segunda-feira, 4 de abril de 2011

Um brinde às origens

Produtores brasileiros seguem os passos dos franceses para agregar valor aos produtos com características diferenciadas

Viviane Taguchi

Os vitivinicultores que impõe delicadeza e eficiência nos vinhedos de Épernay, região de Champagne, na França, festejam o fim do verão com a colheita de uvas Chaddornay, Pinot Noir e Pinot Meunier. Estas frutas são as responsáveis pela fabricação de uma das mais nobres bebidas que o mundo já degustou, o original champagne. Os recursos naturais da região contribuíram para que estes vinhos e espumantes ganhassem um valor destacado, original e único no mercado e na preferência de apreciadores. A atriz Scarlet Johansson, embaixadora da Moët et Chandon, uma das marcas mais tradicionais do mundo, é uma das fãs do champagne. Usando luvas de manejo agrícola e empenhando uma tesoura de poda, a atriz embrenhou-se no terroir do Château de Saran, propriedade de 200 hectares da empresa, para abrir oficialmente a colheita de uvas, e apreciar o sabor dos espumantes de Champagne, que desde 1920 carregam o Appellation d’origine Contrôlée ou Selo de Denominação de Origem Controlada, DOC. As singularidades naturais, culturais, e tecnológicas dos vinhedos de Épernay que encantaram Johansson, também deram aos vinhos um atestado de originalidade que não pode ser reproduzido por bebida nenhuma, em qualquer outro lugar do mundo. “Estou maravilhada com a região. O champagne produzido aqui realmente tem o seu diferencial e por isso é considerado o melhor do mundo”, dizia a atriz. “Não há como pensar na França sem lembrar da excelência do champagne”.
A concessão do Selo de Denominação de Origem, DO, é uma espécie de prêmio aos produtos agrícolas que alcançam padrões diferenciados, vinculados com a região geográfica em que estão. “Na Europa, existe a antiga tradição de agregar valor aos produtos locais. Isso pode ser visto com o vinho do Porto, os espumantes de Champagne, o presunto de Parma, e tantos outros”, explica a coordenadora de indicações geográficas do Instituto Nacional de Propriedade Industrial, Inpi, Maria Alice Calliari. “O Brasil começa agora a seguir os passos desta tradição”, diz ela, se referindo à concessão do primeiro Selo de Denominação de Origem concedido ao arroz produzido no Litoral Norte Gaúcho no dia 1º de setembro deste ano. Segundo o Instituto, existem sete produtos brasileiros possuidores do selo de Indicação de Procedência, IP, que pleiteiam junto ao Inpi, a conquista do DO. “O IP refere-se à região em que é produzido o produto, e o DO o local específico de produção”. Entre estes itens, contam os vinhos de Pinto Bandeira (RS), o café do Cerrado Mineiro, os vinhos do Vale dos Vinhedos (RS), a carne bovina dos Pampas Gaúchos, a cachaça de Paraty (RJ), mangas e uvas de mesa do Vale do São Francisco (BA/PE) e o couro acabado do Vale dos Sinos (RS).
O processo de conquista do selo DO no Brasil é trabalhoso e demorado. “Existem vários procedimentos de configuração que são trabalhados para a conquista do selo de denominação de origem. Batalhamos por isso durante cinco anos, em intensas demonstrações de que o nosso produto tinha este diferencial”, conta Clóvis Terra, presidente da Associação dos Produtores de Arroz do Litoral Norte Gaúcho, Aproarroz. O arroz do litoral norte gaúcho conquistou o DO porque o instituto confirmou que ele se diferencia em função do local em que é produzido, que neste caso, compreende a faixa de terra localizada entre a Lagoa dos Patos e o Oceano Atlântico. “As características da região provocam condições climáticas e ambientais peculiares, o que faz com que os grãos se formem de maneira particular. Como consequência, o arroz apresenta rendimento superior”, frisa Terra.


Dinheiro Rural - Setembro de 2010

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