Péssimas condições das estradas brasileiras provocam perdas de milhares de toneladas de grãos com prejuízos anuais que chegam a R$ 21 milhões
Viviane Taguchi
Com estruturas inadequadas, estradas em péssimas condições de uso e longas distâncias entre regiões produtoras e portuárias, o agronegócio brasileiro passa uma tremenda vergonha quando o assunto é modal de transporte. A agricultura dá largos, tecnológicos e sustentáveis passos rumo ao futuro, mas bastou abrir a porteira da fazenda para que os problemas comecem a surgir. E eles são muitos, todos graves para um país que é considerado ‘o celeiro do mundo’.
Por ano, segundo levantamentos da Central de Comercialização de Grãos da Federação de Agricultura e Pecuária do Mato Grosso, cerca de R$ 21 milhões são desperdiçados pelos caminhos brasileiros. Isso porque a má conservação da malha rodoviária faz com que 0,20% a 0,25% das cargas de grãos transportadas por caminhão literalmente ‘vazem’ dos veículos, polvilhando acostamentos – quando estes existem – repletos de buracos, desníveis e valetas, ou invadindo outras plantações que ficam às margens das estradas.
Somente naquele Estado, das 18,78 milhões de toneladas de soja colhidas, estima-se que 47,5 mil toneladas tenham ficado esquecidas nas rodovias. Cálculos de pesquisadores da Embrapa Soja, de Londrina (PR) indicam que os produtores de soja percam 3,4 milhões de sacas do grão por ano devido às más condições das estradas.
O padrão internacional recomendado para transporte de commodities é de, no máximo, distâncias de 300 quilômetros. As regiões produtoras brasileiras, porém, estão a mais de mil quilômetros distantes dos portos de Santos (SP) e Paranaguá (PR), os dois principais. “Nenhum outro país do mundo faz o que o Brasil faz: 58% da safra brasileira é transportada via rodovias, enquanto 25% por ferrovias e 17% por hidrovias. Eles riem disso”, explica Aedson Pereira, consultor de comercialização de commodities da AgraFNP, de São Paulo. “Somente o que se perdeu de soja no Mato Grosso corresponde à carga de um navio. O Brasil está amargando prejuízos gigantescos por falta de infra-estrutura logística”. Ainda segundo o consultor, as más condições das estradas brasileiras também implicam em prejuízos com veículos quebrados que ficam fora de circulação para manutenção, e encarecimento do frete. “Estas perdas já são contabilizadas na comercialização. Teoricamente, o transportador é quem arca com as defasagens, mas na prática, o comprador já calcula o índice de perdas e paga por isso”.
Um levantamento realizado pela Confederação Nacional dos Transportes aponta que 89% das estradas brasileiras têm condições ruins de trânsito, e a vida útil média dos caminhões gira em torno de 16 anos. “As principais rodovias têm trechos muito ruins. Mas as condições das estradas que vão da fazenda até estas rodovias, são ainda piores”, alerta o presidente da Associação dos Transportadores de Cargas do Mato Grosso, Miguel Mendes. “Além das perdas propriamente ditas, as empresas transportadoras têm grandes prejuízos com caminhões que estão impossibilitados de circular porque estão em oficinas, em conserto”. No entanto, para o Ministério dos Transportes, 80% das rodovias federais têm boas condições de tráfego.
Dinheiro Rural Setembro de 2010
segunda-feira, 4 de abril de 2011
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