sexta-feira, 15 de abril de 2011

Começa a Safra de Cana na Região Centro-Sul

http://revistagloborural.globo.com/Revista/Common/0,,EMI226395-18077,00-SAFRA+DE+CANA+COMECA+NA+REGIAO+CENTROSUL.html


Mudanças acontecem!

Desesperar jamais
Aprendemos muito nesses anos
Afinal de contas não tem cabimento
Entregar o jogo no primeiro tempo

Nada de correr da raia
Nada de morrer na praia
Nada! Nada! Nada de esquecer

No balanço de perdas e danos
Já tivemos muitos desenganos
Já tivemos muito que chorar
Mas agora, acho que chegou a hora
De fazer Valer o dito popular
Cutucou por baixo, o de cima cai
Desesperar jamais
Cutucou com jeito, não levanta mais

E no dia 07 de Abril fui contratada pela Globo Rural!!!

segunda-feira, 4 de abril de 2011

...

Fofa 2



CAdelinha Pam foi localizada andando sobre um telhado que boiava no mar do Japão, em Sendai.A sua dona a viu pela TV e foi busca-la. Fofa, fofa! Tão fofa quanto a Consuelo! hahaha

Vida


Um post sobre o Joãozito Andrade merece concentração....

O mestre da caatinga




No sertão da Bahia, o pecuarista Joãozito Andrade formou o plantel nelore mais puro do Brasil, salvou os caprinos canindé da extinção e inventou o gado violeira e os ovinos trindade. Aos 90 anos de idade, ele ainda quer fazer mais pela pecuária nacional

Viviane Taguchi, de Jeremoabo (BA)

Eram 5 horas da manhã e o pecuarista João Batista Andrade, um sertanejo de 90 anos de idade, já estava de pé. Parado na porta da sede da Fazenda Várzea dos Gatos, em Jeremoabo, cidade distante 452 quilômetros de Salvador, a capital da Bahia, Joãozito Andrade, como é mais conhecido no agronegócio mundo afora, chamava por Maria, a funcionária que o acompanha o dia todo, há 18 anos. Pediu seu chapéu, pois não queria aparecer em nenhuma fotografia de DINHEIRO RURAL sem o acessório. Ajeitou os óculos de sol, alisou a camisa, escolheu uma bengala de madeira escura para ajudar-lhe nos passos, hoje dificultados pela idade avançada, e perguntou se estava bonito. Convidou a equipe de reportagem para o café da manhã e logo após degustar salada de tomate, inhame e um café preto, bem forte como ele gosta, apressou-se em ir até o local escolhido como cenário para a sessão de fotografia desta reportagem. Nas pedreiras, paisagem típica das fazendas do semi-árido nordestino, Joãozito posou com a naturalidade de quem está acostumado aos flashes e com a simplicidade do homem do interior que é. Suas origens têm tudo a ver com o negócio que construiu na pecuária. Foi lá, em meio à natureza rude da caatinga, que ele formou o plantel de gado nelore Puro de Origem Importado (POI) mais puro do mundo, que reúne semelhanças idênticas ao primitivo gado ongole da Índia. E isso se deu de forma natural, segundo ele: gado criado no pasto, monta natural (quando a reprodução não é assistida) e sem suplementação mineral. “Eu não fiz nada, só respeitei a necessidade dos animais na natureza, que lhes ofereceu o necessário para sobreviverem nas duras condições da caatinga”, diz Joãozito, que deu início ao seu trabalho de nelorista em 1942, em plena Segunda Guerra Mundial. “Acompanhava as notícias pelo rádio”, diz. Filho do fazendeiro Manuel Vieira de Andrade, o Seu Né, Joãozito era um dos pouco jovens daquela região a possuir um aparelho.
Mas sua trajetória como pecuarista vai além do gado. Joãozito evitou a extinção a raça caprina canindé. “Encontrei uma cabra na porta do matadouro e a comprei, depois saí em busca de um macho para cruzá-la. Um dia, eu achei”, lembra. Hoje, ele é dono do maior rebanho canindé que se tem notícia, e em suas terras, os laboratórios naturais, criou a raça de ovinos trindade (carneiros brancos e castanhos, deslanados, que mesclam as raças texel e morada nova) e o gado leiteiro violeira, um cruzamento de holandês vermelho, nelore e raças nativas do sertão. “Se a saúde permitir, ainda tenho uns planos”, diz ele. Não são poucos: entre eles estão a aquisição do gado flamengo para melhorar a raça violeira, que dá uma média de 10 litros de leite por dia, escrever um segundo livro de memórias (em dezembro passado, ele lançou sua auto-biografia em parceria com a historiadora Erenilda Custódio Amaral) e tomar aulas de informática. “Já mandei até projetar os móveis para colocar o computador”, diz.

A vocação de Joãozito para a pecuária é nata. Com um ano de idade, ganhou de presente uma vaca curraleira, proveniente do plantel de Garcia D’Ávila, o conde que povoou o nordeste brasileiro com gado. Aos 22, fez o seu primeiro negócio: trocou a curraleira por seis vacas velhas e um garrote que o pai comprara de criadores de nelore do Recôncavo. Com o dinheiro que sobrou, adquiriu dois hectares de terras – origem da atual Fazenda Trindade -, e fez a cruza de seus poucos nelores. Em Minas Gerais, conheceu o lendário pecuarista Torres Homem Rodrigues da Cunha, que lhe cedeu algumas novilhas e, assim, foi aumentando o rebanho. “Foi uma dureza danada”, conta o pecuarista, que ao relembrar fatos antigos, verte lágrimas de emoção. Hoje, seu patrimônio inclui três propriedades: a Fazenda Trindade, de 410 hectares em Cícero Dantas, o Trindade Rancho, de 94 hectares em Feira de Santana, e a Várzea dos Gatos, de 3500 hectares, em Jeremoabo, local que ele chama de Terra Sonhada. Nessas propriedades espalha-se o seu rebanho: o plantel nelore POI soma 1,2 mil cabeças, o rebanho Canindé, 600 animais, além de 130 ovinos trindade e 270 exemplares de violeira. “Não me considero dono de nada, sou um administrador”, afirma. O fazendeiro, que quando jovem chegou a fugir de Lampião e seu bando de cangaceiros, temendo que estes lhes roubassem suas vacas, credita a pureza do seu rebanho ao manejo simples que adotou. “Observei o comportamento do gado, que tem hora para acordar, dormir, comer, ruminar”, diz. “Eu os respeitei e eles preservaram suas qualidades nativas.”
Seu rebanho nelore segue as linhagens de Akasamu e Padhu, touros importados da Índia em 1967 e que fecharam seu plantel de cruzas consangüíneas perfeitas. “Fiz um trabalho de consanguinidade, tendo como base animais selvagens, que se mantêm em estado de pureza desde a criação do universo, sem sinais de degenerescência”, diz Joãozito. Esse trabalho de observação, segundo ele, o levou a acompanhar de perto os partos de todas as suas vacas, por pelo menos 20 anos. “Sem exageros, eu vi todos, porque precisava saber se haveria anomalias, anotar as qualidades do bezerro e ajudar caso fosse preciso”, explica. Para facilitar, ele mandou construir o curral bem próximo à janela de seu quarto. “O critério é simples: os animais que sobrevivem à seca da caatinga, sem suplementação alimentar, foram adaptados. Os que não sobreviveram, foram eliminados do plantel”. A pureza deste rebanho é tão rara que, em 1994, o presidente da Associação Ongole da Índia, Narendra Mallapuddi, pediu para conhecer o Nelore Trindade, em busca de exemplares puros que pudessem recompor o plantel indiano. “Eu não acreditei quando recebi a carta dele”, emociona-se Joãozito, que também já visitou a Índia para conhecer de perto os ongoles.

Este manejo simples deu ao Nelore Trindade e aos canindés uma qualidade difícil de se obter, a docilidade. Na Várzea dos Gatos, os rebanhos atendem pelo nome. Joãozito chama e o boi vem, faceiro entre os intermináveis pés de mandacaru e xique-xiques que se espalham pelo pasto, até chegar a ele, pedindo carinho, ou pode ser uma cabritinha, que chega serelepe aos seus pés em busca de cafuné. “Ué, são meus animais de estimação”, responde. O advogado Pedro Novis, ex-presidente do grupo Odebrecht e proprietário da Fazenda Guadalupe, em Araçatuba (SP), conta que certa vez perguntou a Joãozito como seria um nelore modelo. “Ele me olhou com aquela candura cheia de malícia de que só ele é capaz e disse que havia uma vaca, comprada por seu pai que, de tão mansa, dormia na varanda da casa dele”, diz Novis. “O animal ideal, para ele, era aquela vaca.”. Folclore à parte, Novis acha que a contribuição de Joãozito para a pecuária vai muito além. “O trabalho que ele desenvolveu ultrapassou esse modelo, e isto só não é reconhecido porque sua humildade e modéstia não deixam”, afirma. Novis é um dos principais neloristas do País e um dos proprietários da vaca Maharash II, de R$ 3,4 milhões. “Me encantei pelos Nelores Trindade quando os vi pela primeira vez, em 1994”, diz. “São animais excepcionais, sob qualquer análise.” Ao iniciar o seu rebanho, Novis escolheu justamente o Nelore Trindade. “A linhagem genética da Trindade não se popularizou fora do Nordeste”, diz. “Por isso mesmo, esses animais são fundamentais para a renovação de sangue dos rebanhos do Sul.”

Com as cabras canindé, a história se repetiu. Após comprar uma cabritinha, que nomeou de Boa Sorte, e poupa-la do abate, Joãozito pesquisou sobre a raça e tentou encontrar um macho. Andou muito. Percorreu todo o sertão, foi aos lugares onde sabia que existiam muitos caprinocultores, além de viajar para a França, Espanha, Portugal. Em vão. Até que recebeu a informação de que no município baiano de Uaua havia um animal parecido. “E era mesmo. Comprei, cruzei os dois animais e nasceu o Chefão, bode que salvou o canindé da extinção”, conta Joãozito. Nessa hora, ele levanta os olhos para o céu, como se agradecesse a Deus por ter lhe dado a chance da salvação destes animais e novamente derruba uma lágrima de felicidade. “Me orgulho de saber que todo animal canindé que tem por aí, saiu daqui”, diz. “Tem até na Malásia.”. A intuição de Joãozito ao resgatar a cabra Boa Sorte tomou outros rumos, desta vez no ramo científico. Suas cabras foram inseridas em pesquisas da Universidade Estadual do Ceará (UECE), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e da Academia de Ciências da Rússia. “Eles estavam procurando uma cabra que conseguisse produzir no leite uma proteína necessária para fazer medicamentos para pessoas que tem o vírus HIV e estão com o organismo debilitado. Encontraram essa capacidade nas canindés”, diz Erenilda Amaral, co-autora do livro A trajetória de vida e devoção de um sertanejo. “A pesquisa agregou valor ao produto nativo e colocou o Brasil em um seleto grupo de países que dominam esta técnica em caprinos.”. Para essa pesquisa, Joãozito doou 200 animais. A dedicação à essa raça de corte, que se reproduz com facilidade na caatinga, tem sido recompensadora: e um canindé reprodutor pode custar R$ 2 mil.

Falar de dinheiro e lucros com Joãozito é impossível. “Ele faz doações constantes de canindé para pesquisas, já doou até bezerros nelores para os amigos”, diz Otacílio Conceição Junior, um jovem de 23 anos, que cresceu sob os cuidados de Joãozito. Hoje, Otacílio é o braço direito do pecuarista (a quem ele chama de Tio Zito) nos negócios e está, aos poucos, assumindo a administração das fazendas. Mas Joãozito acompanha cada detalhe e não para de pensar um minuto, o que lhe rende até insônia. “Otacílio é meio afobado como todo jovem, mas assim como seu pai, Dodô, aprende tudo e tem amor ao trabalho”, diz Joãozito. Dodô é o vaqueiro fiel que ajudou Joãozito a formar a Várzea dos Gatos, há 40 anos. Por tanta dedicação, o pecuarista lhe deu de presente uma fazenda vizinha e alguns animais para que tocasse o próprio negócio. “Dodô chegou aqui com 19 anos e aprendeu tudo. Foi meu fiel companheiro de lutas”, conta o sertanejo, que não teve filhos legítimos e nunca se casou. Joãozito disse a DINHEIRO RURAL que ainda está pensando a quem entregará a continuidade de seu legado, mas desconversa. “Minha missão, eu sei que cumpri em prol da pecuária nacional, isso é o que me importa.”

Joãozito também não gosta de vender animais, nem os nelores e nem os canindés (as violeiras e os trindades ele não comercializa porque ainda está aprimorando a raça). Franze a testa e demonstra até mau humor quando o assunto é esse. “Eu vendo só porque tenho que pagar as contas”, afirma o pecuarista. Ao contrário da maioria dos neloristas, ele não vê a criação como fonte de enriquecimento, apesar do considerável patrimônio que a pecuária lhe deu. “Eu sou o pecuarista menos premiado do mundo, porque eu não coloco meu gado em exposição”, diz. “Se eu fizesse isso, teria que dar suplementação pro animal.”. Ele também não gosta de participar de leilões.” Quem quiser comprar um Nelore Trindade ou um canindé precisa ir até a fazenda. O empresário Jonas Barcellos, fundador da Brasif, a empresa que controla os free shops nos aeroportos brasileiros, é testemunha disso. Quando Barcellos, dono da Fazenda Mata Velha, de Uberaba (MG) decidiu tornar-se criador de nelore, procurou Joãozito no sertão, sabendo da qualidade de seu rebanho. “Tivemos uma conversa dificílima, pois ele não queria vender as vacas de cabeceira e eram exatamente estas que eu queria. Então, eu disse a ele que eu iria separar dez vacas e ele podia tirar cinco. As restantes eu levaria para a Mata Velha”, diz o empresário.

Hoje, Joãozito e Barcellos são grandes amigos. O mineiro foi um dos que ganhou de presente alguns animais, inclusive canindés. “Até hoje tenho algumas cabras que ganhei de presente”, diz Barcellos. Ter um exemplar de Joãozito no pasto, seja o boi ou o cabrito, é como um troféu para qualquer pecuarista que se preze. Felipe Picciani, presidente da Associação de Criadores de Nelore do Brasil (ABCN), diz não encontrar adjetivos para definir o nelore criado nas fazendas de Joãozito. “É como se estivéssemos importando o gado diretamente da Índia”, afirma Picciani. “Seu preço de mercado também seguiria estes padrões. Embora sejam animais de campo, são avaliados como animais de elite.” O preço dos nelores de Joãozito não segue o mercado de leilões, que projetam vacas milionárias para o mercado, mas um Nelore Trindade pode chegar a custar entre R$ 200 mil e R$ 500 mil. Ou de graça, caso Joãozito acredite que o interessado seja merecedor.


DINHEIRO RURAL 78

O plano que sumiu

Usineiros nordestinos encerram a safra de cana-de-açúcar com 62 milhões de toneladas de cana, mas esse número poderia ter sido maior se o projeto Canal do Sertão não tivesse sido engavetado pelo governo

Viviane Taguchi

Uma safra de 62 milhões de toneladas de cana-de-açúcar e apenas investimentos privados. Essa ainda é a realidade do fim da safra 2010/11 de cana no Nordeste brasileiro.Uma frustração para usineiros, produtores rurais e indústria se levarem em consideração que a situação poderia ser muito melhor, com um substancial aumento da produção. Não foi a seca e nem foi o mercado de biocombustíveis que emperrou este avanço, mas o próprio governo, que parece ter abandonado um dos maiores projetos do setor sucroenergético nordestino, o Canal do Sertão.

Lançado em junho de 2007 com pompa de “o mais promissor projeto internacional do setor sucroenergético nordestino”, o Canal do Sertão, orçado em R$ 1,2 bilhão, já poderia ter nesta safra sua primeira colheita, mas ninguém tem notícias dele. Nada saiu do papel e os produtores rurais continuam fazendo malabarismos para plantar cana somente em áreas mais próximas ao litoral e investir em verticalização e construir novas usinas com dinheiro próprio.

O Canal do Sertão era um projeto ousado, que daria a possibilidade de se plantar mais 150 mil hectares de canaviais (115 mil hectares em solo pernambucano e 35 mil hectares em terras baianas) e produzir 10 milhões de toneladas de cana-de-açúcar o ano inteiro com sistemas de irrigação. A Companhia de Desenvolvimento do Vale do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf) e a Petrobras investiriam R$ 20 milhões cada uma para financiar estudos de solo, obras e os sistemas de captação de água, e a Itochu Corporation, trading japonesa, aplicaria mais R$ 20 milhões, e daria a garantia de comprar todo o etanol produzido ali, levando-o diretamente para o Japão. Por seu turno, o governo federal, através do Plano de Aceleração do Crescimento (PAC) iria injetar nesse projeto outros R$ 20 milhões e o dinheiro restante viria da iniciativa privada, leia-se grupos de usinas tradicionais da região. A Itochu Corporation e a Petrobrás chegaram a assinar um memorando para o início do projeto, em junho de 2007, em Tóquio, ocasião que foi considerada “um marco no desenvolvimento do Nordeste”, conforme palavras do governador pernambucano Eduardo Campos. Mas até agora, o que se vê por lá ainda é uma seca tremenda, terra rachada e nenhum pé de cana plantado. E pior, nem a Codevasf, a Petrobras, a Itochu Corporation ou o Governo Federal sabem dizer o que aconteceu. “Tínhamos uma proposta consistente, que poderia expandir de forma inteligente a cadeia produtiva da cana-de-açúcar no Nordeste”, afirma Renato Cunha, presidente do Sindicato dos Produtores de Açúcar e Álcool de Pernambuco (SindaçúcarPE). “O Canal do Sertão surgiu de forma muito empolgante, mas perdeu fôlego e não decolou até agora.” Cunha acredita que divergências políticas possam ter afastado a Petrobras do projeto. “Eles perderam o interesse, não se sensibilizaram com a causa”, diz.

Até aqui, a Petrobrás vem demonstrando ter boas relações políticas com o governo de Pernambuco. Sérgio Gabrielli, presidente da estatal, durante evento que reuniu no Palácio Campo das Princesas o governador Campos e o presidente da Federação das Indústrias de Pernambuco (FIEPE), Jorge Côrte Real, declarou publicamente que apóia o grande volume de investimentos realizados no Estado. O desacordo político, então, poderia ser com o governo da Bahia, que teria reivindicado uma área irrigada maior de sua porção do Canal do Sertão. Segundo o Ministério da Integração Nacional, existem dois projetos de ampliação da área para o Estado, o esboço do Salitre e do Baixo Irecê, que se arrastavam há muito tempo, e entraram agora no PAC2. Para Cunha, do SindaçúcarPE os trabalhos do novo ministro da integração, Fernando Bezerra Coelho, que é nordestino ( mais precisamente, pernambucano de Petrolina), podem reavivar a esperança do Canal do Sertão ser viabilizado para o setor sucroenergético. “É possível que tenhamos uma retomada dessa iniciativa com o novo governo”, diz Cunha. “É o que o setor espera”.

Esta retomada, segundo o ministro Bezerra Coelho, pode surgir por intermédio da recém-lançada Secretaria Nacional de Irrigação. Através de sua assessoria de imprensa, o ministro informou que, por ora, as obras do Canal do Sertão para a cana-de-açúcar estão paralisadas, mas que a nova secretaria poderá dar novo impulso ao projeto. O Ministério, porém, não soube informar com precisão como seria esta nova fase do projeto. Na Petrobras, o Canal do Sertão também é assunto desconhecido. A assessoria de imprensa da estatal comunicou que o memorando foi assinado em 2007, um ano antes da criação da Petrobras Biocombustíveis, e por isso não poderia apontar os motivos que levaram a empresa a se afastar do projeto e a Itochu Corporation, também através de nota, lamentou a morosidade das obras.

Enquanto isso, os usineiros nordestinos, concentrados em Pernambuco, Alagoas e Paraíba, e responsáveis por 11% da receita nacional de açúcar e etanol, estão fazendo investimentos privados. Na Paraíba, o Sindicato das Indústrias de Fabricação de Etanol, a Cetrel e a Japungu Agroindustrial inauguraram a primeira planta de bioenergia a partir da vinhaça da cana para a produção de biogás e geração de energia elétrica a partir da vinhaça. No segundo semestre, a Japungu deve inaugurar também uma unidade em Pernambuco. “Produzir etanol de segunda geração é uma de nossas metas”, diz Edmundo Barbosa, presidente do sindicato. De acordo com Barbosa, a Paraíba participa ativamente da corrida tecnológica para aumentar a produtividade e a produção de etanol. “Não podemos deixar de competir”, afirma.

Em Pernambuco, Cunha preocupa-se mais com o crescimento vertical do que com a construção de novas unidades de produção. Segundo ele, as usinas pernambucanas estão localizadas, em média, a 60 quilômetros dos portos e estão investindo no aprimoramento de sua logística. “Além disso, também buscamos investimentos em genética, para melhorarmos a produtividade da cana no Nordeste em 20%.”, afirma. “Enfim, buscaremos mais competitividade enquanto o Canal do Sertão não vem.”

Já em Alagoas, a preocupação é com a irrigação. Só nesta safra, segundo dados da Cooperativa Regional dos Produtores de Açúcar e Etanol, foram investidos R$ 30 milhões em sistemas de irrigação. “Já havíamos realizado grandes investimentos em irrigação três anos atrás, mas agora as empresas estão se organizando para amplia-los”, diz Pedro Robério, presidente do SindaçúcarAL.

DNHEIRO RURAL 78

Aeroporto de Pato Branco


Pista curtinha e tempestade. Voamos para Pato Branco no jato da empresa, com uma comitiva de franceses. Obvio que dormi e quando abri os olhos, sentindo que ja estávamos chegando a assessora de imprensa dos franceses estava branca. Tentamos pousar três vezes e nada....hahahaha. Dormi de novo. Pelo menos, morrer dormindo deve ser menos apavorante.

Milho à francesa





A Cooperativa Limagrain, da França, adquire 70% da divisão de milho da paranaense Sementes Guerra e finca um pé no agronegócio brasileiro. A parcerias pode evoluir para as áreas de soja, trigo e feijão

Viviane Taguchi, de Pato Branco (PR)

Maïs brésilien avec chevronnés français, isto é, milho brasileiro com tempero francês. De agora em diante, produtores brasileiros e paraguaios de milho irão se deparar com muitas expressões francesas como essa quando forem levar as sementes para o campo. E os produtores rurais europeus poderão ver estampadas nas sacas compradas uma bandeirinha do Brasil. É que uma parceria inédita, selada entre empresários franceses e brasileiros, pode ser o início de uma mudança nos rumos do mercado de sementes de grãos, hoje dominado por grupos multinacionais que compraram e controlaram 100% das fábricas nacionais (algumas delas, mesmo ainda atuando fortemente no setor como a Agroceres e a Agroeste, ambas incorporadas pela Monsanto, tiveram suas marcas esquecidas para dar destaque ao nome do novo controlador). De um lado, aparece a cooperativa francesa Limagrain, quarta maior empresa mundial de sementes arvenses (cereais e oleaginosas) e líder do setor na Europa, dona de um faturamento anual de 1,4 bilhão de euros, com atividades em 38 países, inclusive no Brasil, onde já atuava com sementes de hortaliças, e 6 700 funcionários. Do outro, a Sementes Guerra, da família Guerra, de Pato Branco, no sudoeste do Paraná, que atua no Brasil e no Paraguai e vendeu para a Limagrain 70% de sua divisão de milho. O negócio, que envolve inicialmente R$ 91 milhões criou a Limagrain Guerra do Brasil (LG), cuja gestão e controle administrativo ficarão em mãos dos brasileiros. “Temos grandes ambições no Brasil”, afirmou Daniel Cheron, presidente da Limagrain, durante visita a Pato Branco. Por grandes ambições entenda-se interesse futuros também nos ramos da soja, trigo e feijão. “Estamos prontos para acompanhar o objetivo deles”, diz Luiz Fernando Guerra, presidente da Sementes Guerra e, agora, também da Limagrain Guerra.
A criação da nova empresa possibilitou a Limagrain ter acesso ao que começa lhe faltar na Europa, terras agricultáveis disponíveis (as da Sementes Guerra somam 7,5 mil hectares, em propriedades localizadas nos Estados do Paraná e Piauí) e um parceiro que entende no mercado brasileiro. “Trata-se de um mercado que varia muito de acordo com cada região e cada cultura”, diz Cheron. Na outra ponta, a Guerra achou quem pudesse fornecer-lhe biotecnologia avançada para enfrentar os concorrentes internacionais. Foi um casamento de interesses para ambos, que esperam obter um faturamento de 10 milhões de euros nos primeiros 12 meses de atividades da LG. Ricardo Guerra, filho de Luis Fernando e diretor-executivo da Sementes Guerra, acredita que parcerias com empresas internacionais são fundamentais para o futuro do setor. “Não existe meio de você concorrer com as grandes multinacionais que aqui estão instaladas se não tiver um respaldo biotecnológico grande”, diz. “O mercado de sementes avança cada vez mais em tecnologia, segurança alimentar e pesquisas.” A recíproca é verdadeira para o sócio. “Também não há como uma empresa do ramo da agricultura se manter fora do Brasil”, afirma Cheron. “O mundo todo já percebeu isso.”
Para a Associação Brasileira de Sementes e Mudas ( Abrasem), a criação da LG representa um avanço no setor, justamente no quesito de biotecnologia. Em 2010, o uso da biotecnologia garantiu R$ 3,6 bilhões à agricultura nacional e a nova empresa pode impulsionar ainda mais este setor. “O Brasil é o País que mais tem possibilidades de crescimento nesta área, está no foco de interesse de todas as grandes multinacionais de sementes”, diz Luis Carlos Miranda, diretor da Abrasem. “Nada mais natural que cada vez mais, estas empresas se estabeleçam por aqui em busca de crescimento, enquanto isso, as empresas brasileiras podem se firmar no mercado externo ancoradas em nomes fortes.” Em 2010, a área cultivada com sementes foi de aproximadamente 40 milhões de hectares: 23,2 milhões de hectares para soja, 13 milhões de hectares para o milho, 836 mil hectares em algodão. A meta da Limagrain Guerra é conquistar 10% do mercado brasileiro de sementes em um ano, com a produção inicial de 500 mil sacos/ano, e futuramente, instalar pelo menos cinco estações de pesquisa genética no País. As primeiras estações serão implantadas no Paraná e outra, na região Centro Oeste. “É indispensável investir em pesquisa e tecnologia em um País como o Brasil”, diz Joël Arnaud, vice-presidente da Limagrain. “Já estamos de olho neste setor”.
Atualmente, a Sementes Guerra é responsável por uma fatia de 3% do mercado nacional com fornecimento de sementes de soja, milho, trigo e feijão. Há três anos, partiu para o ramo da agroindústria de cereais, com duas marcas, Primoratta e Glee, que foram responsáveis por 10% do faturamento total do grupo, de R$ 75 milhões, em 2010. Até o final deste ano, a empresa deverá processar e fabricar todos os produtos em um parque industrial próprio, no município de Guarapuava (PR). Na área de sementes, tem capacidade para produzir algo em torno de 1,2 milhão de sacas/ano – 700 mil de milho, 400 mil de soja, 70 mil de trigo e 50 mil de feijão. “Com a parceria, além do crescimento das duas empresas em áreas que eram consideradas seus principais gargalos, teremos como impor novos desafios também no Paraguai, onde pretendemos crescer 25% em todas as nossas áreas de atuação, mas principalmente milho”, afirma Ricardo Guerra. De acordo com ele, o aumento das exportações para o país vizinho depende apenas de regulamentações biotecnológicas por parte do governo local. As vendas de sementes de milho também são o carro chefe da Limagrain na Europa, onde o grupo que opera com três empresas: a Vilmorin & Cie, o braço de sementes de cereais, oleaginosas, hortaliças e jardinagem, a Limagrain Céreales Ingrédients, fábrica de farinhas e derivados, e a Jacquet, segundo maior fabricante de pão da França.

Fofo


O ex-ministro Roberto Rodrigues é sempre gentil e fofo. Simples e humilde. Ele pode. Fiz o Leo ficar acordado assistindo o desfile da escola de samba do Rio só pra eu ver o Dr Roberto.

Negócio da China?

Ex-ministro Roberto Rodrigues propõe que obras de modernização portuária, orçadas em US$ 30 bilhões, sejam financiadas pelos chineses em troca da oferta dos produtos agrícolas

Viviane Taguchi

Uma relação de troca, interessante para ambos os lados. É isso que pode “salvar” o agronegócio brasileiro, segundo Roberto Rodrigues, ex-ministro da Agricultura e coordenador do Centro de Agronegócios da Fundação Getúlio Vargas (FGV). A troca que Rodrigues propõe se refere ao maior gargalo do agronegócio brasileiro, o sistema portuário, prestes a travar caso não receba investimentos imediatos, e a China, país que está com os olhos bem arregalados para o Brasil. “Podemos estabelecer um acordo de endividamento securitizado com a China, que tem uma economia centralizada e planejada”, afirma Rodrigues. A proposta é que a China forneça números e dados de crescimento para que o Brasil cresça paralelamente para atender esta demanda. “O primeiro passo é acertar os números: quanto a China vai precisar e quais produtos? Quanto cresceríamos para atender este mercado?. Assim, os chineses poderiam financiar as obras de modernização da nossa rede de logística, com uma saída para o Pacífico, passando pelo Mapito (região agrícola que engloba Maranhão, Piauí e Tocantins), e nós pagaríamos este financiamento em 40 anos com nossos produtos agrícolas”, explica Rodrigues. Em sua opinião, este acordo resolveria de uma só vez três importantes problemas do agronegócio: o domínio do mercado na China, a modernização da infraestrutura e o aumento da produção interna.
A rede logística defasada, segundo Rodrigues, é o nosso maior gargalo. “Precisamos priorizar os investimentos em ferrovias e portos, senão vamos travar. A oferta mundial de alimentos vai crescer 20% nos próximos dez anos e o Brasil será o responsável por 40% deste crescimento para atender a demanda. É um cenário extremamente promissor para nós, mas nada adiantará se não tivermos estratégias para o agronegócio”, alerta o ex-ministro. “Precisamos de acordos comerciais e a China está aí”, afirma. O acordo chegou a ser discutido no final de sua gestão como ministro da agricultura, em 2006, e volta a pauta agora. “Vamos retomar a discussão junto ao Conselho Empresarial Brasil-China. O Sérgio Amaral [atual presidente do conselho e embaixador] defende o acordo”, informou Rodrigues.
Em 2010, a China liderou o ranking dos países que mais compram produtos do agronegócio brasileiro: 23,4% das vendas totais do setor, que somaram US$ 50,1 bilhões, foram para os chineses. Dados da Câmara de Comércio e Indústria Brasil-China (CCIBC) apontam que os investimentos da China no Brasil em 2011 devem chegar a US$ 25 bilhões e ultrapassar os US$ 40 em 2014. Nos portos, a situação é crítica. Levantamento do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), diz que seriam necessários R$ 30 bilhões para serem aplicados até 2014 nos portos brasileiros. Deste valor, R$ 5,1 bilhões estão garantidos pelo PAC 2 do governo federal, e R$ 15 bilhões vêm de empresas privadas, como a Rumo, braço de logística da Cosan, que aplicou R$ 1,3 bilhão em seu terminal em Santos. O estudo diz ainda que os maiores problemas estão nos portos de Santos (SP), Vitória (ES), Pecém (CE), Itaqui (MA) e Rio Grande (RS).

Falei...

Um monte de gente teimou comigo na edição da matéria, alegando que eu estava falando besteira...ai laiá. Se o Plinio falou, tá falado. Se o Salibe disse, "Sim Verve", tá dito. Mas será o Benedito? Não....é a arrogância de algumas pessoas que se acham mais entendidos que os especialistas.
A Renata D..S continua chamando o Plinio de sogro. hahahaha.

Menos cana, preços em alta

Fatores climáticos atrapalham o desenvolvimento físico da cana-de-açúcar plantada para abastecer a safra 2011/12, empurrando para cima as cotações do açúcar e do etanol

Viviane Taguchi

A moagem da cana-de-açúcar da safra 2011/12 vai começar. As turbinas das usinas estão sendo acionadas e em menos de um mês, todas as moendas brasileiras já estarão funcionando em sua plenitude. É o que deveria ser, mas tudo indica que não será, pois a regra básica do setor sucroenergético - dar início ao novo ciclo entre os dias 25 de março e 1º de abril de cada ano não vai se aplicar à próxima safra, pois a cana disponível nas lavouras ainda não está pronta. Foram quatro meses de seca intensa, em 2010, seguidos de dois meses muito chuvosos neste ano, e o resultado é uma cana baixa, com desenvolvimento atrasado, que pode reduzir o rendimento agrícola em entre 4% e 6% nos primeiros meses da temporada. A queda, estimada em - 0,3% em relação à safra anterior, de 556,19 milhões de toneladas, vai ser sentida na região Centro-Sul, a mais produtiva do País, segundo o levantamento de estimativas iniciais da consultoria Datagro. A moagem na região Nordeste, ao contrário, terá alta de 3,4%.

A queda da produção dos canaviais da região Centro-Sul é a primeira dos últimos sete anos e será reforçada pelo alto índice de renovações de lavoura, já que o excesso de chuva prejudicou demais as soqueiras. “Ainda teremos uma renovação de canaviais na ordem de 19%, diferentemente do que ocorreu nas safras anteriores”, diz Plínio Nastari, CEO da Datagro. Com isso, de acordo com Nastari, deverá haver uma queda na produção da região Centro-Sul, ao mesmo que se repetirá a mesma oferta de Açúcares Totais Recuperáveis (ATR) da safra anterior. “Portanto, os preços continuarão pressionados, tanto para o açúcar como para o etanol”, afirma.

Segundo Nastari, a moagem total da região Centro-Sul em 2011/12 será de 550 milhões de toneladas, com uma produção de 35,1 milhões de toneladas de açúcar e 25,3 bilhões de litros de etanol. A moagem da cana da região Nordeste será de 61 milhões de toneladas. “Continuaremos a priorizar a produção açucareira, o que promoverá naturalmente um equilíbrio no preço do etanol, que deve girar em torno de R$ 0,85/litro (VOU CONFIRMAR) sem impostos. Ele admite, no entanto, que as oscilações do mercado possam modificar esse quadro mais adiante, obrigando as usinas a reverter o mix de produção, para equilibrar os preços. Mas o mais provável, na previsão do consultor, é que em 2011 a sazonalidade de preços diminua entre a safra e a entressafra. “Poderemos ter o maior valor médio para o etanol dos últimos 30 anos”, afirma.

Lem

Seis horas de vôo Passamedo mais uma hora de viagem de carro com um motorista apressado. Chegamos em Luis Eduardo Magalhães com fome, suados, cansados. Era terça e os restaurantes da cidade só abrem a partir de quinta. me disseram que o melhor restaurante da cidade era o hotel onde estávamos. Mas lá, só tinha coxinha e risoles. Ruffles nestas bandas é sempre a melhor saída.
O Rally foi legal, mas no final eu ja não estava aguentando mais. Passei frio em Lem, a minha cabeça quase explodiu, mas o pessoal de lá é mto gente boa. todo mundo colaborou com a matéria, pena que na volta (mais seis horas de vôo Passamedo e mais três horas de espera do motorista em Guarulhos), os problemas recomeçaram. E a matéria, que seria para quatro páginas, saiu só em uma.

Soja off-road

Em busca de novos parceiros e clientes, a americana FMC transforma um dia de campo em rali de regularidade entre as lavouras de soja do extremo Oeste da Bahia

Viviane Taguchi, de Luis Eduardo Magalhães (BA)

Eram 7 horas da manhã e a principal avenida de Luís Eduardo Magalhães, cidade que faz a divisa entre Bahia, Tocantins e Goiás já estava bastante movimentada. Cerca de 200 grandes produtores rurais da região se alinhavam a bordo de suas picapes para dar a largada a um rali de regularidade, batizado de Giro FMC, que prometia um dia de aventura, conhecimento técnico e possivelmente bons negócios. A competição, em que os vencedores são aqueles que seguem com maior precisão as instruções de uma rota pré-elaborada pela organização, é uma carta na manga da multinacional de defensivos FMC Agricultural Products para apresentar novas tecnologias e atrair clientes. Em Lem (apelido da cidade baiana que conta com mais de 2,5 milhões de hectares agricultáveis), o rali aconteceu pelo terceiro ano consecutivo, e o clima de competição entre os pilotos era acirrado. “Ei, Fulano. Vou fazer você comer poeira”, dizia um ao outro, pelas janelas dos carros. A resposta vinha na lata: “Igual eu fiz contigo no ano passado?” A equipe de DINHEIRO RURAL acompanhou o rali, do começo ao fim. Foram oito horas e mais de 380 quilômetros percorridos entre as trilhas das maiores fazendas da região. Chovia muito e, vez ou outra, até a caminhonete com tração 4X4, que transportava a reportagem, ameaçava atolar nas poças de lama formadas nas estradas.
Diferentemente dos tradicionais dias de campo, em que produtores são convidados a visitar uma fazenda e lá ouvir o que os especialistas têm a dizer, no Giro FMC as palestras aconteciam no intervalo entre uma fazenda e outra. “Parece apenas uma brincadeira, mas posso dizer que é uma brincadeira com intenções muito sérias e responsáveis para o produtor rural”, afirma o agricultor Fábio Lauck, que cultiva 10 mil hectares de soja e milho na região. “É uma forma descontraída de irmos ao campo do vizinho ver como está a soja dele, obter conhecimento técnico para melhorar nossas lavouras e trocar informações sobre o mercado.” Lauck, paranaense que migrou para o Oeste baiano, como a maioria dos produtores da região, participa dos rallies promovidos pela multinacional desde a primeira edição. Estabelecido desde a primeira metade dos anos 1980 em Luís Eduardo de Magalhães, é fanático por esportes radicais, assim como o seu vizinho, João Antônio Franciosi, campeão da categoria especial do Rally dos Sertões no ano passado. Em Lem, Franciosi acompanhou o evento a bordo de seu monomotor. “É importante acompanhar as palestras técnicas, mas este ano eu não quis participar do rali por terra, vim pelos ares”, disse Franciosi. Uma das paradas técnicas foi feita na propriedade de Franciosi, a Fazenda Santana.
A estratégia da FMC é realmente atrair os produtores. Márcia Terzian é gerente nacional das culturas de soja e milho e saiu de Campo Grande (MS) para acompanhar a corrida em Lem. “Essa aproximação é importante para a empresa, pois precisamos saber o que o produtor de cada região precisa para levarmos as soluções para a lavoura deles”, afirma Márcia. “Começou como um negócio e virou tradição”. Só neste ano, além da competição em Luiz Eduardo Magalhães, ela já participou das etapas do giro em Formosa/Cristalina (GO), Erechim/Ijuí (RS) e em Balsas (MA). Além do circuito da soja, a FMC promove uma versão do Giro reunindo os principais produtores de cana-de-açúcar do País.

DINHEIRO RURAL - FEVEREIRO/2011

Canseira

Santa Rosa é a terra da Xuxa. credo!!!! Fomos para a cidade de ônibus, dormimos duas noites na estrada (no onibus) e nessa pauta, eu troquei de roupa na rodoviária de Ijui. Meu Deós...sai do banheiro da rodoviaria (enquanto o Marco Ankoski ficou tomando conta das bagagens) usando vestido estampado verde e botina marrom cheia de bosta de vaca. Que look. O Marcão morreu de rir, depois fingiu que não me conehcia. Toda a gauchada ficou me olhando estranho, então tive que tirar as botinas e colocar chinelos havaianas também no meio da rodoviária. Ah, que que tem? ninguem me conhecia mesmo...na volta, acordei meio zureta e desci na parada do ônibus. Entrei no banheiro masculino, mas percei a tempo. Quando eu sai, tinha quatro crianças esperando do lado de fora para ver minha cara. Pestinhas!

Os óleos milionários da Camera

De olho no mercado de capitais, a gaúcha Camera Agroalimentos se une ao fundo de investimentos CRP VII para expandir a produção de óleos e faturar R$ 1,5 bilhão

Viviane Taguchi, de Santa Rosa (RS)

Santa Rosa, no Rio Grande do Sul, é uma cidade bastante conhecida por seus filhos ilustres. Lá, nasceram a apresentadora Xuxa Meneghel, o goleiro Taffarel, que ganhou um gigante monumento no centro da cidade após elevar o Brasil a tetracampeão mundial de futebol, e até Gisele Bündchen, a top model número 1 do Mundo, já passeou muito pelas ruas da pequena cidade quando ainda era anônima. No entanto, a maior, mais valiosa e disputada celebridade de Santa Rosa não tem cabelos loiros, não foge dos paparazzi e nem tem namorados que ostentam status hollywoodianos, embora seja mais cobiçada do que qualquer uma das personalidades citadas acima. Gorda, pálida, e com uma pinta preta no meio, é a soja a estrela maior de Santa Rosa. Foi lá que, em 1923, ela brotou pela primeira vez em solo brasileiro, e é de lá que sai grande parte de sua safra nacional. Anos após sua estréia, ela é o carro chefe do agronegócio riograndense, mas no que depender da Camera Agroalimentos, uma empresa tipicamente gaúcha que resolveu mirar o mercado de capitais a partir deste ano, a soja vai brilhar muito mais, não como um genuíno grão, mas como valiosos óleos brutos e refinados. É o que promete Roberto Kist, 37 anos, herdeiro do grupo e responsável por iniciar a nova era dentro da empresa, que almeja investir R$ 200 milhões e faturar R$ 1,5 bilhão em 2011. “Não tenho medo das mudanças. Pensar em reposicionamento no mercado é fundamental para quem quer crescer”. O lema de Kist segue a filosofia de Montesquieu, conforme ele mesmo lembra diariamente. “É preciso crescer, mas de forma organizada. Se algo sair do seu controle, a gestão está ameaçada”.
A Camera sempre foi uma empresa tímida, familiar e regional, fundada há quatro décadas pelos gaúchos Orestes Camera e Vanoli Kist, respectivamente avô e pai de Roberto. Posicionada em uma região estratégica do Rio Grande, eles souberam como ninguém galgar seu lugar no mercado regional e preparar o terreno para que Roberto desse novos rumos à empresa, a fase tecnológica e o mercado de capitais. Em quatro décadas, Camera e Kist consolidaram o negócio agrícola como uma tradding e hoje absorvem 16% de toda a safra gaúcha de soja, proveniente de 65 mil propriedades rurais familiares. Com a estrutura que criaram, fomentam a economia das 34 cidades onde a empresa mantém postos de armazenamento e recebimento de grãos. “Estamos presentes em pelo menos 60% do Rio Grande do Sul, o que facilita esta captação de grãos em detrimento dos problemas de infra-estrutura logística”, diz Kist. Da soja, da qual extraem 280 toneladas de óleo/dia, expandiram o negócio para todas as culturas típicas e sazonais da região Sul: milho, trigo, girassol e canola. Durante 30 anos, Camera e Kist foram negociadores de commodities, Roberto entrou para industrializar. “A indústria deu dinâmica à agricultura”, justifica o executivo, que em dez anos investiu cerca de R$ 70 milhões e colocou quatro unidades industriais com tecnologia de ponta para funcionar. “É tradição e tecnologia juntas, uma cadeia que se completa”. O executivo não enxerga as gigantes, como a Bunge, por exemplo, como uma ameaça ao seu negócio. “Você tem que enfraquecer o seu concorrente e criar um vínculo forte com os fornecedores. Esta última, nós fazemos desde o início das atividades da Camera. É uma tradição no Sul valorizar o homem do campo”, afirma.
O conglomerado Camera Agroalimentos assusta pela grandiosidade. A empresa construiu um patrimônio que inclui dois portos secos para escoamento de grãos, um em Ijuí e outro em Cacequi, 34 unidades de armazenamento e recebimento de grãos, as chamadas “casas”, onde também é possível vender insumos diretamente aos produtores rurais, uma unidade de distribuição e quatro unidades industriais. Em Santa Rosa está a fábrica de óleos bruto e refinado, que processa 1,5 mil toneladas de soja/dia; em São Borja, o beneficiamento de arroz, empreendimento mais recente; em Santo Cristo, uma fábrica de ração animal a partir de farelo de soja, e em Ijuí, uma moderníssima indústria de biodiesel de R$ 45 milhões, a única do País a processar apenas biodiesel de soja e foi inaugurada em novembro do ano passado. “No segundo semestre iniciaremos a fabricação do biodiesel a partir do girassol e da canola”, revela João Arthur Manjabosco, gerente comercial da unidade. Somente esta fábrica deverá faturar R$ 250 milhões este ano. “É um mercado em franco crescimento e a diversificação com óleos de canola e girassol agregam valor ao produto”. Mas dentro desta cifra, ainda constam as exportações da glicerina e ácidos graxos retirados do óleo bruto, que vão diretamente para a China. “São subprodutos valiosos no mercado externo. A demanda do mercado chinês é imensa”. Todas as unidades industriais da Camera têm ainda um outro diferencial, o investimento em automação. “Não tem como avançarmos no mercado se não houver investimentos em equipamentos como este braço robótico, capaz de encaixotar 10 mil garrafas de óleo por dia”, diz Leandro Carbone, gerente industrial em Santa Rosa. “É a primeira de todo o Rio Grande”.
Assim como a fábrica de óleos de Santa Rosa, a matéria-prima do biodiesel vem 100% de produtores rurais cadastrados no Programa Nacional de Agricultura Familiar. Erno Luís Tchiedel cultiva 50 hectares de soja nos arredores de Ijuí. Divide o trabalho com a esposa, Lisânea, e os sogros Assadia e Elvira e vende 100% de sua produção para a Camera. “É uma forma mais vantajosa para o agricultor, porque você tem a garantia de venda de toda a sua colheita e a assistência técnica e agrícola sai de lambuja”, diz o produtor, que conseguiu renovar a frota agrícola da propriedade em uma safra. “Para nós, produtores do Sul, é a forma mais viável de comercializar nossa safra”. Roberto Kist faz questão de manter este modelo de negócios. “A cultura sulista segue o modelo europeu. A agricultura familiar é fundamental para fomentar o agronegócio no Rio Grande do Sul. Dá certo e vamos fortalecer”.

DINHEIRO RURAL / JANEIRO 2011

Encomenda para você

Como produtores rurais conseguem utilizar os serviços dos Correios para agregar valor ao produto e driblar os gargalos de logística

Viviane Taguchi

Certa manhã, um fazendeiro descobriu que a sua galinha tinha posto um ovo de ouro. Apanhou o ovo, correu para casa e mostrou-o à mulher: “Veja, estamos ricos”. O fazendeiro levou o ovo ao mercado e vendeu-o a um bom preço. No outro dia, a galinha tinha posto mais um ovo de ouro e de novo, o fazendeiro foi ao mercado e vendeu o ovo a um preço ainda melhor. E assim aconteceu durante muitos e muitos dias. A fábula da galinha dos ovos de ouro faz parte do imaginário infantil de muitas gerações. No entanto, em Porto Ferreira, cidade distante 220 quilômetros de São Paulo, um produtor rural conseguiu transformar este conto em parte de sua rotina diária de negócios. Mário Salviatto pode ser considerado o fazendeiro dos ovos de ouro. Com ajuda da internet e dos Correios, ele transformou uma dúzia de ovos de galinha de R$ 3,50 em uma dúzia de ovos de R$ 18. Mas diferentemente daquele fazendeiro da fábula, que matou a galinha acreditando que dentro dela havia um tesouro, Salviatto incrementou o negócio e multiplicou os lucros, driblando um dos maiores problemas do agronegócio: a logística. “Eu sempre gostei de aves, sempre usei a internet e sempre recebi encomendas pelos Correios com segurança. Então pensei: porquê não?”, diz o produtor, que há quatro anos começou vender ovos galados pela internet e a despacha-los pelos Correios.
Com a nova forma de comercialização o agricultor conseguiu agregar valor aos ovos e à sua criação de galinhas exóticas. “Não são espécies encontradas facilmente em qualquer região. Por isso, o interesse foi grande por parte de produtores que querem ter estas galinhas”, explica. Para despachar a produção, Salviatto embala os ovos um a um em plástico bolha e os acondiciona em uma caixa de isopor, forrada com serragem e jornal. “Raramente temos problemas com quebras. Em quatro anos, se 10 ovos se quebraram, foi muito”. Uma dúzia de ovos enviada para um local distante pode chegar a custar R$ 100 para o comprador, que paga o frete e a embalagem. Salviatto já vendeu de uma só vez 40 dúzias para um criador paulista e duas dúzias para um criador indígena. “Quando ele me passou o endereço eu achei esquisito, pois era uma tribo de índios”. O único problema que Salviatto enfrenta para despachar a produção pelos Correios é o aparelho de Raio-X, que pode inviabilizar o desenvolvimento do embrião na choca. “O embrião corre risco, mas no geral os resultados são satisfatórios”.

Assim como o avicultor, a CRV Lagoa da Serra, tradicional empresa de genética bovina, de Sertãozinho, também no interior paulista, utiliza o serviço dos Correios para transportar sêmen de boi. Segundo Gerson Sanches, gerente de logística, 90% das remessas de sêmen são enviados em botijões especiais. “Só há problemas quando existem greves ou intempéries climáticas graves”, diz. Ao contrário dos ovos, o sêmen não corre o risco de ser inutilizado ao passar pelo raio-x. “Não há possibilidade de isso acontecer. Para tanto, desenvolvemos o sêmen Express, que é um botijão especialmente elaborado para o transporte pelo Sedex”. Sanches diz que, por ano, 5 mil remessas de sêmen são feitas pelo Sedex. “Eles têm um eficiente sistema de logística, chegam em qualquer lugar. De avião ou de carro, não conseguiríamos”.

DINHEIRO RURAL - JANEIRO/2011

Gente bouuuua

Gostei muito de Campo Mourão e principalmente, da organização que foi esta pauta. Tudo porque o Ilivaldo, assessor da Coamo é o cara de imprensa mais empenhado em fazer proporcionar uma boa pauta que já conheci nessas viagens por aí. Tudo foi feito no horário programado e até a cor da camisa do Galassini ele pediu que diséssemos. Na noite anterior, fiz o Ilivaldo tirar uma foto minha na casinha do papai noel da Coamo. hahahaha, que coisa de menina!
O José Aroldo Galassini realmente é o cara que dizem ser. Não é a toa...

Ele fez a Coamo decolar

José Aroldo Galassini, o homem que transformou uma pequena associação paranaense na maior cooperativa agroindustrial singular do mundo revela como conseguiu faturar R$ 5 bilhões com a venda de grãos no mercado futuro

Viviane Taguchi, de Campo Mourão (PR)

‘A união dos agricultores sob a luz do cooperativismo fez com que da terra emergisse esta grande obra’. A mensagem não é apenas uma citação gravada na obra do artista plástico Almir Trevisan, cravada na recepção do edifício da maior cooperativa agroindustrial do mundo, a Coamo, em Campo Mourão (PR), mas o reflexo do sentimento dos 22,7 mil produtores rurais que hoje fazem parte deste conglomerado. A Coamo nunca viveu crises, nunca sobressaltou-se em desequilíbrios econômicos, nunca hesitou em arriscar. Em 40 anos, tornou-se o melhor e maior modelo de negócios a ser seguido, alcançando o faturamento de R$ 5 bilhões em 2010, com a venda de soja, milho e trigo, e produtos industrializados. E para o seu presidente, o agrônomo José Aroldo Galassini, “nem foi um ano tão bom assim. Tivemos grandes volumes, mas os preços estavam baixos”. Imaginem se fosse melhor! Galassini, pai coruja da Coamo e seu idealizador, pôs a cara a tapa, arriscou e chegou onde queria, ou melhor, ainda vai chegar, pois seus planos vão longe e são milionários. O homem de fala calma e jeito bem simples recebeu a equipe da DINHEIRO RURAL em seu escritório, no nono andar da sede da Cooperativa, na véspera do Natal. Adiou uma reunião importante para nos receber, e estava animado com a ideia de uma sessão de fotos na lavoura, mesmo sabendo que um monomotor daria um rasante em sua cabeça. Não titubeou e nem tentou escorregar de qualquer pergunta. Entre uma resposta e outra, sapeava o monitor do seu computador, que mostrava, minuto a minuto, as cotações das Bolsas de Chicago, Londres e Nova York. “Olha, eu nem falo inglês, comecei minha carreira tarde, quase aos 30 anos, não sou especialista do mercado financeiro, mas estou sempre de olho porque podem aparecer oportunidades importantes para os nossos produtores. É nesta hora que eu arrisco”, disse ele. Seus produtores são como filhos debaixo da barra da calça. “Não... são companheiros fieis de longa data que acreditaram no mesmo sonho”, desconversa, com um sorriso que beira à timidez. José Aroldo Galassini e a Coamo podem ser vistos como um só, pois ele pensa como Coamo, e a Coamo age como ele. Se existe a fórmula do sucesso, a de Galassini foi esta.

O agrônomo comanda a Coamo há 35 anos, tempo que seria considerado longo demais em uma empresa privada, mas adequado para o cooperativismo, quando este, claro, dá bons resultados em caixa. “Quem está do outro lado, critica muito, mas a verdade é que este homem continua no comando da Coamo porque ele revolucionou a realidade rural paranaense de forma muito positiva”, explica Moacir José Ferri, produtor rural e sócio-fundador da cooperativa. “Sua atuação foi fundamental para o agronegócio brasileiro se destacar no exterior, nunca conseguiríamos sem ele. Hoje, seu trabalho é copiado por todas as cooperativas”, continua o produtor, que mantém quatro gerações da família Ferri ligada a Coamo. Desde então, Galassini tornou-se um mito para o agronegócio, e um exemplo internacional para o setor quando foi escolhido para estrelar uma campanha publicitária da Bolsa de Chicago, em 2007, cujo título era “Eu colho oportunidades a partir dos riscos”. “Acredito que eles achavam diferente um agricultor como eu ter ousado entrar lá, no início dos anos 80, com a cara e a coragem e isso ter dado certo para o agronegócio brasileiro”, comenta o presidente. “Eu gostaria que todos os agricultores brasileiros tivessem a oportunidade de operar no mercado futuro. É um mercado ousado, que precisa ter uma estrutura e capital por trás, mas é uma boa oportunidade. Não é um bicho de sete cabeças”. Esse jeitão despojado sempre fez parte de sua gestão. Galassini foi o segundo presidente eleito da Coamo. “Eu era muito menino quando fundamos a cooperativa, por isso não ousei me candidatar”. O primeiro presidente foi Fioravante Ferri, que faleceu quatro anos depois. “Aí as coisas já estavam mais estruturadas e eu me candidatei”. José Aroldo nunca tinha nem ouvido falar em Campo Mourão quando foi enviado para lá, em 1968, como funcionário da antiga Acarpa, hoje Empresa de Assistência Técnica e Expansão Rural, Emater. “O que eu encontrei era desanimador: existiam cinco tratores, ninguém conhecia a mecanização e o solo era ácido. Esta região era conhecida como a terra dos três ‘s’: samambaia, sapé e saúva”, lembra.

O jovem engenheiro transformou a pequena associação agrícola, então com 79 associados, na maior cooperativa agroindustrial singular do mundo. Absorveu oito cooperativas em dificuldades, e como ele mesmo diz, “desenterrou os sapos de macumba delas”. Enxergou no mercado externo uma forma de captar dinheiro. “Eu precisava achar um jeito de agregar valor à nossa produção e então, criamos a Coamo Internacional para exportar CIF [quando no preço de venda estão inclusos os custos da mercadoria, seguro e frete] diretamente para a Europa”, diz ele. Hoje, são 22,7 mil associados, 72% de mini e pequenos produtores, quatro milhões de hectares plantados, área quase do tamanho do Estado do Rio de Janeiro, 5,5 milhões de toneladas de grãos produzidas e comercializadas no mercado futuro, o que garante um preço melhor para a mercadoria, cinco fábricas que produzem 6,5 toneladas de alimentos/dia e três empresas subsidiárias, a Coamo Internacional, a CredCoamo e a ViaSolo. Neste ano, a Coamo vai crescer mais. Galassini quer duplicar a produção de alimentos com a implantação de um novo projeto industrial. “Vamos investir R$ 200 milhões nesta nova fábrica e será um grande salto na nossa economia”, diz. Pelo menos 23% da safra 2011 já está comercializada. E para ele, tudo isso ainda é pouco. “Vamos que vamos”. O entusiasmo nos investimentos ainda inclui o setor de armazenagem, um problema nacional. “A Coamo tem capacidade para armazenar 38 milhões de toneladas, ampliaremos esta capacidade em 500 mil toneladas. Não vamos ficar aqui de braços cruzados esperando o governo”, garante o empreendedor, que na política é bem imparcial. “Claro que sempre brigamos pelos interesses do agronegócio e é preciso melhorar muito a logística dos transportes de produtos agrícolas, mas não dá para nos acomodar e jogar a culpa nos governos”. Toda a produção da Coamo, que vem de produtores paranaenses e sul-matogrossenses, é escoada através de dois portos, o de Paranaguá, no Paraná, e o São Francisco, em Santa Catarina. “Felizmente, a situação está melhorando, mas já deveria ser bem melhor”.

“Um dos principais destaques da gestão de Galassini foi sempre manter o foco nos preceitos do cooperativismo e a sua grande preocupação em capitalizar a cooperativa. Isso permitiu que a Coamo não tivesse sobressaltos ou crises financeiras”, explica João Paulo Koslovski, presidente da Organização das Cooperativas do Estado do Paraná. “Esta foi a chave de sua brilhante administração”, reforça. O produtor rural Gabriel Rogério Jort concorda. “Eu posso dizer que os produtores rurais daqui são privilegiados por terem um empreendedor à frente dos negócios. Não sentimos o peso das crises financeiras no bolso, ao contrário do que ocorreu com vários outros setores do agronegócio porque o Galassini estava sempre de olhos bem atentos ao mercado. Veja só, hoje eu sou até exportador de soja”, comemora o produtor. “Não, não é à toa que este homem se destacou”.



Dinheiro Rural - Janeiro/2011

Os hectares de Tóquio

Edifícios comerciais, telhados e alpendres urbanos tornam-se a principal alternativa para o cultivo de hortaliças, legumes e frutas em uma cidade que não tem mais áreas verdes

Viviane Taguchi

Três metros quadrados já são suficientes para uma lavoura produtiva. Sim, em Tóquio, a tecnológica capital do Japão, isso não somente é possível como virou moda. Sem mais espaços verdes disponíveis para o cultivo de alimentos, as fazendas urbanas se proliferam com rapidez. São estufas verticais, montadas como prateleiras, e imbuídas de tecnologias avançadas que permitem o cultivo de hortaliças, frutas, grãos e leguminosas em áreas limitadas e até inusitadas como os telhados das casas, varandas de apartamentos, escritórios e até andares inteiros de prédios comerciais. Nos supermercados das maiores cidades, é possível alugar um kit-cultivo ou até mesmo comprar um desses e levar para casa. Mas até agora, a iniciativa mais ousada foi da empresa de recursos humanos Pasona, que criou uma fazenda urbana de 1000 metros quadrados, em um andar inteiro de seu edifício, o Otemachi Nomura Building, no centro de Tóquio, e está conseguindo colher até arroz em quantidade suficiente para abastecer o seu refeitório. Anos atrás, o andar em que foi instalada era o cofre de um banco e hoje, quem cuida da fazenda são os próprios funcionários, que acreditam que lidar com a terra acaba com o stress do dia-a-dia.
A fazenda urbana, que ganhou o nome de PasonaO2, foi criada em 2005 para servir de sala de aula para futuros fazendeiros, mas no ano passado, virou departamento da empresa, tamanho o interesse dos funcionários. Frutas, verduras e leguminosas são produzidas sob lâmpadas especialmente desenvolvidas e controladas por computador, enquanto o sistema de irrigação funciona em circuito fechado para evitar desperdícios. No cultivo, não é utilizado qualquer tipo de agrotóxico ou química, a PasonaO2 é uma genuína lavoura orgânica high-tech, que recebe apenas sprays de dióxido de carbono e fertilizantes naturais. A safra de arroz, berinjela, tomate e pimenta é escoada nos próprios refeitórios da empresa, e os funcionários garantem que sabor e aroma não são alterados.
A falta de mão-de-obra no campo, no Japão, é um problema social. Com poucas áreas verdes, o país sofre com a falta de interesse dos jovens, que querem morar e trabalhar nos grandes centros tecnológicos. Em todo o Japão, existem pelo menos 15 fazendas urbanas que nasceram com o intuito de despertar o interesse dos mais jovens a trabalharem com agricultura. Em grandes centros como Nagoya, Osaka e Kyoto não há fazendas urbanas, mas as vendas de kits de cultivo invadiram os supermercados. As estufas verticalizadas podem ser compradas por 820 euros, cerca de R$ 1800, ou alugadas por 70 euros, R$ 160 ao mês. As fazendinhas mais pedidas são as de alface, morango e tomate.


Dinheiro Rural Janeiro/2011

A volta da bucha

Supervalorizada no mercado, a bucha vegetal volta às prateleiras com o status de produto agrícola ecologicamente correto e venerado pela indústria

Viviane Taguchi

Em Bonfim, cidadela a 40 km de Belo Horizonte (MG), quem não planta bucha, a transforma em arte ou em dinheiro. O município ostenta o título de Capital Nacional da Bucha e virou expoente da nova realidade do agronegócio mineiro: a diversificação sustentável da economia rural e o redescobrimento de um produto da época das vovós, que pegou carona na sustentabilidade, ganhou status de ecologicamente correto, e voltou para o mercado com preços supervalorizados. A bucha vegetal, ou bucha de metro, em sua forma mais tradicional, esponja, está forte no setor de cosméticos e invade o ramo de limpeza doméstica. Na indústria automotiva, substituiu a espuma sintética dos revestimentos de bancos de carros e aviões, e na construção civil, tornou-se material de isolamento acústico. As lavouras, que se concentravam apenas na região de Bonfim, se espalharam pela Zona da Mata, onde o cultivo tomou o lugar do milho em ritmo acelerado. “Constatamos um crescimento de 15% em relação ao ano passado”, diz Georgeton Silveira, coordenador técnico da Empresa de Assistência Técnica e Expansão Rural de Minas Gerais, Emater/MG. “É um cultivo que se adapta muito bem na região e tem grande demanda no mercado, visando a utilização de produtos sustentáveis em vários segmentos industriais”. Segundo o Emater, os itens que atraem os produtores são o preço do produto ante o custo de produção, R$ 35/dúzia a venda para R$ 10/dúzia de custo, e a produtividade, que gira em torno de 1000 a 1200 dúzias/hectare.
Quem começou a espalhar as lavouras de bucha pela Zona da Mata foi Sylvio Lanna. Há 12 anos, ele herdou 90 hectares de terras da família em Ponte Nova e decidiu tornar-se empreendedor rural. “Eu não tinha ideia do que fazer com aquelas terras e disseram que a bucha era rentável, que se adaptaria bem ao clima e que dava igual chuchu na cerca”, brinca. “O cultivo da bucha tem um papel fundamental na questão ambiental e reflete diretamente na economia”. Sua intenção é formar um novo pólo produtivo na região. O trabalho começou com a distribuição de sementes aos vizinhos e depois, para fazendeiros do Estado inteiro. Fora de Minas, ele vende o quilo da semente a R$ 100. “A bucha vegetal brasileira é um produto que tem demanda mundial”.
Apesar de sua produção atender a indústria cosmética, o foco de Lanna é o setor de limpeza doméstica, segmento que ele considera muito carente de soluções sustentáveis. “O momento é crucial para este setor, que precisa de alternativas sustentáveis para substituir as esponjas sintéticas”, alerta o agricultor. Além da propriedade particular, Lanna criou a lavoura de cotas Buchal da Lagoa, em Urucânia, em uma parceria com 11 empresários. “Cada sócio aportou R$ 2 mil para estruturar o parreiral, que está na primeira safra. Nosso objetivo é promover um rodízio para colhermos bucha o ano todo e atender a demanda crescente”, explica. De início, o Buchal da Lagoa conta com 15 hectares, mas a ideia é expandir para 25 hectares. “Queremos 25 safras anuais”.
O ressurgimento da bucha começou há quatro anos e ganhou fôlego mais recentemente. Quem entrou no negócio para abastecer o ramo de artesanato, rapidamente se viu obrigado a aumentar a produção para atender outros setores. Foi o caso da empresária Denilda Maria de Oliveira, diretora da Associação de Produtores Mineiros de Bicha Vegetal, de Bonfim. “Aprendemos a fazer artesanato, que na época teve muito sucesso, mas o que ficou para mais de 500 produtores rurais de Bonfim foi o beneficiamento da bucha. Só da minha empresa, saem 1500 dúzias de buchas beneficiadas por mês para o mercado”, diz a empresária. “Por aqui, a bucha é disputada demais”. Só para constar, cada unidade de bucha de metro rende de quatro a cinco esponjas, vendidas, em média, a R$ 3.


Dinheiro Rural - Dezembro de 2010
Você, editor, para atingir o seu alvo, use um repórter como laranja!

A boiada atropelou Ana Júlia

A governadora desgovernada. Com este apelido, Ana Júlia Carepa deixa o governo do Pará sob uma salva de palmas do setor produtivo rural

Viviane Taguchi

Um governo de desmandos, trágico e desastroso, que chega ao fim como um alívio para o agronegócio e com um brinde dos ruralistas. O cangaço institucionalizado. Assim ficou conhecida a atuação da governadora do Pará, Ana Júlia Carepa, do PT, aos olhos do setor. O pacote de desserviços da governadora incluiu o não cumprimento de mais de 300 mandados de reintegrações de posse, episódios de vandalismo e violência explícita do Movimento dos Sem Terra supostamente acobertados ou incentivados por ela e ações que amordaçaram as vozes representativas do campo. Ana Júlia tornou-se, pela opinião pública, a pior governadora do País, e inimiga número um do agronegócio. Recebeu as alcunhas ‘Governadora desgovernada’, ‘A bruxa do 71 do Pará’ e ‘A terrorista’. Tentou a reeleição e perdeu no segundo turno para Simão Jatene, do PSDB, na maioria dos municípios administrados pelo PT no Estado, inclusive em Santarém e Paraupebas, que estão entre os 10 maiores colégios eleitorais. Jatene assume o Executivo com a bomba nas mãos, mas o apoio da Confederação Nacional da Agricultura, CNA, e a Federação de Agricultura e Pecuária do Pará, Faepa, que pediram a intervenção federal no Estado, e a União Democrática Ruralista, a UDR.
A onda descontrolada de invasões de terras ocorridas nos últimos anos deflagrou a guerra entre o governo e os ruralistas justamente no Estado que tem o maior rebanho de gado de corte do País, com 20 milhões de cabeças, e as maiores reservas minerais e de florestas intactas e do Mundo. Mas Ana Júlia não deu muita bola, conforme dizem os produtores. “O Judiciário ordenou a desocupação das propriedades, mas como prevê a legislação, o governo precisa dar o respaldo policial para que os mandados fossem cumpridos. Não houve este apoio do governo em nenhum momento e a situação chegou a beira do caos, talvez até incentivada por ela [Ana Júlia], que compactua com essa ideologia criminosa e defende as invasões”, lembra Luis Antônio Nabhan Garcia, presidente nacional da UDR. “Foi um desserviço desta senhora, que se considera acima da lei”. Em março de 2009, a senadora Kátia Abreu, DEM-TO, presidente da CNA, e Carlos Xavier, presidente da Faepa, protocolaram oito pedidos de intervenção federal no Tribunal de Justiça do Pará, que acatou os pedidos e encaminhou o caso para o Supremo Tribunal Federal, então presidido pelo ministro Gilmar Mendes, que aceitou apreciar o caso. “O Executivo transformou-se no último juiz das invasões de terras. Quem decide se as áreas invadidas devem ser ou não desocupadas é a governadora, autoridade que se substitui ao Judiciário, julgando em última instância o direito dos produtores rurais”, declarou a senadora. “Ela criou um obstáculo para o agronegócio. Os investidores sumiram”, completa Xavier.
Lázaro de Deus é fazendeiro na região de Paraupebas, o município que abriga a maior reserva mineral do planeta. Ele e os vizinhos de propriedade temem sair de casa com medo das invasões. “O MST não tem critérios, invadem pequenas propriedades, módulos rurais que não são passíveis de invasões. Muitas famílias abandonaram as terras, muitos morreram nos conflitos. Não há controle, não há polícia”, relata o produtor. “Há propriedades invadidas há mais de três anos, com mandados de reintegração já expedidos e nunca houve a desocupação. O que os produtores podem esperar de uma governadora que em seu primeiro dia de trabalho foi despachar na curva do S, em Eldorado dos Carajás?”. O produtor comemora a saída de Ana Júlia e acredita que os problemas paraenses estão perto do fim. “Chega de incoerência, o Pará precisa voltar a ser o que era”. Segundo a Faepa, existem no Pará mais de 1500 propriedades invadidas, cerca de 600 pedidos de reintegração e mais de 300 já deferidos e não cumpridos.
A saída da governadora é vista como “o resgate da credibilidade no Pará”, conforme afirma Xavier. A sucessão no governo não impede que o STF aplique a intervenção federal. Como a ação é contra o governo e não contra a pessoa da governadora, se os mandados de reintegração continuarem não sendo cumpridos, a intervenção pode ocorrer. “A intervenção é sempre uma medida extrema, é a exceção e não a regra. Temos de analisar com cautela o caso do Pará e garantir que a normal legal seja cumprida”, disse o ministro Marco Aurélio Mello, do STF, à DINHEIRO RURAL. Mas os produtores não acreditam que a intervenção acontecerá. “O sucessor tem uma visão voltada para a produção e se comprometeu a resgatar a credibilidade com os investidores do agronegócio”, diz Xavier. Em nota, o governo afirmou que as reintegrações de posse estão sendo cumpridas desde abril deste ano, conforme planejamento pactuado com o Judiciário. “Mas ainda existem mais de 300 mandados não cumpridos”, destaca Garcia. “Houve uma movimentação quando o escândalo tornou-se nacional, mas a situação continua caótica”.
O eleito Jatene assume o governo com um calhamaço de reivindicações do setor, elaboradas pela Faepa durante a 34º Encontro Ruralista do Pará, realizado em Belém no final de novembro. A prioridade é o setor fundiário, e sobretudo o cumprimento do direito de propriedade e a aceleração das reintegrações de posse, mas também a implementação do Código Ambiental Estadual e questões referentes a atualização do Código Florestal Brasileiro. “O documento foi assinado no dia 24 de novembro e já está em suas mãos. Para o agronegócio paraense, é o começo de uma nova era”, finaliza Xavier.

Dinheiro Rural - Dezembro/2010

Macaco Japonês



Outro dia encontrei por aí um macaquinho japonês que fala sem parar. À noite, o bichinho geralmente está rouco e cansado, mas mesmo assim não sossega. A espécie gosta de Mc Lanche Feliz, mas é melhor não alimenta-lo sempre com isso. Quando a fome bate, ele come arroz e feijão mesmo.

Malucas do bem

Para aproveitar uma viagem paga, nos embrenhamos no Ceará rumo ao Piaui. Em novembro, passamos frio na serra cearense, é verdade. Cheguei numa cidade parecida com Campos do Jordão, onde se planta rosa para exportação. Quem planta é a Gabriela, maluquinha super gente boa, que nos hospedou na fazenda do pai dela. Ela e a Paula, irmã dela e o namorado dela, passaram o dia andando conosco entre as roseiras, enchi o pé de espinho, mas foi bem legal. Passei a gostar de rosas...

Os jardins do Ceará

Com investimentos de R$ 12 milhões, empresária gaúcha transforma a Serra da Ibiapaba, na fronteira do Ceará e Piauí, em um dos mais importantes pólos de floricultura do Mundo

Viviane Taguchi, de São Benedito (CE)

Subir a Serra da Ibiapaba não é tarefa da mais fáceis. Curvas sinuosas chacoalham os carros e os paus-de-arara pra lá e pra cá, colocando os passageiros em perigo entre abismos profundos, mas também mostrando-lhes paisagens de um Ceará verde e cheio de vida brotando da terra. Lá em cima, as temperaturas são altas durante o dia e o entardecer chega com ventos gelados. No meio da montanha está Viçosa, uma cidadezinha cheia de casas coloridas, coladas umas às outras. O município é passagem obrigatória para quem está no litoral e quer chegar a São Benedito, o ponto mais alto da região, a 900 metros do nível do mar. Há 12 anos, quem percorreu este caminho foram os Selbach, gaúchos de São Leopoldo que migraram para o Ceará na década de 80 e traçaram no nordeste uma história de sucesso que desabrocha milhões de reais na economia todos os anos. O trabalho dos Selbach foi determinante para que a Serra da Ibiapaba se transformasse em um dos quatro pólos produtores de flores do Estado, capaz de produzir as mais belas rosas do mundo, e inserisse o Brasil na rota do agronegócio mundial da floricultura. Criados para exportação, os jardins do Ceará, composto pelos pólos Guaramiranga, Cariri, Ibiapaba e Metropolitano, devem movimentar este ano US$ 5,5 milhões com as vendas ao exterior, mas no momento é o mercado interno que está sendo beneficiado com esta indústria.

Gabriela Selbach cresceu entre as roseiras. Ainda criança, acompanhava o pai, executivo do setor calçadista e floricultor de nascimento, Paulo Roque Selbach, em sua busca pela rosa perfeita. A paixão virou negócio no final dos anos 90 e hoje, Gabriela é seu braço direito e dirige a CeaRosa, a fazenda de 150 hectares fincada no alto da serra e que produz diariamente 24 mil rosas de alto padrão em 12 hectares de estufas climatizadas. “O objetivo inicial era produzir rosas para exportação, mas o mercado movimentou-se de tal forma que hoje é no mercado interno que está nossa demanda”, explica Gabriela, com um sotaque que mescla o gauchês e o ceares. “Apesar disso, toda a nossa produção continua seguindo o padrão internacional e não vamos mudar isso”. Na CeaRosa, os Selbach já investiram R$ 12 milhões. As exportações cessaram em 2008 com a crise mundial e quando algumas linhas aéreas diárias entre Fortaleza e Europa foram suspensas para combater o turismo sexual, e Gabriela, então, começou a fazer vendas diretas e internas. “O momento não era bom, então decidi copiar o sistema de comercialização de flores na Alemanha: passei a mão no telefone e comecei a vender as rosas”. Durante muito tempo, ela ligava, vendia, entregava os pacotes e depois de uma semana, ligava novamente para saber se o cliente estava satisfeito. Isto lhe rendeu fidelidade e credibilidade no mercado. Atualmente, suas rosas abastecem todo o nordeste, mas os maiores carregamentos são enviados, via aérea, à Brasília, Manaus, Rio de Janeiro e Porto Alegre. Por dia, são comercializados entre 800 a 1000 pacotes de 20 botões, o padrão internacional. São Paulo, o maior produto nacional de flores, está fora de seus planos. O trabalho que Gabriela fazia sozinha agora conta com 15 pessoas, em Fortaleza, e mais 180 para a produção em São Benedito, entre eles o agrônomo considerado o maior especialista do mundo no setor, o colombiano Julio Cantillo Simanca. “Ele é o pai coruja de todas estas rosas”, resume Selbach.

Com a mudança no foco dos negócios, a CeaRosa cresceu. Em 2009, faturou R$ 1,9 milhão
e neste ano, o faturamento deve ser 25% superior. “Ainda que o brasileiro não tenha o hábito de consumir flores, o mercado está se abrindo”, diz Simanca, responsável pela formação dos quatro pólos cearenses. “Nosso foco está aqui agora, mas não significa que não iremos exportar quando o momento for propício e o dólar mais valorizado. Enquanto isso, continuamos a buscar a perfeição nas rosas”, emenda. Segundo Gilson Gondim, presidente da Câmara Setorial de Flores do Ceará, entidade que reúne cerca de 280 produtores de flores, a média de consumo do produto no Brasil é de US$ 5/habitante/ano, enquanto em países como a Holanda, é de US$ 100/habitante/ano. “Os pólos produtores de flores cearenses foram criados visando o mercado externo e vamos continuar seguindo este foco, mas com o desenvolvimento do setor, o mercado interno despertou de forma positiva e está absorvendo a produção”, diz ele. “Estamos vivendo um momento muito bom e aos poucos, solucionando os problemas de logística”. De acordo com a Câmara Setorial, Holanda e Estados Unidos são os países mais interessados em comprar as flores nacionais.

Produzir flores no Brasil ainda é caro. Além do investimento em estufas climatizadas, que é de no mínimo R$ 350 mil, para ter o direito de comercializar as variedades de rosas, desenvolvidas por centenárias empresas de pesquisa européias, o produtor desembolsa US$ 1 por planta. “Os briders são os responsáveis por desenvolver as variedades que temos no mercado e estão protegidos pela Lei dos Cultivares”, explica Simanca, que testa as novas variedades por dois anos antes de dar o aval para os Selbach introduzi-las no mercado. Segundo ele, em um hectare pode-se cultivar 65 mil plantas. Cada planta produz, em média, 20 rosas de alta qualidade por ano e a cada 30 canteiros, um funcionário é necessário para cuidar das flores, manualmente. “Mas o resultado é uma rosa grande, bonita e com maior durabilidade”. Todos estes cuidados eram um problema para os Selbach no início do negócio. “Só conseguíamos funcionárias mulheres. Os homens da região acreditavam que se fossem trabalhar com flores, ficariam afeminados. Hoje, isto mudou e há mais homens na linha de produção”, lembra Gabriela. “Mesmo com tantos itens que pesam no preço, o consumo interno aumentou”. Para atender a demanda, ela tem que manter um estoque mínimo de 4 mil pacotes/semana. “Existem alguns períodos que faltam rosas no mercado interno como o Dia das Mães, Dia dos Namorados, Natal e o Dia Internacional da Mulher”, revela Gabriela. No Brasil, a demanda maior é do setor de decoração e posteriormente, o de distribuição e floricultura.


Dinheiro Rural - Dezembro 2010

A super batata indiana

Indianos conseguem obter uma batata geneticamente modificada com teores mais elevados de proteínas e produtividade recorde

Viviane Taguchi

A biotecnologia aplicada ao desenvolvimento de produtos agrícolas mais ricos em teores nutricionais e mais rentáveis para os produtores rurais agora mira seus holofotes para a Índia. Em outubro, cientistas do Central Potato Research Institute, órgão ligado ao Indian Council of Agriculture Research, localizado em Shimla, Himachal Pradesh, apresentaram ao mundo um produto inédito, cujos resultados são perseguidos com afinco há sete anos: a super batata. Trata-se do desenvolvimento de uma batata geneticamente modificada com o genoma do amaranto, um grão tropical com características semelhantes a uma mistura de arroz e feijão e teores protéicos acima do convencional. “Não se trata de um produto de tamanho gigantesco ou formas anormais, mas sim de um tubérculo cujas propriedades e produtividade vão além dos parâmetros dos cultivos convencionais”, avisa Subra Chakraborty, pesquisadora que conduziu os estudos. Subra destaca, além dos resultados numéricos e percentuais do estudo, a sua importância como alternativa para o combate à fome em regiões específicas da Índia e China.

Testes realizados com a super batata apontaram que o produto geneticamente modificado contém 60% a mais de proteínas por grama de batata quando comparado a uma batata tradicional. Para se ter uma ideia do que isso representa, uma unidade convencional de 150 gramas conteria três gramas de proteínas enquanto na batata geneticamente modificada, seriam 4,8 gramas. Isso representa 10% do que é recomendado para o consumo humano diário, segundo a Organização Mundial de Saúde, OMC. Mas Subra diz que os benefícios do produto também podem trazer ganhos diretos aos produtores rurais. “Os testes em campo mostraram que a produtividade rural teve um aumento de 15% a 25% a mais de batatas por hectare”, diz ela. Em Vargem Grande do Sul, município paulista responsável por 90% da safra de batatas nacionais, a produtividade gira em torno de 36 toneladas por hectare. Para se chegar a este índice, os produtores precisam importar 2,7 milhões de toneladas de sementes convencionais ao ano, segundo a Associação Brasileira da Batata.

A super batata indiana ainda vai demorar para chegar ao mercado. Testes de biossegurança estão sendo realizados há cinco anos, em laboratórios e em campo, e a planta não apresentou indícios de inviabilidade, como por exemplo, potencial alergênico, mas a comercialização requer padronização, o que demanda tempo. “A comercialização de qualquer produto elaborado a partir da biotecnologia e da bionanotecnologia obedecem a regras padronizadas internacionalmente”, destaca o pesquisador Luciano Paulino Silva, da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia. No Brasil, a Embrapa Clima Temperado lançou variedades diferentes de batata destinadas ao mercado de mesa, mas são espécies melhoradas e não geneticamente modificadas. “São variedades resistentes às piores doenças da cultura, com produtividade melhorada”, explica o pesquisador Arione da Silva Pereira. “Mas a produtividade da batata indiana é surpreendente”, finaliza.


Dinheiro Rural - novembro de 2010

Falei...



O que o amor não faz né? Cria até pauta....
Empenhada em levantar os dados de aviação agrícola para o Leo, acabei levantando uma matéria inteira sobre o tema...mas depois, ele mudou os planos e quis mudar de área. Rsrsrsrs. Eu te amo, meu amor!

Um mercado nas alturas

A aviação agrícola cresce 8% ao ano na esteira da expansão do setor sucroenergético e a fruticultura. Saiba porque você ainda vai se render a ela

Viviane Taguchi

De um ataque de gafanhotos às lavouras de Pelotas, no Rio Grande do Sul, e uma ideia improvisada, copiada dos norte-americanos, para combate-los, surgiu a aviação agrícola brasileira, na década de 40. Sessenta anos se passaram e este segmento conquistou uma taxa de crescimento variável de 5% a 8% ao ano, com um faturamento de R$ 600 milhões registrados em 2009, 277 empresas autorizadas para a atividade pela Agência Nacional de Aviação Civil, Anac, e cerca de 1500 aviões apropriados. Seriam bons números se não fosse o fato de apenas 25% das lavouras brasileiras serem atualmente pulverizadas por aeronaves quando a demanda é de 60%. De acordo com o Sindicato Nacional de Empresas de Aviação Agrícola, Sindag, estes percentuais levam em consideração os cultivos tradicionais, milho, soja e trigo, que absorvem 80% da atual demanda da aviação agrícola, a abertura de novas áreas agricultáveis nas regiões centro-oeste e nordeste, e a expansão das lavouras de cana-de-açúcar, laranja, café e reflorestamento. “Para atender o crescimento destas lavouras que se expandem no interior do Brasil, seriam necessárias 10 mil aeronaves agrícolas em atividade”, avalia o presidente do Sindag, Julio Kämpf. “O setor vai acompanhar gradativamente a expansão das lavouras de fruticultura, que movimentam 20% da agricultura, novas áreas que se abrem em Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Oeste baiano, e poderá ampliar significativamente sua atuação com a aprovação do novo Código Florestal”.
Hábitos culturais do produtor rural brasileiro também são apontados como um gargalo para um crescimento maior e mais rápido do setor. “Por questões culturais, o empresário rural tem o hábito de investir em máquinas terrestres para pulverizações e ele é incentivado a compra-las pelo sistema financeiro, que oferece crédito, e pelas empresas fabricantes, que investem em marketing”, diz Kämpf, que acredita que dentro de alguns anos, vai ser impossível o produtor não lançar mão do serviço aeroagrícola. “A mudança de perfil do agricultor vai faze-lo enxergar o custo-benefício da aviação agrícola em detrimento da compra de equipamentos terrestres”. Ainda hoje, as empresas de aviação agrícola concentram-se no Rio Grande do Sul, seguido pelos Estados de Mato Grosso e Goiás.
A Embraer é uma das sete empresas do mundo que fabrica aeronaves agrícolas. Nos anos 70, lançou o Ipanema, através da subsidiária Neiva, instalada em Botucatu (SP), e desde então, comercializou 1100 aeronaves no mercado interno e externo. Em 2005 lançou o Ipanema-etanol e deste período até outubro deste ano, vendeu 102 unidades. “A estimativa para 2010 é comercializar 40 unidades do Ipanema 100% etanol, o que representa 15% de crescimento em relação ao ano passado”, relata Almir Borges, diretor industrial da Neiva/Embraer. Estes números, segundo Borges, tendem a crescer ano a ano. “O agronegócio cresce e consequentemente a aviação agrícola vai dar um salto significativo nos próximos anos”.
Uma aeronave nova dessas custa R$ 654 mil, enquanto a sua versão movida à gasolina de avião sai por R$ 644 mil, investimento que se paga em um ano e meio de atividade. “Uma aeronave agrícola fatura a média de R$ 540 mil ao ano”, diz Kämpf. “O custo benefício se dá pela vida útil do equipamento e a manutenção, que é de responsabilidade da empresa terceirizada, e não do produtor rural”, alega Borges. Segundo ele, 95% da frota total de Ipanemas comercializados ainda estão em atividade na aviação. A vida útil de uma aeronave é de 30 anos enquanto a de uma máquina agrícola, de dez anos.

Dinheiro Rural - Novembro de 2010

Comer samambaia



Foi o maior chá de cadeira que levei depois das pautas em Araçatuba (quando o Crispim me mandava para as pautas uma semana antes da data certa). Na Fazenda do Eloy Tuffi, ficamos algumas horas nos distraindo com a grandeza da fazenda, da casa cheia de rococós dourados e da incrível casa de hospedes do Tuffi. Mas ele estava demorando tanto para chegar (e a gente sem almoçar) que o fotógrafo Julio Vilela tava querendo comer flor do viveiro do homem. Íamos sair da fazenda, ir até a cidade para almoçar, mas a nossa cara de fome devia ser tão grande que mandaram servir um almoço lá: hummmm, bife de red angus. Virei fã desse bife, mas me senti mal, pq horas antes eu tava afagando bezerrinho no pasto e depois, eu tava comendo o irmão dele....
...Voltei pra casa falando do bife até que o Marfrig me mandou um monte de pacotes dele! Ah, aí o Leo também gostou e como ele é o chef oficial da relação, ficou fazendo obras de arte. O meu papel é cortar cebola! Te amo!

O Red Angus quer morder o Mc Donalds

Conheça o audacioso plano de Eloy Tuffi, pecuarista que planeja duelar com as redes de fast food usando como escudo um hamburguer 100% Red Angus

Viviane Taguchi, de Espírito Santo do Pinhal (SP)

Ele é um empresário cheio de manias e a principal delas é fazer bons negócios sem medo de caras feias. Há 33 anos, Eloy Tuffi resolveu abrir uma escolinha de computação e a transformou na maior rede de franquias de escolas de tecnologia de informação do Brasil, a MicroCamp, que fatura anualmente R$ 100 milhões. Há 10 anos, Tuffi apostou no agronegócio. Comprou e transformou uma fazenda abandonada, em Espírito Santo do Pinhal, interior de São Paulo, no berço nacional da raça Red Angus, a Fazenda MC. Juntou um rebanho premiadíssimo, investiu em reprodução assistida e genética de vacas de elite, registrou as marcas Angus e Red Angus para exploração comercial em seu nome, e em 2007, partiu para o ramo da gastronomia, com o primeiro restaurante brasileiro especializado em carnes nobres deste boi, o Red Angus Beef, na capital paulista. Agora, Eloy Tuffi quer encarar outro grande desafio: duelar com as redes de fast food Mc Donalds e Burguer King e abrir espaço neste mercado com um hamburguer que ele chama de genuinamente original. “É carne pura, só isso”. Com o investimento inicial de R$ 3 milhões, quantia que ele próprio considera baixa para um objetivo tão ousado, o seu plano é estruturar uma rede de franquias para hambúrgueres, o Red Angus Burguer, e posteriormente, ser fornecedor de carne para a marca, alavancando o nome e o mercado da raça no Brasil.
“Pode apostar que em 2011 os consumidores brasileiros vão conhecer o verdadeiro hamburguer. Um hamburguer feito apenas com carne, sem água e sem soja”, avisa Eloy Tuffi, apreciador assumido de carnes. “Eu já experimentei todo tipo de hamburguer que tem por aí e garanto que não existe nenhum feito puramente de carne. Tem uma rede aí que usa até um pozinho químico pro hamburguer ficar mais saboroso”, diz ele. Especialista em “testar” a qualidade dos produtos que estão no mercado, Tuffi recomenda: “Coloque um hamburguer comprado no Brasil e um hamburguer comprado nos Estados Unidos em duas churrasqueiras diferentes. O brasileiro vai soltar tanta água que vai apagar o fogo. O americano vai ficar assadinho, gordinho”, compara. O empresário acredita que enfrentar o Mc Donalds e o Burguer King, que chegou ao Brasil pelas mãos do também criador de Red Angus Luis Eduardo Batalha, não será tão difícil quanto parece. “Eu quero conquistar o consumidor pelo paladar. Ninguém é bobo de querer continuar comendo hamburguer misto se pode comer um original”. O principal objetivo de Tuffi é buscar parceiros, exatamente como ele fez com a MicroCamp. Embora enxergue o negócio de forma tão simplificada, ele não revela quais são suas expectativas, nem de faturamento e nem de números de franquias que pode vender em um ano. “Primeiro, vamos trabalhar o hábito alimentar dos consumidores, depois pensamos em números”.
O sucesso comercial que o hamburguer de carne de Red Angus fez fora do Brasil sustenta a tese otimista de Tuffi. Em 2002, o Burguer King lançou nos Estados Unidos um hamburguer de 300 gramas feito de carne de Angus. Hoje, a rede estendeu o lanche para a Inglaterra, Canadá, Espanha e Itália e é um dos campões de vendas. No ano passado, o Mc Donalds também entrou neste mercado e lançou, em todas as lanchonetes da rede nos Estados Unidos, o seu McAngus, que também compõe o cardápio das lanchonetes instaladas no Canadá, Nova Zelândia, Austrália e Europa. “É uma carne diferenciada, mais macia devido à gordura entremeada por suas fibras musculares, o que lhe confere um sabor peculiar e único”, explica o executivo do Burguer King no Brasil, Luis Eduardo Batalha. O próprio, com um capital de R$ 20 milhões, enfrentou uma verdadeira batalha quando decidiu entrar neste segmento, em 2004. “Eu queria acabar com a ditadura do hamburguer no Brasil e declarei a guerra”. O Mc Donalds tem interesse em incluir em seu cardápio o McAngus a partir de 2011. “Eles nos procuraram e já adiantaram que vão incluir o hamburguer de Angus no cardápio nos próximos anos”, afirma Juliana Brunelli, gerente da Associação Brasileira dos Criadores de Angus, mantenedora do Programa Carne Angus. “Eles também acreditam que o consumidor brasileiro já está pronto para um produto de valor agregado”.
O Brasil abate, em média, cerca de 12 mil animais da raça quando estes atingem o peso médio de 550 quilos. “Hoje, o mercado absorve todas as carnes nobres de Angus. É uma carne de valor agregado e o consumidor provou que está disposto a pagar um pouco mais caro por um bom produto”, analisa Brunelli. “Infelizmente, as partes dianteiras do Red Angus estão indo para o mercado como carnes comuns e perdem o seu valor. Com a possibilidade de criarmos uma indústria de hambúrgueres nacional, estas partes poderão ser mais bem aproveitadas”. Para Tuffi, a hamburgueria só irá incentivar o setor. “Com o mercado de hamburguer em crescimento, a raça Red Angus também crescerá e não vai faltar fornecedor”. Atualmente, Tuffi abate por mês cerca de 1,5 mil cabeças para abastecer seus dois restaurantes. “Pego metade e o resto, acabo deixando no frigorífico. É uma judiação, mas eu já vou avisando: Eloy Tuffi e o Angus Burguer chegarão rapidinho”.

Dinheiro Rural - Novembro de 2010

Gente bacana

Em setembro de 2010, fomos lá mais uma vez pra Bahia a convite da Abac, para um congresso. Quase morri de comer acarajé, ô delícia. Mas os dia que se seguiram foram de muita estrada, carona e situações... A Michelle é uma menina muito legal, bonita, rica e inteligente. Mas ela é, principalmente, muito simples e humilde, como os que são realmente bons e bem educados são. Na fazenda do avô dela, o Elsimar Coutinho, comemos a melhor comida do mundo, da Maria. Arroz, feijão, bife e ovo frito. Depois, junto com ela, ficamos perdidos nas rodovias da Bahia e pegamos outra carona no meio da estrada, para um vilarejo chamado Bravo (Terra de cabra Macho). Chegamos à noite no semi-árido, na fazenda do Ricardo Falcão. Ele me hospedou no quarto da mãe dele. Tinha um penico de porcelana e uma banheira de 1808, acho que a vó dele tomou banho nela quando nasceu. Fiquei tirando fotos do celular dos detalhes do quarto da mulher, que falta de educação, mas foi bem legal. Só antes de eu ir dormir que ele me contou que as cinzas do pai dele tinham sido jogadas no jardim de inverno ao lado do quarto. E tinha uma foto,daquelas pintadas à mão, do homem, pendurada na parede. Eu não dormi naquele dia.
Na outra noite, eu dormi de cansaço, no mesmo quarto. De manha, voltamos pra civilização, mas antes o Falcão resolveu nos mostrar as cidadezinhas da redondeza. Fui em um antigo quilombo, que hoje é uma cidade, mas me olharam muito feio por lá, só porque eu sou branca (ou amarela). Realmente, sentir o preconceito dói!

De Wall Street para o Recôncavo

De olho no mercado de gado de elite, economista de 27 anos abandona o frenesi do mercado financeiro de Nova York para criar uma marca genética no coração da Bahia

Viviane Taguchi, de São João da Mata Velha (BA)

Um rebanho composto por 1100 animais nelore puro de origem pasta vistoso nos campos da Fazenda Nossa Senhora da Paz, no município de São João da Mata Velha, região do recôncavo baiano, distante aproximadamente 100 quilômetros da capital Salvador. Apoiada numa cerca branca que circunda a propriedade de 1500 hectares e termina engolida pela Mata Atlântica preservada, Michelle Coutinho Dorea observa cada detalhe da boiada que leva no lombo a marca de ferro de um coração, símbolo do amor e da vida. Pega o seu smartphone, ajeita seus longos cabelos loiros, e liga para o celular do avô, o renomado médico e cientista genético Elsimar Metzker Coutinho, e metralha mil perguntas. Ele responde uma a uma com a calma de um típico avô baiano e ao final da conversa, abençoa a neta. Ainda curiosa, dispara mais perguntas para os peões da fazenda, outras vezes ao médico veterinário ou ao biólogo Bira Ramos. Michelle quer aprender tudo, saber tudo sobre o gado, a fazenda e o dia-a-dia da lida no campo, como diziam os mais antigos. “Desde que cheguei aqui, não paro de fazer perguntas”, diz ela, resumindo parte de sua própria história. A menina que nasceu em Londres, estudou em colégios europeus, e formou-se economista nos Estados Unidos, largou uma carreira de sucesso no mercado financeiro de Nova York para começar, aos 27 anos, uma nova empreitada, agora focada no agronegócio: investir em melhoramento genético do rebanho bovino da região nordeste, com o BahiaEmbrio, o único laboratório especializado em técnicas de fertilização in vitro da região, e que leva as marcas Vitrogen e Genética Coutinho como cartão de visitas. De volta à Bahia, terra natal do avô e onde ela passava longas férias de verão, Michelle está apaixonada pela pecuária, os avanços da tecnologia genética e, principalmente, pela natureza. “Cada dia aqui descubro que a minha missão é ainda mais desafiadora do que aquelas que eu tinha em Wall Street”.

A mulher de negócios de Nova York abandonou o tailleur e os finíssimos saltos de grife para usar calça jeans surrada e botas. Sem frescuras, Michelle toca o gado e afaga os bezerrinhos recém-nascidos com a habilidade de quem sempre fez isso na vida. “Eu sempre gostei das coisas da fazenda, passava temporadas aqui e praticava hipismo, mas nunca me envolvi diretamente com o gado e os negócios. Estou aprendendo muito sobre pecuária e quero mudar o perfil do rebanho baiano, resgatar a importância que os rebanhos do nordeste têm para a economia brasileira e, sobretudo, democratizar a fiv (Fertilização In Vitro)”, diz ela, convicta de seus objetivos. “Sei que darei passos lentos, mas vou conquistar este mercado”. A ideia de investir em um laboratório de fertilização in vitro na Bahia partiu do avô, Elsimar Coutinho, acostumado a causar polêmicas do cenário médico, com teses revolucionárias sobre reprodução humana. Isso foi em janeiro de 2008. “Muita gente estranha o meu interesse em dedicar parte do meu tempo à criação de gado, mas eu nasci em fazenda, gosto disso, essa é a minha origem”, revela Coutinho, baiano de Pojuca. “Com a experiência que adquiri na área de reprodução humana, eu não poderia deixar de aplicar o meu conhecimento na melhoria genética do rebanho bovino, o que já estamos fazendo há alguns anos aqui na fazenda Nossa Senhora da Paz”. Aos 80 anos, e atuando em consultórios médicos em seis cidades distintas, Elsimar Coutinho quase não tinha tempo para dedicar-se aos investimentos rurais. “Conversando com o meu avô, percebi que havia aqui uma ideia brilhante de um negócio que poderia dar muito certo. É um desafio e tanto, mas abracei a causa sem medo”, conta Michelle, que mudou-se de mala e cuia para o Brasil nove meses depois da inauguração do BahiaEmbrio. “Mas a partir do momento que eu assumi, resolvi parar tudo e reestruturar o negócio”.

Pode-se dizer que nova empreendedora rural da Bahia praticamente fechou as portas do BahiaEmbrio em janeiro deste ano para “por a casa em ordem”. Em seis meses, investiu R$ 1 milhão no laboratório, foi de norte a sul do país em busca de novos parceiros e clientes e conseguiu o que queria: retomar as atividades do laboratório com capacidade para produzir dois mil embriões ao mês, o que corresponde a 30% da capacidade total do BahiaEmbrio. Atualmente, a produção média do laboratório é de 100 embriões ao mês, que resulta na média de 35 prenhezes confirmadas. “Essa é a média, mas o mercado está se expandindo rapidamente”, diz ela. Para o biólogo Bira Ramos, um dos responsáveis técnicos pelo laboratório, o trabalho de Michelle Coutinho Dorea já tem despertado a atenção dos pecuaristas locais. “Os pecuaristas da região estão chegando. É claro que ainda há aqueles que tem certo receio sobre o trabalho que está sendo desenvolvido aqui, principalmente por ser uma novidade, mas o interesse está sendo bem maior que o esperado”, afirma o biólogo. A média de preço trabalhado é de R$ 600 por prenhez garantida, mas o custo total oscila conforme o serviço oferecido, seja o aluguel do ventre da receptora, transporte ou hospedagem. Michelle aposta na fixação da marca e na disseminação da cultura de seleção genética no nordeste antes de vislumbrar lucros. “É um investimento de longo prazo. Neste momento, o desafio de fazer o negócio dar certo é mais importante que o lucro do negócio em si”. Ainda assim, pelas projeções da empresária, o faturamento do BahiaEmbrio deve ser de R$ 800 mil em seu primeiro ano, com expectativa de crescimento de 50% para o segundo ano de atuação na empresa.

O BahiaEmbrio é o único laboratório brasileiro que oferece infraestrutura para todo o ciclo de produção, com 600 vacas receptoras próprias, mestiças de raças girolando, red angus, nelore, simental e pardo suíço, e estrutura para hospedagem para doadoras e receptoras de terceiros, além de maternidade e baias próprias para abrigar os animais inseminados, e isso faz do investimento um modelo de negócios inédito, capaz de moldar-se à demanda do cliente, e representa um avanço para o segmento. “Temos condições de oferecer o pacote completo do ciclo de reprodução, que vai desde a aspiração do óvulo até a entrega do animal, ou atender algumas etapas do processo, conforme as necessidades e condições do pecuarista”, explica a empresária. “Com isso, ela conseguiu desenvolver um modelo de negócios inédito na pecuária, capaz de atrair investidores que não necessariamente sejam criadores de gado”, analisa André Dayan, diretor presidente do Grupo Vitrogen, de Cravinhos (SP). “Com esta infraestrutura, o investidor não tem nem a necessidade de ver o animal se ele não quiser. A Michelle faz todo o trabalho, garante a prenhez e já entrega o animal para um outro comprador”. A garantia da prenhez é outro fator que diferencia o negócio criado por Michelle Coutinho. Acostumada a assumir riscos na bolsa de valores, também assume na seleção genética os resultados garantidos. “O risco é meu, não tem essa do cliente pagar e não ter o que quer”, diz ela. A viabilidade da aplicação comercial de fiv remete ao valor comercial do bezerro no momento da desmama. “Se este valor for acima de R$ 3 mil, a fiv indica que será geradora de renda, caso contrário, o investimento pode não ser compensador”, explica Dayan.

A preocupação que Michelle teve em oferecer um bom plantel de receptoras foi crucial para viabilizar o negócio, segundo Dayan. “Era um enorme gargalo para os selecionadores baianos”. O próprio Elsimar Coutinho revela que quando decidiu investir em melhoramento genético do seu rebanho nelore P.O vivenciou a dificuldade dos colegas. “A Bahia não contava com uma central de receptoras apropriada e para não comprometer os resultados, a solução era transferir os embriões em São Paulo ou em Minas Gerais. Depois, essas receptoras eram transportadas para a Bahia, aumentando todos os custos”, conta o médico. “Criar a central de receptoras foi tão importante quando investir no laboratório. Além de aumentar as chances de bons resultados, simplifica a logística envolvida”. O pecuarista baiano Joãozito Andrade, de 90 anos, e responsável pela formação do plantel nelore no nordeste explica que uma boa receptora também é fundamental para a compensar o investimento em fiv. “Uma boa receptora é aquela vaca que tem habilidade materna, estrutura corporal adequada e recebe todos os cuidados sanitários adequados para gerar o embrião”, ensina o pioneiro, que foi um dos primeiros compradores dos descendentes de Kavardi, reprodutor nelore trazido da Índia por Torres Homem Rodrigues da Cunha. “Toda a tecnologia e as possibilidades da fiv são muito importantes para a pecuária, mas os cuidados que temos que ter após a implantação dos embriões também são fundamentais para completar o ciclo de forma positiva. Tem que cuidar da mãe de aluguel com tanto zelo quanto todo o processo feito no laboratório e isso, o Elsimar Coutinho e a Michelle sabem fazer muito bem. O que eles trouxeram para a Bahia foi avanço, evolução”.

O Brasil hoje detém 50% dos embriões bovinos do mundo, segundo Dayan, que mantém centrais de seleção genética em sete países. As técnicas de fiv, até pouco tempo, eram desconhecidas e de alto custo. “Houve uma democratização da fiv em todo o mundo, mas principalmente no Brasil. Hoje, estamos na vanguarda deste segmento, sobretudo em São Paulo e Minas Gerais. No entanto, iniciativas como a de Elsimar Coutinho agora colocarão a Bahia, que tem regiões importantíssimas para a pecuária como o oeste, e os demais Estados também no mesmo patamar tecnológico e isso agrega valor a toda a cadeia como um todo”, alega Dayan. “O Elsimar e sua neta Michelle transformaram Salvador no pólo nordestino de seleção genética”. A democratização da fiv também passa pelos valores cobrados e pelas raças. Até alguns anos, o preço médio de uma prenhez oscilava entre US$ 500 e US$ 600 e hoje, em média, paga-se R$ 600/prenhez. “Esta tecnologia se popularizou de maneira importante para a pecuária nacional. Hoje temos criadores de girolando, brangus, ou outros cruzamentos para produção de carne, leite e até para a produção de vacas receptoras em grande escala”. Segundo ele, a evolução da seleção genética em bovinos no Brasil avança tão rápido que em pouco tempo, será indispensável. “Quando nos dermos conta, a fiv vai ser igual telefone celular. Todo mundo terá”.







Info 1

A cegonha no curral

Técnicas laboratoriais podem render até três prenhezes (*as médias sofrem variação de animal para animal e raças). Confira a média para raças zebuínas:

Aspiração na vaca doadora
15 a 20 óvulos

Fertilização in Vitro(fiv)
5 a 7 embriões

Implantação nas vacas receptoras
2 a 3 prenhezes


Info 2 (linha do tempo)

A evolução da fiv
O sucesso de técnicas de fiv em seres humanos antecede a fiv em bovinos

1790 – Cientistas realizam a fecundação de óvulos de estrelas do mar
1820/1890 – As experiências começam ser realizadas com mamíferos, utilizando coelhos
1940 – Descobertas da química abrem a possibilidade de novos meios de cultura e as experiências começam a ser feitas com camundongos
1959 – Nasce o primeiro coelho fiv
1968 – Experiências de sucesso geram o nascimento do 1º camundongo fiv
1970 – Nasce o primeiro rato fiv
1971 – Nascem as primeiras ovelhas fiv
1974 – Nascem os primeiros porcos fiv
1978 – Nasce o primeiro ser humano oriundo de técnicas de fiv
1982 – Pesquisadores finalmente conseguem ter êxito nas pesquisas com bovinos, com o nascimento de um bezerrinho. Foram utilizadas 22 vacas doadoras, sete receptoras, sêmen a fresco e congelado, que geraram 177 oócitos, e 52% deles foram fertilziados. Apenas uma prenhez obteve sucesso. O bezerro nasceu com 45 quilos, nos Estados Unidos.


Info 3

O André Dayan vai enviar dados comparativos de números do Brasil e outros países que investem em fiv bovina


Matéria – Parte 2 (duas últimas páginas)

Onde há uma grande mulher......há um grande negócio

Organização e estratégia para alcançar metas são as principais qualidades destas mulheres que estão mudando a cara do agronegócio brasileiro

Viviane Taguchi

Michelle Coutinho Dorea expõe o novo perfil do agronegócio: meninas que cresceram brincando entre o gado e as lavouras, observando seus avôs, pais e irmãos a lidarem com a peonada transformaram-se em executivas do agronegócio moderno. Jovens, bem formadas e determinadas, elas criaram modelos de negócios diferenciados reestruturando patrimônios já existentes, mas fadados ao comum, e hoje faturam ou almejam lucrar milhões de reais priorizando organização e estratégias inteligentes. Com elegância, delicadeza e autoridade, elas colocaram ordem na casa e o dinheiro no caixa.
Maria Stella Damha, herdeira do Grupo Encalso, quer faturar R$ 300 milhões até 2015 com as atividades diversificadas das sete fazendas que administra há oito anos no interior de São Paulo, Minas Gerais e Goiás. Deixou de lado o mercado financeiro para tornar-se uma executiva do campo. A primeira ação foi organizar e analisar o que precisava mudar, e otimizar o uso das terras, aumentando a produtividade de cada uma das fazendas, antes voltadas apenas para a pecuária extensiva de corte. Confinou 25 mil cabeças de gado e abriu espaço para culturas de cana-de-açúcar, milho e soja, que já respondem por 50% do faturamento total. “Eu não sou apenas a filha do dono, sou uma profissional atuando em uma empresa rural”, diz ela.
Para conseguir o que queria, Maria Stella teve que convencer e ensinar os funcionários e sócios de que era preciso trabalhar como em uma multinacional. Incluiu reuniões de acionistas, planejamento estratégico, gestão financeira e metas a serem alcançadas no dia-a-dia dos peões. “Com a casa em ordem, precisávamos pensar em novas atividades que agregassem valor às terras e que trouxessem novas rentabilidades”. Maria Stella administra o negócio todo do escritório em São Paulo, mas visita as propriedades com freqüência para acompanhar de perto o negócio e cobrar resultados dos gerentes. “É preciso estar sempre de olho porque uma piscadela pode significar prejuízo”. Antenada diariamente na bolsa de valores, é ela quem dita o momento ideal para colocar os bois no mercado ou adquirir lotes para repor o plantel. “O giro é constante e dinâmico. Se bem feito, o confinamento pode ser um excelente negócio, é uma questão de feeling. Hoje, parece simples, mas tivemos muito trabalho até aprender a controlar tudo”.
Marisa Saad compartilha da mesma filosofia de Maria Stella. “É o olho do dono que engorda o negócio”. Por crer nisso, saiu dos bastidores da Rede Bandeirantes de Televisão, nos anos 80, para dar vida aos negócios rurais da família. Sozinha e tendo como princípios lições do avô, João Saad, Marisa administra 4,5 mil hectares de cultivos de grãos e pecuária e consegue faturar R$ 500 mil ao ano. E ela não está satisfeita, quer mais. “Nos últimos anos, investimos em organização, diversificação e profissionalização. Agora, quero aumentar volumes e números”, avisa a fazendeira, que aplicou neste ano R$ 1 milhão em infraestrutura, tecnologia na Fazenda Pantaleão, em Bragança Paulista, interior paulista, e na aquisição de novas áreas. “Herdei do meu pai o gosto por comprar novas terras, mas não como um hobby e sim, como oportunidade de negócios”.
Marisa prefere cuidar dos negócios diretamente no campo e por isso, concentra todas as terras nos arredores de São Paulo. “Posso visitar todas rapidamente”. Na Pantaleão, de 435 hectares, ela circula diariamente entre as lavouras de milho, soja e girassol, segmento responsável por 40% do faturamento total da fazenda, e o rebanho de gado Simental, que iniciou há 19 anos com 40 embriões. Hoje, são mais de 3500 animais selecionados que movimentam o mercado de tourinhos. “Centralizo a administração na Pantaleão, mas trabalhamos em sinergia com todas as outras propriedades da família. Os tourinhos que nascem em Bragança Paulista são encaminhados para outras fazendas para venda, cruzamentos industriais ou engorda, dependendo do mercado”, afirma. O modelo diferenciado de Marisa é a venda rápida de animais premiados. “Não mantemos os animais premiados aqui. Sua venda permite retorno rápido para o negócio e corte de custos com o manejo dos mesmos”. Com os investimentos feitos, ela garante o nascimento de bons animais sempre. “Você tem que se garantir e arriscar para chegar onde quer”.

Dinheiro Rural - Outubro de 2010