segunda-feira, 4 de abril de 2011

Ele fez a Coamo decolar

José Aroldo Galassini, o homem que transformou uma pequena associação paranaense na maior cooperativa agroindustrial singular do mundo revela como conseguiu faturar R$ 5 bilhões com a venda de grãos no mercado futuro

Viviane Taguchi, de Campo Mourão (PR)

‘A união dos agricultores sob a luz do cooperativismo fez com que da terra emergisse esta grande obra’. A mensagem não é apenas uma citação gravada na obra do artista plástico Almir Trevisan, cravada na recepção do edifício da maior cooperativa agroindustrial do mundo, a Coamo, em Campo Mourão (PR), mas o reflexo do sentimento dos 22,7 mil produtores rurais que hoje fazem parte deste conglomerado. A Coamo nunca viveu crises, nunca sobressaltou-se em desequilíbrios econômicos, nunca hesitou em arriscar. Em 40 anos, tornou-se o melhor e maior modelo de negócios a ser seguido, alcançando o faturamento de R$ 5 bilhões em 2010, com a venda de soja, milho e trigo, e produtos industrializados. E para o seu presidente, o agrônomo José Aroldo Galassini, “nem foi um ano tão bom assim. Tivemos grandes volumes, mas os preços estavam baixos”. Imaginem se fosse melhor! Galassini, pai coruja da Coamo e seu idealizador, pôs a cara a tapa, arriscou e chegou onde queria, ou melhor, ainda vai chegar, pois seus planos vão longe e são milionários. O homem de fala calma e jeito bem simples recebeu a equipe da DINHEIRO RURAL em seu escritório, no nono andar da sede da Cooperativa, na véspera do Natal. Adiou uma reunião importante para nos receber, e estava animado com a ideia de uma sessão de fotos na lavoura, mesmo sabendo que um monomotor daria um rasante em sua cabeça. Não titubeou e nem tentou escorregar de qualquer pergunta. Entre uma resposta e outra, sapeava o monitor do seu computador, que mostrava, minuto a minuto, as cotações das Bolsas de Chicago, Londres e Nova York. “Olha, eu nem falo inglês, comecei minha carreira tarde, quase aos 30 anos, não sou especialista do mercado financeiro, mas estou sempre de olho porque podem aparecer oportunidades importantes para os nossos produtores. É nesta hora que eu arrisco”, disse ele. Seus produtores são como filhos debaixo da barra da calça. “Não... são companheiros fieis de longa data que acreditaram no mesmo sonho”, desconversa, com um sorriso que beira à timidez. José Aroldo Galassini e a Coamo podem ser vistos como um só, pois ele pensa como Coamo, e a Coamo age como ele. Se existe a fórmula do sucesso, a de Galassini foi esta.

O agrônomo comanda a Coamo há 35 anos, tempo que seria considerado longo demais em uma empresa privada, mas adequado para o cooperativismo, quando este, claro, dá bons resultados em caixa. “Quem está do outro lado, critica muito, mas a verdade é que este homem continua no comando da Coamo porque ele revolucionou a realidade rural paranaense de forma muito positiva”, explica Moacir José Ferri, produtor rural e sócio-fundador da cooperativa. “Sua atuação foi fundamental para o agronegócio brasileiro se destacar no exterior, nunca conseguiríamos sem ele. Hoje, seu trabalho é copiado por todas as cooperativas”, continua o produtor, que mantém quatro gerações da família Ferri ligada a Coamo. Desde então, Galassini tornou-se um mito para o agronegócio, e um exemplo internacional para o setor quando foi escolhido para estrelar uma campanha publicitária da Bolsa de Chicago, em 2007, cujo título era “Eu colho oportunidades a partir dos riscos”. “Acredito que eles achavam diferente um agricultor como eu ter ousado entrar lá, no início dos anos 80, com a cara e a coragem e isso ter dado certo para o agronegócio brasileiro”, comenta o presidente. “Eu gostaria que todos os agricultores brasileiros tivessem a oportunidade de operar no mercado futuro. É um mercado ousado, que precisa ter uma estrutura e capital por trás, mas é uma boa oportunidade. Não é um bicho de sete cabeças”. Esse jeitão despojado sempre fez parte de sua gestão. Galassini foi o segundo presidente eleito da Coamo. “Eu era muito menino quando fundamos a cooperativa, por isso não ousei me candidatar”. O primeiro presidente foi Fioravante Ferri, que faleceu quatro anos depois. “Aí as coisas já estavam mais estruturadas e eu me candidatei”. José Aroldo nunca tinha nem ouvido falar em Campo Mourão quando foi enviado para lá, em 1968, como funcionário da antiga Acarpa, hoje Empresa de Assistência Técnica e Expansão Rural, Emater. “O que eu encontrei era desanimador: existiam cinco tratores, ninguém conhecia a mecanização e o solo era ácido. Esta região era conhecida como a terra dos três ‘s’: samambaia, sapé e saúva”, lembra.

O jovem engenheiro transformou a pequena associação agrícola, então com 79 associados, na maior cooperativa agroindustrial singular do mundo. Absorveu oito cooperativas em dificuldades, e como ele mesmo diz, “desenterrou os sapos de macumba delas”. Enxergou no mercado externo uma forma de captar dinheiro. “Eu precisava achar um jeito de agregar valor à nossa produção e então, criamos a Coamo Internacional para exportar CIF [quando no preço de venda estão inclusos os custos da mercadoria, seguro e frete] diretamente para a Europa”, diz ele. Hoje, são 22,7 mil associados, 72% de mini e pequenos produtores, quatro milhões de hectares plantados, área quase do tamanho do Estado do Rio de Janeiro, 5,5 milhões de toneladas de grãos produzidas e comercializadas no mercado futuro, o que garante um preço melhor para a mercadoria, cinco fábricas que produzem 6,5 toneladas de alimentos/dia e três empresas subsidiárias, a Coamo Internacional, a CredCoamo e a ViaSolo. Neste ano, a Coamo vai crescer mais. Galassini quer duplicar a produção de alimentos com a implantação de um novo projeto industrial. “Vamos investir R$ 200 milhões nesta nova fábrica e será um grande salto na nossa economia”, diz. Pelo menos 23% da safra 2011 já está comercializada. E para ele, tudo isso ainda é pouco. “Vamos que vamos”. O entusiasmo nos investimentos ainda inclui o setor de armazenagem, um problema nacional. “A Coamo tem capacidade para armazenar 38 milhões de toneladas, ampliaremos esta capacidade em 500 mil toneladas. Não vamos ficar aqui de braços cruzados esperando o governo”, garante o empreendedor, que na política é bem imparcial. “Claro que sempre brigamos pelos interesses do agronegócio e é preciso melhorar muito a logística dos transportes de produtos agrícolas, mas não dá para nos acomodar e jogar a culpa nos governos”. Toda a produção da Coamo, que vem de produtores paranaenses e sul-matogrossenses, é escoada através de dois portos, o de Paranaguá, no Paraná, e o São Francisco, em Santa Catarina. “Felizmente, a situação está melhorando, mas já deveria ser bem melhor”.

“Um dos principais destaques da gestão de Galassini foi sempre manter o foco nos preceitos do cooperativismo e a sua grande preocupação em capitalizar a cooperativa. Isso permitiu que a Coamo não tivesse sobressaltos ou crises financeiras”, explica João Paulo Koslovski, presidente da Organização das Cooperativas do Estado do Paraná. “Esta foi a chave de sua brilhante administração”, reforça. O produtor rural Gabriel Rogério Jort concorda. “Eu posso dizer que os produtores rurais daqui são privilegiados por terem um empreendedor à frente dos negócios. Não sentimos o peso das crises financeiras no bolso, ao contrário do que ocorreu com vários outros setores do agronegócio porque o Galassini estava sempre de olhos bem atentos ao mercado. Veja só, hoje eu sou até exportador de soja”, comemora o produtor. “Não, não é à toa que este homem se destacou”.



Dinheiro Rural - Janeiro/2011

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