Cálculos matemáticos, quando aplicados nos modelos de gestão de lavouras de cana, podem aumentar a sua rentabilidade em até 5%
Viviane Taguchi
Será que Pitágoras (580-500 a.c), o pai da matemática, poderia um dia imaginar que a ciência exata que ele se dedicou a desenvolver iria influenciar a rentabilidade de um canavial no Brasil? É possível que sim, pois uma de suas prerrogativas era a de que “tudo é número: a pureza do espírito, a vida e os ciclos da terra”. Sendo assim, para ele seria mais do que natural que a matemática também fosse usada na agricultura, como solução ou coadjuvante, tanto faz. Mas apesar desta certeza e de ter desempenhado várias profissões ao longo de sua vida, Pitágoras calculou tudo, mas não plantou nada. Nem um pé de cana. Ainda assim suas descobertas numéricas estão dando resultados positivos no campo. Agora, chegou a vez dos canavieiros fazerem as contas. Em Piracicaba, no interior de São Paulo, isso já está acontecendo. Um tipo de conta matemática que utiliza dados de previsibilidade (umidade, temperatura, clima) confiáveis, e programações lineares têm feito alguns canaviais renderem até 5% a mais para o produtor, ofertando plantas com teores de sacarose (Açúcares Totais Recuperáveis – ATR) 2% a 6% mais elevados que o normal. É exatamente a quantidade de ATR que remunera o lote de cana que chega na indústria. A aplicação da conta conseguiu aumentar em até R$ 10 o preço da tonelada de cana de fornecedores que a usaram. Em uma usina localizada em Sertãozinho/SP, a conta chegou a elevar o seu faturamento anual bruto em R$ 8 milhões já na primeira safra em que foi utilizada.
A aritmética da cana vem sendo chamada de modelagem matemática e já conquistou líderes de mercado como o grupo Cosan, maior produtor de açúcar industrial e etanol do mundo, e o grupo Balbo, líder na produção de açúcar orgânico mundial. Os canaviais de ambos fizeram parte dos projetos experimentais da conta, cujos resultados apresentaram estimativas de até 90% de acerto, ou seja, através da modelagem, foi possível colher a cana no dia exato em que a planta atingiu o auge de maturação (momento em que há concentração da maior quantidade de açúcar). “Não é simplesmente uma conta. É um modelo matemático que otimiza os modelos de gestão”, explica o pesquisador Edgar Gomes Ferreira de Beauclair, o criador da fórmula. Segundo ele, a modelagem otimiza os resultados dos softwares de gestão existentes no mercado, conseguindo prever o comportamento de cada variedade em determinado ambiente. “O que faltava era a capacidade de prever o comportamento das variedades em cada ambiente com índice de acerto maior e aplica-la aos sistemas”.
Beauclair trabalha a matemática desde 1982. “Eu copiei o que os americanos estavam fazendo lá com diversas culturas e apliquei na lavoura de cana”. Vinte anos depois e junto com o colega Maximiliano Scarpari, o cálculo foi aperfeiçoado, chegando a duas estimativas: a previsão da produção em toneladas por hectare, e a previsão do acúmulo de sacarose na cana tornando o negócio mais lucrativo. “O modelo calcula a produção a partir de valores de presivibilidade fornecidos pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) como umidade, temperatura e parâmetros fisiológicos, principalmente os que geram plantas mais doces”, diz ele. É durante a fotossíntese que a cana produz a sacarose. Em dias quentes e úmidos, a produção é alta enquanto nos dias frios e secos, a planta produz e consome menos açúcar a fim de fazer reservas. “É possível estimar a maturação da cana com 90% de acerto, e alcançar maior rentabilidade”.
De acordo com o consultor Badri Kazan, da Kazan & Associados, de Ribeirão Preto, os modelos de gestão convencionais usam técnicas de pesquisas operacionais em que as estimativas de aumento da produção são sempre comparadas e testadas. "É uma visão abrangente de todos os cenários possíveis e, graças aos recursos matemáticos, a melhor alternativa é escolhida, mas sempre em função das estimativas fornecidas. É aí que o modelo torna viável a aplicação prática da tecnologia". Segundo o consultor, nas lavouras em que a modelagem matemática foi aplicada, houve um acréscimo de 4,5% a 5% na rentabilidade do canavial. “Este sistema é um recurso poderosíssimo para a tomada de decisões estratégicas, pois oferece um detalhamento forte sobre a produtividade”, diz ele. “Os algoritmos nos dão uma solução otimizada da capacidade produtiva e suas limitações. Modelos aperfeiçoados de gestão científica são a tendência do setor, caso contrário, nenhuma empresa terá sustentabilidade no mercado”.
Como as previsões fornecidas pelo Inpe são para um trimestre, agora os dois pesquisadores têm uma nova missão: fazer as previsões para nove meses, período que corresponde a toda a safra. “Isso ainda é o Calcanhar de Aquiles, mas chegaremos lá”, avisa Beauclair, no melhor estilo Pitágoras, que além de matemático, também era dado a fazer previsões.
Dinheiro Rural - Maio de 2010
segunda-feira, 4 de abril de 2011
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