Com investimentos de R$ 12 milhões, empresária gaúcha transforma a Serra da Ibiapaba, na fronteira do Ceará e Piauí, em um dos mais importantes pólos de floricultura do Mundo
Viviane Taguchi, de São Benedito (CE)
Subir a Serra da Ibiapaba não é tarefa da mais fáceis. Curvas sinuosas chacoalham os carros e os paus-de-arara pra lá e pra cá, colocando os passageiros em perigo entre abismos profundos, mas também mostrando-lhes paisagens de um Ceará verde e cheio de vida brotando da terra. Lá em cima, as temperaturas são altas durante o dia e o entardecer chega com ventos gelados. No meio da montanha está Viçosa, uma cidadezinha cheia de casas coloridas, coladas umas às outras. O município é passagem obrigatória para quem está no litoral e quer chegar a São Benedito, o ponto mais alto da região, a 900 metros do nível do mar. Há 12 anos, quem percorreu este caminho foram os Selbach, gaúchos de São Leopoldo que migraram para o Ceará na década de 80 e traçaram no nordeste uma história de sucesso que desabrocha milhões de reais na economia todos os anos. O trabalho dos Selbach foi determinante para que a Serra da Ibiapaba se transformasse em um dos quatro pólos produtores de flores do Estado, capaz de produzir as mais belas rosas do mundo, e inserisse o Brasil na rota do agronegócio mundial da floricultura. Criados para exportação, os jardins do Ceará, composto pelos pólos Guaramiranga, Cariri, Ibiapaba e Metropolitano, devem movimentar este ano US$ 5,5 milhões com as vendas ao exterior, mas no momento é o mercado interno que está sendo beneficiado com esta indústria.
Gabriela Selbach cresceu entre as roseiras. Ainda criança, acompanhava o pai, executivo do setor calçadista e floricultor de nascimento, Paulo Roque Selbach, em sua busca pela rosa perfeita. A paixão virou negócio no final dos anos 90 e hoje, Gabriela é seu braço direito e dirige a CeaRosa, a fazenda de 150 hectares fincada no alto da serra e que produz diariamente 24 mil rosas de alto padrão em 12 hectares de estufas climatizadas. “O objetivo inicial era produzir rosas para exportação, mas o mercado movimentou-se de tal forma que hoje é no mercado interno que está nossa demanda”, explica Gabriela, com um sotaque que mescla o gauchês e o ceares. “Apesar disso, toda a nossa produção continua seguindo o padrão internacional e não vamos mudar isso”. Na CeaRosa, os Selbach já investiram R$ 12 milhões. As exportações cessaram em 2008 com a crise mundial e quando algumas linhas aéreas diárias entre Fortaleza e Europa foram suspensas para combater o turismo sexual, e Gabriela, então, começou a fazer vendas diretas e internas. “O momento não era bom, então decidi copiar o sistema de comercialização de flores na Alemanha: passei a mão no telefone e comecei a vender as rosas”. Durante muito tempo, ela ligava, vendia, entregava os pacotes e depois de uma semana, ligava novamente para saber se o cliente estava satisfeito. Isto lhe rendeu fidelidade e credibilidade no mercado. Atualmente, suas rosas abastecem todo o nordeste, mas os maiores carregamentos são enviados, via aérea, à Brasília, Manaus, Rio de Janeiro e Porto Alegre. Por dia, são comercializados entre 800 a 1000 pacotes de 20 botões, o padrão internacional. São Paulo, o maior produto nacional de flores, está fora de seus planos. O trabalho que Gabriela fazia sozinha agora conta com 15 pessoas, em Fortaleza, e mais 180 para a produção em São Benedito, entre eles o agrônomo considerado o maior especialista do mundo no setor, o colombiano Julio Cantillo Simanca. “Ele é o pai coruja de todas estas rosas”, resume Selbach.
Com a mudança no foco dos negócios, a CeaRosa cresceu. Em 2009, faturou R$ 1,9 milhão
e neste ano, o faturamento deve ser 25% superior. “Ainda que o brasileiro não tenha o hábito de consumir flores, o mercado está se abrindo”, diz Simanca, responsável pela formação dos quatro pólos cearenses. “Nosso foco está aqui agora, mas não significa que não iremos exportar quando o momento for propício e o dólar mais valorizado. Enquanto isso, continuamos a buscar a perfeição nas rosas”, emenda. Segundo Gilson Gondim, presidente da Câmara Setorial de Flores do Ceará, entidade que reúne cerca de 280 produtores de flores, a média de consumo do produto no Brasil é de US$ 5/habitante/ano, enquanto em países como a Holanda, é de US$ 100/habitante/ano. “Os pólos produtores de flores cearenses foram criados visando o mercado externo e vamos continuar seguindo este foco, mas com o desenvolvimento do setor, o mercado interno despertou de forma positiva e está absorvendo a produção”, diz ele. “Estamos vivendo um momento muito bom e aos poucos, solucionando os problemas de logística”. De acordo com a Câmara Setorial, Holanda e Estados Unidos são os países mais interessados em comprar as flores nacionais.
Produzir flores no Brasil ainda é caro. Além do investimento em estufas climatizadas, que é de no mínimo R$ 350 mil, para ter o direito de comercializar as variedades de rosas, desenvolvidas por centenárias empresas de pesquisa européias, o produtor desembolsa US$ 1 por planta. “Os briders são os responsáveis por desenvolver as variedades que temos no mercado e estão protegidos pela Lei dos Cultivares”, explica Simanca, que testa as novas variedades por dois anos antes de dar o aval para os Selbach introduzi-las no mercado. Segundo ele, em um hectare pode-se cultivar 65 mil plantas. Cada planta produz, em média, 20 rosas de alta qualidade por ano e a cada 30 canteiros, um funcionário é necessário para cuidar das flores, manualmente. “Mas o resultado é uma rosa grande, bonita e com maior durabilidade”. Todos estes cuidados eram um problema para os Selbach no início do negócio. “Só conseguíamos funcionárias mulheres. Os homens da região acreditavam que se fossem trabalhar com flores, ficariam afeminados. Hoje, isto mudou e há mais homens na linha de produção”, lembra Gabriela. “Mesmo com tantos itens que pesam no preço, o consumo interno aumentou”. Para atender a demanda, ela tem que manter um estoque mínimo de 4 mil pacotes/semana. “Existem alguns períodos que faltam rosas no mercado interno como o Dia das Mães, Dia dos Namorados, Natal e o Dia Internacional da Mulher”, revela Gabriela. No Brasil, a demanda maior é do setor de decoração e posteriormente, o de distribuição e floricultura.
Dinheiro Rural - Dezembro 2010
segunda-feira, 4 de abril de 2011
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