Ex-ministro Roberto Rodrigues propõe que obras de modernização portuária, orçadas em US$ 30 bilhões, sejam financiadas pelos chineses em troca da oferta dos produtos agrícolas
Viviane Taguchi
Uma relação de troca, interessante para ambos os lados. É isso que pode “salvar” o agronegócio brasileiro, segundo Roberto Rodrigues, ex-ministro da Agricultura e coordenador do Centro de Agronegócios da Fundação Getúlio Vargas (FGV). A troca que Rodrigues propõe se refere ao maior gargalo do agronegócio brasileiro, o sistema portuário, prestes a travar caso não receba investimentos imediatos, e a China, país que está com os olhos bem arregalados para o Brasil. “Podemos estabelecer um acordo de endividamento securitizado com a China, que tem uma economia centralizada e planejada”, afirma Rodrigues. A proposta é que a China forneça números e dados de crescimento para que o Brasil cresça paralelamente para atender esta demanda. “O primeiro passo é acertar os números: quanto a China vai precisar e quais produtos? Quanto cresceríamos para atender este mercado?. Assim, os chineses poderiam financiar as obras de modernização da nossa rede de logística, com uma saída para o Pacífico, passando pelo Mapito (região agrícola que engloba Maranhão, Piauí e Tocantins), e nós pagaríamos este financiamento em 40 anos com nossos produtos agrícolas”, explica Rodrigues. Em sua opinião, este acordo resolveria de uma só vez três importantes problemas do agronegócio: o domínio do mercado na China, a modernização da infraestrutura e o aumento da produção interna.
A rede logística defasada, segundo Rodrigues, é o nosso maior gargalo. “Precisamos priorizar os investimentos em ferrovias e portos, senão vamos travar. A oferta mundial de alimentos vai crescer 20% nos próximos dez anos e o Brasil será o responsável por 40% deste crescimento para atender a demanda. É um cenário extremamente promissor para nós, mas nada adiantará se não tivermos estratégias para o agronegócio”, alerta o ex-ministro. “Precisamos de acordos comerciais e a China está aí”, afirma. O acordo chegou a ser discutido no final de sua gestão como ministro da agricultura, em 2006, e volta a pauta agora. “Vamos retomar a discussão junto ao Conselho Empresarial Brasil-China. O Sérgio Amaral [atual presidente do conselho e embaixador] defende o acordo”, informou Rodrigues.
Em 2010, a China liderou o ranking dos países que mais compram produtos do agronegócio brasileiro: 23,4% das vendas totais do setor, que somaram US$ 50,1 bilhões, foram para os chineses. Dados da Câmara de Comércio e Indústria Brasil-China (CCIBC) apontam que os investimentos da China no Brasil em 2011 devem chegar a US$ 25 bilhões e ultrapassar os US$ 40 em 2014. Nos portos, a situação é crítica. Levantamento do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), diz que seriam necessários R$ 30 bilhões para serem aplicados até 2014 nos portos brasileiros. Deste valor, R$ 5,1 bilhões estão garantidos pelo PAC 2 do governo federal, e R$ 15 bilhões vêm de empresas privadas, como a Rumo, braço de logística da Cosan, que aplicou R$ 1,3 bilhão em seu terminal em Santos. O estudo diz ainda que os maiores problemas estão nos portos de Santos (SP), Vitória (ES), Pecém (CE), Itaqui (MA) e Rio Grande (RS).
segunda-feira, 4 de abril de 2011
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