segunda-feira, 4 de abril de 2011

É fogo

Longa estiagem compromete colheitas, reduz projeções para a atual safra de cana e pode prejudicar safra 2011/2012 de soja em vários Estados

Viviane Taguchi

Clima de deserto, temperaturas altas e a irresponsabilidade de alguns produtores rurais que ainda apostam em queimadas como aliada na agricultura, podem trazer prejuízos incalculáveis para a agricultura brasileira nos próximos meses de colheita, e para o plantio das próximas safras, principalmente. Apesar do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, MAPA, e a Confederação Nacional da Agricultura, CNA, não terem informações, dados e números oficiais destas perdas, em decorrência da estiagem ou de queimadas naturais e criminosas, os prejuízos já estão sendo sentidos principalmente por produtores que investiram em lavouras de inverno como o trigo e a aveia no norte do Paraná, o algodão e o milho no Mato Grosso, e a cana-de-açúcar em São Paulo, Goiás e Mato Grosso do Sul. Os estragos provocados pela seca podem ainda, comprometer o plantio de soja para a safra 2011/2012 no Mato Grosso e em Goiás, e as queimadas excessivas podem reduzir a qualidade da cana-de-açúcar para o ciclo 2011/2012.
No norte do Paraná, região de atuação da Coamo Agroindústria Cooperativa, a maior da América Latina, os maiores prejuízos estão sendo sentidos pelos investidores de safras de inverno como a aveia e o trigo. Segundo Gilberto Guarido, engenheiro agrônomo da empresa, metade destas lavouras estão sofrendo pela falta de água ou já sofreram perdas devido à seca prolongada. “As lavouras que foram plantadas de acordo com o zoneamento agrícola, em meados de abril, já estão em fase de frutificação e por isso não estão sentindo tanto os efeitos da falta de chuva, porém, as lavouras que foram plantadas fora desta época são as que mais sofrem”, diz Guarido. “Normalmente, as lavouras de inverno sobrevivem bem à escassez de água, mas já está demais”. Outros problemas da região são as conseqüências geradas pela seca, que deixa estas culturas mais suscetíveis a pragas. “Qualquer chuva seria muito bem vinda para todos os agricultores agora”. No Mato Grosso, segundo Lucélia Ávin, coordenadora agroambiental da Federação da Agricultura e Pecuária do Mato Grosso, Famato, a falta de chuva ameaça a safrinha de algodão e de milho. “Para isso, esperamos chuva em outubro ou muitos prejuízos pesarão ao produtor rural”.
No interior de São Paulo e Goiás, são os canaviais que já estão sofrendo perdas devido às queimadas descontroladas provocadas pela estiagem e as projeções de colheita já estão sendo reduzidas. Segundo a União das Indústrias da Cana-de-Açúcar, Unica, a persistência do clima seco prejudica a produtividade da cadeia produtiva como um todo. Sob essas condições extremas, dados apurados pelo Centro de Tecnologia Canavieira (CTC) em Piracicaba (SP), mostraram que a produtividade média do canavial colhido no Centro-Sul em agosto, quando comparado com o mesmo período do ano passado, apresentou uma quebra agrícola de 9,1%. Especificamente em São Paulo, a redução foi de 10,5%. Para o diretor técnico da União da Indústria de Cana-de-açúcar (Unica), Antonio de Padua Rodrigues, esta queda ainda pode ser intensificada, já que não há previsão de volumes significativos de chuvas até meados deste mês. O descontrole das queimadas tem a ver com a mecanização. Com o uso das colheitadeiras, a palha da cana fica no campo e funciona como combustível para o fogo, que avança para áreas que já foram colhidas e queimam os brotos de cana. “Um canavial, em média, rebrota por cinco safras. Estas áreas que foram atingidas por queimadas descontroladas já implica em prejuízos no futuro”.
A mesma preocupação é sentida pelos produtores de soja do Mato Grosso. A falta de chuvas ainda não interferiu no início do plantio do grão, mas de acordo com o diretor da Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja), Carlos Fávaro, é preciso chover até novembro. “Contamos com chuva o suficiente até 15 de novembro para iniciarmos o plantio”, alerta. Segundo ele, se o plantio de soja atrasar, isso implicará em atrasos nos plantios de milho da safrinha e principalmente, o de algodão. “O milho dispõe de um escalonamento muito superior que o algodão”, frisou.


Dinheiro Rural - Setembro de 2010

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