de 2011



Essa é a capa do mês de Julho! Fui pro Oeste fazer a matéria com o Horita, com a Izabel e com o Uilham, que por conta da edição, não entrou.

Caramujos africanos podem virar etanol de segunda geração

Cientistas brasileiros detectaram enzimas capazes de produzir açúcar na praga que devasta lavouras

por Viviane Taguchi

Em Feira de Santana, na Bahia, eles se transformaram no pesadelo dos produtores rurais. No Oeste de São Paulo, viraram peste de lavoura e até de ruas, e em Minas Gerais, tornaram-se pragas da pior espécie para diversas culturas. Os caramujos africanos invadiram quase todas as áreas agrícolas brasileiras, em todas as regiões, e transformaram-se em uma verdadeira enxaqueca para o agronegócio. Antes de ser um mal para a saúde pública, estes molucos possuem grande poder de provocar desequilíbrio ecológico.

Mas agora, pesquisadores concluíram que esta praga rastejante pode ser benéfica e ter grande utilidade como coadjuvante na produção de etanol de segunda geração, como é chamado o álcool obtido a partir de celulose.

Os estudos com o caramujo africano foram concluídos recentemente pelo Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial (Inmetro) e apontam que o aparelho digestivo do bicho, que é um devorador voraz de plantas (este é exatamente o estrago que ele faz nas lavouras e consequentemente, para o meio ambiente), tem enzimas, bactérias e fungos capazes de quebrar moléculas de celulose, resultando na produção de açúcares. Segundo os pesquisadores, várias outras pragas devoradoras de vegetais foram estudadas, mas só o caramujo africano apresentou esta capacidade.

O processo de transformação de plantas em açúcares dentro do organismo do caramujo seria semelhante ao processo realizado na usina. Depois de ingerir o alimento, as bactérias e os fungos que vivem no seu intestino agem conjuntamente com as enzimas e transformam a celulose, rica em lignina, em açúcares. O trato digestivo destes animais (biomassa de molusco) seria comparado ao bagaço que sobra nas usinas, mas com qualidade superior ao fungo trichoderma reesei (organismo atualmente utilizado para fermentar a celulose do bagaço no processo convencional). De acordo com o Inmetro, a biomassa do caramujo poderia passar pelo processo convencional de fermentação para ser transformada em etanol de segunda geração.

Mas as pesquisas e o uso comercial dos caramujos ainda podem estar longe de serem efetivados. De acordo com o pesquisador Wanderley de Souza, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), ainda seria necessário encontrar um meio de isolar estes fungos, bactérias e enzimas e fazê-los crescer fora do organismo do caramujo. Segundo Souza, se esta alternativa for logo encontrada e tornar-se economicamente viável, seria possível dobrar a quantidade de etanol de segunda geração produzida no Brasil em um prazo de dois anos, com a mesma área plantada.

Por ser um processo moroso, as usinas queimam o bagaço que sobra da moagem da cana para gerar bioeletricidade e alimentar as instalações internas e exportar o excedente para as redes públicas, através de leilões.

A fabricação do etanol de segunda geração ainda é um gargalo para o setor, já que transformar o bagaço em monossacarídeo é difícil e exige grandes quantidades de tratamentos enzimáticos e ácidos. "A lignina presente nas paredes celulósicas da biomassa são quebradas com dificuldade, o que não aconteceu no intestino do caramujo", explica Souza.

Agora, o Inmetro vai testar e dar continuidade aos testes no Centro de Pesquisas Leopoldo Américo Migues de Mello, o Cenpes, órgão da Petrobras. Isso inclui gerar um fungo modificado geneticamente para acelerar o crescimento das enzimas do intestino dos caramujos fora do organismo deles.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Conheça o amaranto, a planta que veio do frio



Por Viviane Taguchi

O sol forte que empresta tons de laranja aos dias de inverno no Cerrado anuncia que é tempo de colher amaranto. A planta que veio do frio dos Andes para o calor do Planalto Central está ganhando terreno em um mercado que agrega valor em tudo que é mais rico em nutrientes e menos convencional na agricultura, o da alimentação saudável. Pesquisas científicas e adaptações de sementes ao clima e solo do Cerrado, elaboradas pela Embrapa Cerrados, resultaram na variedade BRS Alegria e despertou o interesse – ou tem feito a própria alegria - de agricultores que investiram no cultivo. Em Brasília, é possível comprar um quilo de grãos de amaranto direto do produtor por R$ 9, enquanto em São Paulo esse é o valor médio de 100 gramas de flocos do pseudocereal (sua composição nutricional é similar à dos cereais, mas não pertence à categoria). “Há disparidade de preços porque a produção nacional é tímida e precisamos importar o amaranto”, explica Carlos Spehar, professor da Universidade de Brasília (UNB) e responsável pela introdução da espécie no Brasil. O cientista a trouxe o vegetal do Peru nos anos 1980 e obteve a variedade adaptada cerca de dez anos depois, quando começou distribuir sementes para produtores de feijão do Centro-Oeste. Hoje, Spehar aponta cultivos do grão – que ele chama de feijão-dos-andes – no Cerrado, e no sul do país.



A produção nacional precisa crescer muito para atender à demanda dos consumidores ávidos por alimentos mais saudáveis. Hoje, a safra gira em torno de oito toneladas anuais e a demanda é estimada entre 15 e 20 toneladas. “São pessoas que têm um poder aquisitivo alto e não se importam em pagar mais para ter no prato um alimento mais rico, mais saudável”, ressalta Spehar. Walter Quadros Ribeiro Junior, da Embrapa, diz que, apesar da produção nacional ser pequena, a produtividade do amaranto no Cerrado supera a de países que o produzem em larga escala, como Peru e Bolívia. “A produtividade de nosso grão é de três toneladas por hectare, enquanto a média alcançada nesses países é de duas a 2,5 toneladas por hectare”, afirma o pesquisador. Ribeiro explica que o cultivo do amaranto pode ser feito em três épocas, safra, safrinha e inverno, e a produtividade depende da quantidade de água disponível para irrigação e dos índices pluviais do período. “Os melhores índices foram registrados na safra de inverno”, afirma. Spehar lembra que o uso da tecnologia possibilita produzir o ano todo. “Irrigação, correção de solo e equipamento adequado garantem produções permanentes”, diz.
O engenheiro agrônomo Sebastião Conrado de Andrade, proprietário da Fazenda Dom Bosco, em Cristalina (GO), pouco sabia sobre o amaranto quando a espécie lhe foi apresentada, em meados de 2001, por Spehar. Hoje, com produção anual média de seis toneladas, cultivadas em duas safras, ele é o maior fornecedor nacional do grão. “Aposto no cultivo visando a um mercado de longo prazo”, conta Andrade, que também produz quinoa, feijão, soja e milho e cria gado. Para se expandir mais rapidamente, o produtor diz que é preciso investir em tecnologia de equipamentos. “Por se tratar de um grão muito pequeno, há um índice de desperdício grande na colheita e no plantio.” Na Dom Bosco, parte da produção também substitui a alimentação do gado. “O caule do amaranto promoveu boa digestibilidade e foi mais bem aceito que a quinoa.”
As qualidades do amaranto, valorizadas pelo extenso uso em civilizações antigas como alternativa medicinal, movimentam bastante o ramo gastronômico. “Mas poderíamos trabalhar mais e melhor se tivéssemos facilidade em encontrar o produto no mercado”, reclama o chef de cozinha paulistano Renato Callefi. De acordo com ele, há no mercado paulista uma demanda grande por grãos inteiros. “Encontramos flocos de amaranto em lojas especializadas, mas comprar o grão é muito difícil”, diz ele. É justamente o grão a forma mais valorizada na culinária. Aquecido em panela sem óleo, o amaranto vira pipoca e, triturado, se transforma em farinha. Apesar de Callefi afirmar que o segredo está no tempero do amaranto, “sem gosto específico”, ele diz que a procura por pratos com o grão cresceu muito. “É um alimento com qualidades equilibradas, baixo teor glicêmico e aminoácidos essenciais. É para pessoas exigentes com o próprio corpo.”

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Alto custo de produção ameaça safra de cana no Egito

A produção sucroalcooleira egípcia, uma das principais atividades agrícolas daquele país, está passando por uma crise econômica e as perdas podem atingir pelo menos 65 mil feddans (unidade agrária do Egito, equivalente a 4200 metros quadrados) plantados com cana-de-açúcar. A crise ameaça principalmente os produtores rurais que plantaram na região do Alto Egito e as principais
causas seriam o alto custo de produção da cultura, como a alta nos preços dos fertilizantes e a escassez de energia elétrica nas principais regiões produtoras.

No Egito, na região de Wadi Al-Naqra, em Aswan, a produção de cana gira em torno de 17 milhões de toneladas de cana-de-açúcar (1,5 milhão de toneladas de açúcar foram exportadas na safra passada), mas este ano, o país deve colher apenas 11 milhões de toneladas. Após os conflitos políticos ocorridos no país, as regiões produtoras do Alto Egito, que também se destacam pela forte cultura do trigo, vem sofrendo cortes de energia, o que impossibilita o uso de equipamentos de irrigação.

De acordo com o produtor rural el-Daba'wi Shehata, porta-voz dos agricultores de Manar, está faltando energia na região porque pelo menos 60 transformadores elétricos foram roubados das aldeias agrícolas. "Nós reclamamos para a empresa de distribuição de eletricidade e nos disseram que isso era responsabilidade da Companhia de Eletrificação Rural, que nos disse para procurar a empresa de distribuição de eletricidade. Ou seja, a agricultura está vivendo na escuridão", disse o produtor ao jornal The Egyptian Gazette. Ibrahim el-Folli, que também é fazendeiro na região afirmou à imprensa que os agricultores até assumiriam o pagamento dos equipamentos de energia. "Mas eles ignoraram nossos pedidos", disse el-Folli.


Pressão As perdas na safra egípcia podem fazer com que o preço do açúcar suba ainda mais no mercado internacional e a pressão para que o Brasil aumente as exportações fica cada vez maior. A commodity vem sofrendo altas constantes desde o ano de 2009, quando a Índia, um dos principais países produtores de açúcar, sofreu uma drástica redução na sua safra, em decorrência de fatores climáticos.
O Brasil se beneficiou do momento e ocupou a liderança nas exportações de açúcar. Segundo dados da Datagro, de toda a cana colhida em 2010/2011 (580 milhões de toneladas), 30,6% foram destinados à produção de açúcar para exportação e apenas 15% para o consumo interno. O consultor Plínio Nastari, diretor-presidente da Datagro, diz que a produção açucareira
brasileira vai continuar em alta, devido aos bons preços do mercado internacional, mas o Brasil está atingindo o seu limite. "Estamos próximos do limite da fabricação de açúcar. Aumentar a produtividade, expandir a área agrícola para produzirmos mais não é uma urgência ligada apenas ao etanol, mas a toda a cadeia", afirma.

A Cosan, maior produtora nacional de açúcar e dona das marcas Da Barra e União, está trabalhando neste limite. "Tudo o que é produzido chega ao Porto de Santos e imediatamente segue para o embarque nos navios. Não há estoques nos armazéns", afirmou Júlio Fontana Neto, presidente da Rumo Logística, subsidiária da Cosan. "É um bom momento e tudo indica que vai continuar sendo".

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Cade quer Brasil Foods mais magra

Restrições mais duras do órgão podem ameaçar fusão entre Sadia e Perdigão ou obrigar a megaempresa a vender suas marcas menores

por Viviane Taguchi

O imbróglio que envolve a fusão da Sadia com a Perdigão e o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) deve render fortes dores de cabeça à diretoria da BRF Brasil Foods, companhia criada em 2009, quando a Perdigão comprou a Sadia. Um entendimento harmonioso entre os dois parece estar longe de acontecer. Alegando que a fusão deixaria nas mãos da BRF Brasil Foods 70% do mercado e a monopolização do setor, o Cade emitiu, no início de maio, um parecer, o Procade, pedindo restrições mais duras para aprovar a união. Isso pode indicar que a BRF terá de se desfazer de marcas como Wilson, Rezende, Confiança e Batavo ou vender a Sadia para possibilitar a livre concorrência. É justamente aí que o porco torce o rabo. Para a BRF, vender a marca estaria fora de cogitação. Mas, em meio a todas as tratativas e incertezas sobre a consolidação do negócio, como é que ficam os fornecedores de suínos e aves da Sadia e da Perdigão?

Para José Carlos Hausknecht, sócio da MBAgro Consultoria, a cadeia produtiva não sofrerá consequências em razão da decisão do Cade. “É uma decisão que envolverá muito mais as transações econômicas das companhias, o mercado e o consumidor final. A produção no campo não deve ser afetada”, diz Hausknecht. “A única possibilidade de os produtores rurais serem prejudicados seria se essas fábricas menores fossem compradas por agentes não confiáveis do mercado, e essa é uma possibilidade bem remota”, rebate.

Para a BRF Brasil Foods, essa certeza não é tão clara. Abrir mão da Sadia poderia acarretar em queda nas vendas e prejudicar a capacidade de exportações da empresa, o que refletiria na produção agrícola. Conforme dados do Ministério do Desenvolvimento, Sadia e Perdigão venderam ao exterior US$ 4,41 bilhões no ano passado, ficando atrás apenas da Vale e da Petrobras. A preocupação do Cade é com o preço final dos alimentos.

José Antônio Fay, presidente da BRF Brasil Foods, declarou o congelamento dos investimentos da companhia até a decisão final, que deverá acontecer no final de junho. Segundo ele, isso poderia beneficiar os produtores rurais, visto que a demanda seria maior para atender ao mercado externo. “Vamos criar uma grande exportadora nacional e será possível reduzir custos”, disse. Na opinião do executivo, os produtos da BRF Brasil Foods (as marcas Rezende e Wilson) concorrem diretamente com as outras marcas do mercado, como a Seara, do Marfrig. “A aprovação da fusão poderia sim incrementar a produção no campo, mas o contrário não ameaça o agronegócio”, completa Hausknecht.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Cana e pecuária terão linhas de crédito específicas

Meta do governo no Plano Safra 2011/2012 é estimular a oferta de carne nos próximos dois anos e incentivar a abertura de novos canaviais, renovando as áreas

por Viviane Taguchi, de Ribeirão Preto (SP)

Pela primeira vez, o Plano Safra terá linhas de crédito específicas para a pecuária e para o setor sucroenergético. Na primeira, os pecuaristas poderão contratar até R$ 750 mil para investimentos em compra de reprodutores e matrizes (bovinos e bubalinos) e o limite de custeio também atinge o teto de R$ 650 mil, incluindo aí a pecuária de corte, leiteira, ovinocaprinocultura, suinocultura e apicultura. No ano passado, este limite era de R$ 250 mil. Wilson Araújo, coordenador geral de economia agrícola do Ministério da Agricultura e Pecuária, explicou que a meta do governo é estimular a oferta de carne nos próximos dois anos para equilibrar o mercado.

Os pecuaristas terão mais acesso a crédito pelo Programa de Modernização da Agricultura e Conservação de Recursos Naturais (Moderagro). "O limite de crédito por pecuarista dobrou, passou de R$ 300 mil para R$ 600 mil individualmente. O crédito coletivo também, saltou de R$ 900 mil para R$ 1,2 milhão", revela. Segundo Araújo, os pecuaristas também poderão ser beneficiados com o crédito do Programa de Apoio ao Médio Produtor Rural (Pronamp). "O aumento da renda bruta permitirá o enquadramento de médios produtores. A linha passa a considerar a renda bruta de R$ 700 mil para que o pecuarista possa acessar os R$ 8,3 bilhões disponíveis pelo Pronamp.

No setor sucroenergético, a meta é estimular a abertura de novos canaviais e renovar as áreas que já vinham sendo utilizadas. Esta linha disponibilizará R$ 1 milhão para produtores independentes, com o prazo de pagamento de cinco anos. "O objetivo maior é atendera demanda crescente por etanol, em função da expansão da indústria automobilística flex", afirmou José Carlos Vaz. A atividade também teve o limite de custeio ampliado para R$ 650 mil.

Linha de crédito para estimular a agricultura sustentável terá R$ 3,15 bi

A taxa de juros do ABC será de 5,5% ao ano, a menor taxa fixada para o crédito rural

por Viviane Taguchi, de Ribeirão Preto (SP)

Uma das principais novidades anunciadas no Plano Agrícola e Pecuário 2011/2012 é a incorporação das linhas de crédito do Programa de Plantio Comercial e Recuperação de Florestas (Propflora) e o Programa de Estímulo à Produção Agropecuária Sustentável (Produsa) ao Programa Agricultura de Baixo Carbono (ABC), que visa estimular uma "safra verde" (com a recuperação de áreas de pastagens degradadas, implantação e ampliação de sistemas de integração lavoura-pecuária-floresta, correção e adubação de solos, plantio e manutenção de florestas comerciais, adoção da agricultura orgânica, agricultura de precisão, recomposição de áreas de preservação permanentes ou de reserva legal), e terá R$ 3,15 bilhões disponíveis.

Segundo o secretário de Política Agrícola do Ministério da Agricultura e Pecuária, José Carlos Vaz, a taxa de juros do ABC será de 5,5% ao ano, a menor taxa fixada para o crédito rural.

O Programa ABC foi incluído no Plano Safra no ano passado, mas poucos produtores rurais acessaram o crédito e quase todo o dinheiro,R$ 2 bilhões, ficaram nos bancos.

"Realmente, existia uma complexidade de exigências e regras para o Programa ABC. Com a incorporação dos outros dois programas e maiores esclarecimentos ao produtor, acreditamos que este crédito terá maior acesso nesta safra", afirmou Vaz.

Outro anúncio que muda as diretrizes do plano é a ampliação do limite de custeio da safra, que passa a ser fixado em R$ 650 mil para os produtores rurais que adotarem práticas sustentáveis como o plantio direto, agricultura orgânica e os produtores que já possuem ou que apresentem um plano de recuperação das áreas de preservação permanentes (APP) e de reservas legais. "Esse valor pode ser expandido ematé 45% dependendo da quantidade de técnicas utilizadas pelo produtor", ressalta.