segunda-feira, 4 de abril de 2011

O Red Angus quer morder o Mc Donalds

Conheça o audacioso plano de Eloy Tuffi, pecuarista que planeja duelar com as redes de fast food usando como escudo um hamburguer 100% Red Angus

Viviane Taguchi, de Espírito Santo do Pinhal (SP)

Ele é um empresário cheio de manias e a principal delas é fazer bons negócios sem medo de caras feias. Há 33 anos, Eloy Tuffi resolveu abrir uma escolinha de computação e a transformou na maior rede de franquias de escolas de tecnologia de informação do Brasil, a MicroCamp, que fatura anualmente R$ 100 milhões. Há 10 anos, Tuffi apostou no agronegócio. Comprou e transformou uma fazenda abandonada, em Espírito Santo do Pinhal, interior de São Paulo, no berço nacional da raça Red Angus, a Fazenda MC. Juntou um rebanho premiadíssimo, investiu em reprodução assistida e genética de vacas de elite, registrou as marcas Angus e Red Angus para exploração comercial em seu nome, e em 2007, partiu para o ramo da gastronomia, com o primeiro restaurante brasileiro especializado em carnes nobres deste boi, o Red Angus Beef, na capital paulista. Agora, Eloy Tuffi quer encarar outro grande desafio: duelar com as redes de fast food Mc Donalds e Burguer King e abrir espaço neste mercado com um hamburguer que ele chama de genuinamente original. “É carne pura, só isso”. Com o investimento inicial de R$ 3 milhões, quantia que ele próprio considera baixa para um objetivo tão ousado, o seu plano é estruturar uma rede de franquias para hambúrgueres, o Red Angus Burguer, e posteriormente, ser fornecedor de carne para a marca, alavancando o nome e o mercado da raça no Brasil.
“Pode apostar que em 2011 os consumidores brasileiros vão conhecer o verdadeiro hamburguer. Um hamburguer feito apenas com carne, sem água e sem soja”, avisa Eloy Tuffi, apreciador assumido de carnes. “Eu já experimentei todo tipo de hamburguer que tem por aí e garanto que não existe nenhum feito puramente de carne. Tem uma rede aí que usa até um pozinho químico pro hamburguer ficar mais saboroso”, diz ele. Especialista em “testar” a qualidade dos produtos que estão no mercado, Tuffi recomenda: “Coloque um hamburguer comprado no Brasil e um hamburguer comprado nos Estados Unidos em duas churrasqueiras diferentes. O brasileiro vai soltar tanta água que vai apagar o fogo. O americano vai ficar assadinho, gordinho”, compara. O empresário acredita que enfrentar o Mc Donalds e o Burguer King, que chegou ao Brasil pelas mãos do também criador de Red Angus Luis Eduardo Batalha, não será tão difícil quanto parece. “Eu quero conquistar o consumidor pelo paladar. Ninguém é bobo de querer continuar comendo hamburguer misto se pode comer um original”. O principal objetivo de Tuffi é buscar parceiros, exatamente como ele fez com a MicroCamp. Embora enxergue o negócio de forma tão simplificada, ele não revela quais são suas expectativas, nem de faturamento e nem de números de franquias que pode vender em um ano. “Primeiro, vamos trabalhar o hábito alimentar dos consumidores, depois pensamos em números”.
O sucesso comercial que o hamburguer de carne de Red Angus fez fora do Brasil sustenta a tese otimista de Tuffi. Em 2002, o Burguer King lançou nos Estados Unidos um hamburguer de 300 gramas feito de carne de Angus. Hoje, a rede estendeu o lanche para a Inglaterra, Canadá, Espanha e Itália e é um dos campões de vendas. No ano passado, o Mc Donalds também entrou neste mercado e lançou, em todas as lanchonetes da rede nos Estados Unidos, o seu McAngus, que também compõe o cardápio das lanchonetes instaladas no Canadá, Nova Zelândia, Austrália e Europa. “É uma carne diferenciada, mais macia devido à gordura entremeada por suas fibras musculares, o que lhe confere um sabor peculiar e único”, explica o executivo do Burguer King no Brasil, Luis Eduardo Batalha. O próprio, com um capital de R$ 20 milhões, enfrentou uma verdadeira batalha quando decidiu entrar neste segmento, em 2004. “Eu queria acabar com a ditadura do hamburguer no Brasil e declarei a guerra”. O Mc Donalds tem interesse em incluir em seu cardápio o McAngus a partir de 2011. “Eles nos procuraram e já adiantaram que vão incluir o hamburguer de Angus no cardápio nos próximos anos”, afirma Juliana Brunelli, gerente da Associação Brasileira dos Criadores de Angus, mantenedora do Programa Carne Angus. “Eles também acreditam que o consumidor brasileiro já está pronto para um produto de valor agregado”.
O Brasil abate, em média, cerca de 12 mil animais da raça quando estes atingem o peso médio de 550 quilos. “Hoje, o mercado absorve todas as carnes nobres de Angus. É uma carne de valor agregado e o consumidor provou que está disposto a pagar um pouco mais caro por um bom produto”, analisa Brunelli. “Infelizmente, as partes dianteiras do Red Angus estão indo para o mercado como carnes comuns e perdem o seu valor. Com a possibilidade de criarmos uma indústria de hambúrgueres nacional, estas partes poderão ser mais bem aproveitadas”. Para Tuffi, a hamburgueria só irá incentivar o setor. “Com o mercado de hamburguer em crescimento, a raça Red Angus também crescerá e não vai faltar fornecedor”. Atualmente, Tuffi abate por mês cerca de 1,5 mil cabeças para abastecer seus dois restaurantes. “Pego metade e o resto, acabo deixando no frigorífico. É uma judiação, mas eu já vou avisando: Eloy Tuffi e o Angus Burguer chegarão rapidinho”.

Dinheiro Rural - Novembro de 2010

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