O nível superior conquistado pela indústria vitivinícola insere a Serra Gaúcha na rota dos principais pólos de agroturismo nacional
Viviane Taguchi, de Bento Gonçalves (RS)
Uma paisagem bucólica toma conta dos campos do Sul. Os ventos gelados que sopram no inverno da Serra Gaúcha impostam um tom histórico ao lugar, e faz desabrochar toda a riqueza acumulada nestas terras, que já foram cenários de grandes batalhas e do incansável trabalho dos imigrantes italianos que chegaram ao Brasil no século XIX. Olhar por entre os parreirais que circundam a região é um presente dos deuses, aguça os sentidos e enaltece a alma. Hoje, toda a sua história se mescla à eficiência tecnológica sem perder o vínculo com os antepassados e chama a atenção do resto do mundo. O Vale dos Vinhedos, composto pelas cidades de Bento Gonçalves, Flores da Cunha, Nova Pádua, Farroupilha, Faria Lemos e Garibaldi tornou-se uma das principais rotas do agroturismo nacional, não somente pela veia histórica ou pelas belos cenários, mas por conquistar a excelência na produção de vinhos finos. No ano passado, 140 mil turistas foram ao Vale dos Vinhedos conhecer o seu potencial agrovinícola.
Visitar uma vinícola é fazer uma incursão no passado e ao mesmo tempo, no futuro. As tinas de madeira utilizadas para fabricar vinhos de mesa, com uvas americanas e híbridas, nos séculos passados, hoje são objetos de decoração nos galpões que abrigam pipas de aço inoxidável resfriadas por controles digitais. Estes equipamentos de última geração guardam raridades tiradas de vinhedos cultivados com uvas européias viti viníferas, próprias para a produção de vinhos finos, e que começaram a ser cultivadas no Brasil nos anos 90, período da “crise da garrafa azul”, a invasão dos vinhos alemães. Foi quando os viticultores trocaram o sistema de cultivo latado para o cultivo em espaldeiras. “A reconversão dos vinhedos foi o grande momento vivido pelo setor, pois percebemos que poderíamos cultivar aqui as uvas viti viníferas, próprias para a fabricação de vinhos de alto nível”, explica Ademir Brandelli, vitivinicultor e enólogo da Don Laurindo, casa fundada em 1887. “A qualidade do terroir é fundamental para a fabricação de um bom vinho”. Por terroir, entende-se o conjunto agricultável solo-planta-clima. Na Don Laurindo são produzidos anualmente 120 mil garrafas, provenientes de 15 hectares. “Não estou interessado em quantidade, mas sim, em qualidade”, diz Brandelli.
“Tudo começa aqui, na terra. É no vinhedo que podemos definir a qualidade de um bom vinho”, resume João Valduga, diretor da Casa Valduga, empresa que seu avô fundou em 1875, e que jura ter nascido embaixo de uma parreira. “Depois de constatada esta qualidade no terroir é que iniciamos todo o processo de elaboração e amadurecimento do vinho. Todos aqui no vale têm esta história de amor com o cultivo da uva. É isso que explica nosso apreço tão grande por estes produtos”. Por tamanha importância agrícola, os roteiros turísticos começam no campo. Na Casa Valduga, a primeira vinícola a incentivar o agroturismo na região, são os próprios irmãos Valduga que recepcionam os visitantes. “Isso aqui não é trabalho, é a nossa vida”, resume Juarez Valduga. Em 10 anos, a empresa investiu US$ 25 milhões, dos quais US$ 8 milhões foram aplicados nas parreiras, e US$ 1,2 milhão na aquisição de um moderníssimo filtro tangencial, equipamento que deixa o vinho ‘mais puro’. O complexo conta com cinco pousadas, quatro restaurantes, 156 hectares de vinhedos e a unidade fabril, que tem a maior cave da América Latina, com capacidade para seis milhões de garrafas. Hoje, guarda 1,8 milhão delas. O empreendimento desperta a atenção de investidores, mas os Valduga não querem nem ouvir falar na entrada de capital externo. “Recebemos propostas de investidores todos os dias, isso é cansativo. Não vamos injetar capital de fora, esta é uma empresa familiar”. Os vinhos finos produzidos sob as marcas do grupo são exportados para 11 países, inclusive França e Itália, os maiores produtores mundiais. “A nossa meta é produzir um vinho de nível elevado, cada vez melhor, e fazer com que os turistas se sintam em casa. Esta aqui é a nossa casa”.
No ano passado, segundo o Instituto Brasileiro do Vinho, Ibravin, foram produzidos 75,9 milhões de litros de vinho, sendo 5,75 milhões de vinhos finos. “Os brasileiros estão abrindo a cabeça para os vinhos finos nacionais”, acredita Diego Bertolini, gerente de marketing do instituto. Esta tese pode explicar o crescente interesse turístico na Serra Gaúcha. A vinícola Miolo recebeu em 2009, 129 mil turistas interessados em conhecer o processo de fabricação de vinhos finos. A empresa é uma das maiores do Brasil, e vem incorporando outras marcas, como a Almadén e a Lovara, ao grupo. Ao todo, produz 14 milhões de litros, e almeja produzir 17 milhões de litros até 2012. William Triches, um dos enólogos da casa, explica que tamanha produção só foi possível com a expansão dos vinhedos para outras regiões do Rio Grande do Sul e para o Vale do São Francisco, na Bahia. “A indústria agrícola do vinho se expandiu grandiosamente na região da serra, por isso, fomos buscar alternativas viáveis para continuarmos produzindo vinhos de qualidade”. Na região, segundo Triches, esta expansão foi tão intensa que um hectare de terra, dependendo da localização, chega a valer R$ 300 mil.
A segunda parte das visitas é uma espécie de mergulho na história da fabricação dos vinhos brasileiros. O cheiro forte das barricas de carvalho, que podem ser de origem francesa, americana, húngara ou russa, invade toda a linha de produção. Os métodos antigos de fabricação da bebida são sempre mencionados e alguns “segredos” são mantidos a sete chaves. “Tem coisas que somente meu pai sabe”, explica Roberta Boscato, da Boscato Vinhos Finhos, de Nova Pádua. Apesar de conservar alguns destes mistérios, a Boscato é altamente automatizada. “Todo o processo de fabricação passa por um rigoroso acompanhamento tecnológico para chegarmos a um produto final mais puro e com as propriedades desejadas”, diz. A tecnologia desta vinícola é empregada em todos os processos, desde o campo, com o uso da viticultura de precisão, até o engarrafamento da produção, que é de 400 mil litros. “Todo o setor vitivinícola investiu em tecnologia de ponta para se chegar a um produto de alto nível e isso não quer dizer que deixamos de lado a história que nossos antepassados nos deixaram de herança”. As vinícolas da Serra Gaúcha guardam exatamente este charme, que mistura o passado e o futuro, mas sobretudo, mostra como foi possível transformar uma pequena atividade agrícola comunitária em uma indústria gigante, agora, admirada pelos maiores especialistas do mundo.
Dinheiro Rural / Julho de 2010
segunda-feira, 4 de abril de 2011
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