Indianos conseguem obter uma batata geneticamente modificada com teores mais elevados de proteínas e produtividade recorde
Viviane Taguchi
A biotecnologia aplicada ao desenvolvimento de produtos agrícolas mais ricos em teores nutricionais e mais rentáveis para os produtores rurais agora mira seus holofotes para a Índia. Em outubro, cientistas do Central Potato Research Institute, órgão ligado ao Indian Council of Agriculture Research, localizado em Shimla, Himachal Pradesh, apresentaram ao mundo um produto inédito, cujos resultados são perseguidos com afinco há sete anos: a super batata. Trata-se do desenvolvimento de uma batata geneticamente modificada com o genoma do amaranto, um grão tropical com características semelhantes a uma mistura de arroz e feijão e teores protéicos acima do convencional. “Não se trata de um produto de tamanho gigantesco ou formas anormais, mas sim de um tubérculo cujas propriedades e produtividade vão além dos parâmetros dos cultivos convencionais”, avisa Subra Chakraborty, pesquisadora que conduziu os estudos. Subra destaca, além dos resultados numéricos e percentuais do estudo, a sua importância como alternativa para o combate à fome em regiões específicas da Índia e China.
Testes realizados com a super batata apontaram que o produto geneticamente modificado contém 60% a mais de proteínas por grama de batata quando comparado a uma batata tradicional. Para se ter uma ideia do que isso representa, uma unidade convencional de 150 gramas conteria três gramas de proteínas enquanto na batata geneticamente modificada, seriam 4,8 gramas. Isso representa 10% do que é recomendado para o consumo humano diário, segundo a Organização Mundial de Saúde, OMC. Mas Subra diz que os benefícios do produto também podem trazer ganhos diretos aos produtores rurais. “Os testes em campo mostraram que a produtividade rural teve um aumento de 15% a 25% a mais de batatas por hectare”, diz ela. Em Vargem Grande do Sul, município paulista responsável por 90% da safra de batatas nacionais, a produtividade gira em torno de 36 toneladas por hectare. Para se chegar a este índice, os produtores precisam importar 2,7 milhões de toneladas de sementes convencionais ao ano, segundo a Associação Brasileira da Batata.
A super batata indiana ainda vai demorar para chegar ao mercado. Testes de biossegurança estão sendo realizados há cinco anos, em laboratórios e em campo, e a planta não apresentou indícios de inviabilidade, como por exemplo, potencial alergênico, mas a comercialização requer padronização, o que demanda tempo. “A comercialização de qualquer produto elaborado a partir da biotecnologia e da bionanotecnologia obedecem a regras padronizadas internacionalmente”, destaca o pesquisador Luciano Paulino Silva, da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia. No Brasil, a Embrapa Clima Temperado lançou variedades diferentes de batata destinadas ao mercado de mesa, mas são espécies melhoradas e não geneticamente modificadas. “São variedades resistentes às piores doenças da cultura, com produtividade melhorada”, explica o pesquisador Arione da Silva Pereira. “Mas a produtividade da batata indiana é surpreendente”, finaliza.
Dinheiro Rural - novembro de 2010
segunda-feira, 4 de abril de 2011
Falei...
Um mercado nas alturas
A aviação agrícola cresce 8% ao ano na esteira da expansão do setor sucroenergético e a fruticultura. Saiba porque você ainda vai se render a ela
Viviane Taguchi
De um ataque de gafanhotos às lavouras de Pelotas, no Rio Grande do Sul, e uma ideia improvisada, copiada dos norte-americanos, para combate-los, surgiu a aviação agrícola brasileira, na década de 40. Sessenta anos se passaram e este segmento conquistou uma taxa de crescimento variável de 5% a 8% ao ano, com um faturamento de R$ 600 milhões registrados em 2009, 277 empresas autorizadas para a atividade pela Agência Nacional de Aviação Civil, Anac, e cerca de 1500 aviões apropriados. Seriam bons números se não fosse o fato de apenas 25% das lavouras brasileiras serem atualmente pulverizadas por aeronaves quando a demanda é de 60%. De acordo com o Sindicato Nacional de Empresas de Aviação Agrícola, Sindag, estes percentuais levam em consideração os cultivos tradicionais, milho, soja e trigo, que absorvem 80% da atual demanda da aviação agrícola, a abertura de novas áreas agricultáveis nas regiões centro-oeste e nordeste, e a expansão das lavouras de cana-de-açúcar, laranja, café e reflorestamento. “Para atender o crescimento destas lavouras que se expandem no interior do Brasil, seriam necessárias 10 mil aeronaves agrícolas em atividade”, avalia o presidente do Sindag, Julio Kämpf. “O setor vai acompanhar gradativamente a expansão das lavouras de fruticultura, que movimentam 20% da agricultura, novas áreas que se abrem em Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Oeste baiano, e poderá ampliar significativamente sua atuação com a aprovação do novo Código Florestal”.
Hábitos culturais do produtor rural brasileiro também são apontados como um gargalo para um crescimento maior e mais rápido do setor. “Por questões culturais, o empresário rural tem o hábito de investir em máquinas terrestres para pulverizações e ele é incentivado a compra-las pelo sistema financeiro, que oferece crédito, e pelas empresas fabricantes, que investem em marketing”, diz Kämpf, que acredita que dentro de alguns anos, vai ser impossível o produtor não lançar mão do serviço aeroagrícola. “A mudança de perfil do agricultor vai faze-lo enxergar o custo-benefício da aviação agrícola em detrimento da compra de equipamentos terrestres”. Ainda hoje, as empresas de aviação agrícola concentram-se no Rio Grande do Sul, seguido pelos Estados de Mato Grosso e Goiás.
A Embraer é uma das sete empresas do mundo que fabrica aeronaves agrícolas. Nos anos 70, lançou o Ipanema, através da subsidiária Neiva, instalada em Botucatu (SP), e desde então, comercializou 1100 aeronaves no mercado interno e externo. Em 2005 lançou o Ipanema-etanol e deste período até outubro deste ano, vendeu 102 unidades. “A estimativa para 2010 é comercializar 40 unidades do Ipanema 100% etanol, o que representa 15% de crescimento em relação ao ano passado”, relata Almir Borges, diretor industrial da Neiva/Embraer. Estes números, segundo Borges, tendem a crescer ano a ano. “O agronegócio cresce e consequentemente a aviação agrícola vai dar um salto significativo nos próximos anos”.
Uma aeronave nova dessas custa R$ 654 mil, enquanto a sua versão movida à gasolina de avião sai por R$ 644 mil, investimento que se paga em um ano e meio de atividade. “Uma aeronave agrícola fatura a média de R$ 540 mil ao ano”, diz Kämpf. “O custo benefício se dá pela vida útil do equipamento e a manutenção, que é de responsabilidade da empresa terceirizada, e não do produtor rural”, alega Borges. Segundo ele, 95% da frota total de Ipanemas comercializados ainda estão em atividade na aviação. A vida útil de uma aeronave é de 30 anos enquanto a de uma máquina agrícola, de dez anos.
Dinheiro Rural - Novembro de 2010
Viviane Taguchi
De um ataque de gafanhotos às lavouras de Pelotas, no Rio Grande do Sul, e uma ideia improvisada, copiada dos norte-americanos, para combate-los, surgiu a aviação agrícola brasileira, na década de 40. Sessenta anos se passaram e este segmento conquistou uma taxa de crescimento variável de 5% a 8% ao ano, com um faturamento de R$ 600 milhões registrados em 2009, 277 empresas autorizadas para a atividade pela Agência Nacional de Aviação Civil, Anac, e cerca de 1500 aviões apropriados. Seriam bons números se não fosse o fato de apenas 25% das lavouras brasileiras serem atualmente pulverizadas por aeronaves quando a demanda é de 60%. De acordo com o Sindicato Nacional de Empresas de Aviação Agrícola, Sindag, estes percentuais levam em consideração os cultivos tradicionais, milho, soja e trigo, que absorvem 80% da atual demanda da aviação agrícola, a abertura de novas áreas agricultáveis nas regiões centro-oeste e nordeste, e a expansão das lavouras de cana-de-açúcar, laranja, café e reflorestamento. “Para atender o crescimento destas lavouras que se expandem no interior do Brasil, seriam necessárias 10 mil aeronaves agrícolas em atividade”, avalia o presidente do Sindag, Julio Kämpf. “O setor vai acompanhar gradativamente a expansão das lavouras de fruticultura, que movimentam 20% da agricultura, novas áreas que se abrem em Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Oeste baiano, e poderá ampliar significativamente sua atuação com a aprovação do novo Código Florestal”.
Hábitos culturais do produtor rural brasileiro também são apontados como um gargalo para um crescimento maior e mais rápido do setor. “Por questões culturais, o empresário rural tem o hábito de investir em máquinas terrestres para pulverizações e ele é incentivado a compra-las pelo sistema financeiro, que oferece crédito, e pelas empresas fabricantes, que investem em marketing”, diz Kämpf, que acredita que dentro de alguns anos, vai ser impossível o produtor não lançar mão do serviço aeroagrícola. “A mudança de perfil do agricultor vai faze-lo enxergar o custo-benefício da aviação agrícola em detrimento da compra de equipamentos terrestres”. Ainda hoje, as empresas de aviação agrícola concentram-se no Rio Grande do Sul, seguido pelos Estados de Mato Grosso e Goiás.
A Embraer é uma das sete empresas do mundo que fabrica aeronaves agrícolas. Nos anos 70, lançou o Ipanema, através da subsidiária Neiva, instalada em Botucatu (SP), e desde então, comercializou 1100 aeronaves no mercado interno e externo. Em 2005 lançou o Ipanema-etanol e deste período até outubro deste ano, vendeu 102 unidades. “A estimativa para 2010 é comercializar 40 unidades do Ipanema 100% etanol, o que representa 15% de crescimento em relação ao ano passado”, relata Almir Borges, diretor industrial da Neiva/Embraer. Estes números, segundo Borges, tendem a crescer ano a ano. “O agronegócio cresce e consequentemente a aviação agrícola vai dar um salto significativo nos próximos anos”.
Uma aeronave nova dessas custa R$ 654 mil, enquanto a sua versão movida à gasolina de avião sai por R$ 644 mil, investimento que se paga em um ano e meio de atividade. “Uma aeronave agrícola fatura a média de R$ 540 mil ao ano”, diz Kämpf. “O custo benefício se dá pela vida útil do equipamento e a manutenção, que é de responsabilidade da empresa terceirizada, e não do produtor rural”, alega Borges. Segundo ele, 95% da frota total de Ipanemas comercializados ainda estão em atividade na aviação. A vida útil de uma aeronave é de 30 anos enquanto a de uma máquina agrícola, de dez anos.
Dinheiro Rural - Novembro de 2010
Comer samambaia

Foi o maior chá de cadeira que levei depois das pautas em Araçatuba (quando o Crispim me mandava para as pautas uma semana antes da data certa). Na Fazenda do Eloy Tuffi, ficamos algumas horas nos distraindo com a grandeza da fazenda, da casa cheia de rococós dourados e da incrível casa de hospedes do Tuffi. Mas ele estava demorando tanto para chegar (e a gente sem almoçar) que o fotógrafo Julio Vilela tava querendo comer flor do viveiro do homem. Íamos sair da fazenda, ir até a cidade para almoçar, mas a nossa cara de fome devia ser tão grande que mandaram servir um almoço lá: hummmm, bife de red angus. Virei fã desse bife, mas me senti mal, pq horas antes eu tava afagando bezerrinho no pasto e depois, eu tava comendo o irmão dele....
...Voltei pra casa falando do bife até que o Marfrig me mandou um monte de pacotes dele! Ah, aí o Leo também gostou e como ele é o chef oficial da relação, ficou fazendo obras de arte. O meu papel é cortar cebola! Te amo!
O Red Angus quer morder o Mc Donalds
Conheça o audacioso plano de Eloy Tuffi, pecuarista que planeja duelar com as redes de fast food usando como escudo um hamburguer 100% Red Angus
Viviane Taguchi, de Espírito Santo do Pinhal (SP)
Ele é um empresário cheio de manias e a principal delas é fazer bons negócios sem medo de caras feias. Há 33 anos, Eloy Tuffi resolveu abrir uma escolinha de computação e a transformou na maior rede de franquias de escolas de tecnologia de informação do Brasil, a MicroCamp, que fatura anualmente R$ 100 milhões. Há 10 anos, Tuffi apostou no agronegócio. Comprou e transformou uma fazenda abandonada, em Espírito Santo do Pinhal, interior de São Paulo, no berço nacional da raça Red Angus, a Fazenda MC. Juntou um rebanho premiadíssimo, investiu em reprodução assistida e genética de vacas de elite, registrou as marcas Angus e Red Angus para exploração comercial em seu nome, e em 2007, partiu para o ramo da gastronomia, com o primeiro restaurante brasileiro especializado em carnes nobres deste boi, o Red Angus Beef, na capital paulista. Agora, Eloy Tuffi quer encarar outro grande desafio: duelar com as redes de fast food Mc Donalds e Burguer King e abrir espaço neste mercado com um hamburguer que ele chama de genuinamente original. “É carne pura, só isso”. Com o investimento inicial de R$ 3 milhões, quantia que ele próprio considera baixa para um objetivo tão ousado, o seu plano é estruturar uma rede de franquias para hambúrgueres, o Red Angus Burguer, e posteriormente, ser fornecedor de carne para a marca, alavancando o nome e o mercado da raça no Brasil.
“Pode apostar que em 2011 os consumidores brasileiros vão conhecer o verdadeiro hamburguer. Um hamburguer feito apenas com carne, sem água e sem soja”, avisa Eloy Tuffi, apreciador assumido de carnes. “Eu já experimentei todo tipo de hamburguer que tem por aí e garanto que não existe nenhum feito puramente de carne. Tem uma rede aí que usa até um pozinho químico pro hamburguer ficar mais saboroso”, diz ele. Especialista em “testar” a qualidade dos produtos que estão no mercado, Tuffi recomenda: “Coloque um hamburguer comprado no Brasil e um hamburguer comprado nos Estados Unidos em duas churrasqueiras diferentes. O brasileiro vai soltar tanta água que vai apagar o fogo. O americano vai ficar assadinho, gordinho”, compara. O empresário acredita que enfrentar o Mc Donalds e o Burguer King, que chegou ao Brasil pelas mãos do também criador de Red Angus Luis Eduardo Batalha, não será tão difícil quanto parece. “Eu quero conquistar o consumidor pelo paladar. Ninguém é bobo de querer continuar comendo hamburguer misto se pode comer um original”. O principal objetivo de Tuffi é buscar parceiros, exatamente como ele fez com a MicroCamp. Embora enxergue o negócio de forma tão simplificada, ele não revela quais são suas expectativas, nem de faturamento e nem de números de franquias que pode vender em um ano. “Primeiro, vamos trabalhar o hábito alimentar dos consumidores, depois pensamos em números”.
O sucesso comercial que o hamburguer de carne de Red Angus fez fora do Brasil sustenta a tese otimista de Tuffi. Em 2002, o Burguer King lançou nos Estados Unidos um hamburguer de 300 gramas feito de carne de Angus. Hoje, a rede estendeu o lanche para a Inglaterra, Canadá, Espanha e Itália e é um dos campões de vendas. No ano passado, o Mc Donalds também entrou neste mercado e lançou, em todas as lanchonetes da rede nos Estados Unidos, o seu McAngus, que também compõe o cardápio das lanchonetes instaladas no Canadá, Nova Zelândia, Austrália e Europa. “É uma carne diferenciada, mais macia devido à gordura entremeada por suas fibras musculares, o que lhe confere um sabor peculiar e único”, explica o executivo do Burguer King no Brasil, Luis Eduardo Batalha. O próprio, com um capital de R$ 20 milhões, enfrentou uma verdadeira batalha quando decidiu entrar neste segmento, em 2004. “Eu queria acabar com a ditadura do hamburguer no Brasil e declarei a guerra”. O Mc Donalds tem interesse em incluir em seu cardápio o McAngus a partir de 2011. “Eles nos procuraram e já adiantaram que vão incluir o hamburguer de Angus no cardápio nos próximos anos”, afirma Juliana Brunelli, gerente da Associação Brasileira dos Criadores de Angus, mantenedora do Programa Carne Angus. “Eles também acreditam que o consumidor brasileiro já está pronto para um produto de valor agregado”.
O Brasil abate, em média, cerca de 12 mil animais da raça quando estes atingem o peso médio de 550 quilos. “Hoje, o mercado absorve todas as carnes nobres de Angus. É uma carne de valor agregado e o consumidor provou que está disposto a pagar um pouco mais caro por um bom produto”, analisa Brunelli. “Infelizmente, as partes dianteiras do Red Angus estão indo para o mercado como carnes comuns e perdem o seu valor. Com a possibilidade de criarmos uma indústria de hambúrgueres nacional, estas partes poderão ser mais bem aproveitadas”. Para Tuffi, a hamburgueria só irá incentivar o setor. “Com o mercado de hamburguer em crescimento, a raça Red Angus também crescerá e não vai faltar fornecedor”. Atualmente, Tuffi abate por mês cerca de 1,5 mil cabeças para abastecer seus dois restaurantes. “Pego metade e o resto, acabo deixando no frigorífico. É uma judiação, mas eu já vou avisando: Eloy Tuffi e o Angus Burguer chegarão rapidinho”.
Dinheiro Rural - Novembro de 2010
Viviane Taguchi, de Espírito Santo do Pinhal (SP)
Ele é um empresário cheio de manias e a principal delas é fazer bons negócios sem medo de caras feias. Há 33 anos, Eloy Tuffi resolveu abrir uma escolinha de computação e a transformou na maior rede de franquias de escolas de tecnologia de informação do Brasil, a MicroCamp, que fatura anualmente R$ 100 milhões. Há 10 anos, Tuffi apostou no agronegócio. Comprou e transformou uma fazenda abandonada, em Espírito Santo do Pinhal, interior de São Paulo, no berço nacional da raça Red Angus, a Fazenda MC. Juntou um rebanho premiadíssimo, investiu em reprodução assistida e genética de vacas de elite, registrou as marcas Angus e Red Angus para exploração comercial em seu nome, e em 2007, partiu para o ramo da gastronomia, com o primeiro restaurante brasileiro especializado em carnes nobres deste boi, o Red Angus Beef, na capital paulista. Agora, Eloy Tuffi quer encarar outro grande desafio: duelar com as redes de fast food Mc Donalds e Burguer King e abrir espaço neste mercado com um hamburguer que ele chama de genuinamente original. “É carne pura, só isso”. Com o investimento inicial de R$ 3 milhões, quantia que ele próprio considera baixa para um objetivo tão ousado, o seu plano é estruturar uma rede de franquias para hambúrgueres, o Red Angus Burguer, e posteriormente, ser fornecedor de carne para a marca, alavancando o nome e o mercado da raça no Brasil.
“Pode apostar que em 2011 os consumidores brasileiros vão conhecer o verdadeiro hamburguer. Um hamburguer feito apenas com carne, sem água e sem soja”, avisa Eloy Tuffi, apreciador assumido de carnes. “Eu já experimentei todo tipo de hamburguer que tem por aí e garanto que não existe nenhum feito puramente de carne. Tem uma rede aí que usa até um pozinho químico pro hamburguer ficar mais saboroso”, diz ele. Especialista em “testar” a qualidade dos produtos que estão no mercado, Tuffi recomenda: “Coloque um hamburguer comprado no Brasil e um hamburguer comprado nos Estados Unidos em duas churrasqueiras diferentes. O brasileiro vai soltar tanta água que vai apagar o fogo. O americano vai ficar assadinho, gordinho”, compara. O empresário acredita que enfrentar o Mc Donalds e o Burguer King, que chegou ao Brasil pelas mãos do também criador de Red Angus Luis Eduardo Batalha, não será tão difícil quanto parece. “Eu quero conquistar o consumidor pelo paladar. Ninguém é bobo de querer continuar comendo hamburguer misto se pode comer um original”. O principal objetivo de Tuffi é buscar parceiros, exatamente como ele fez com a MicroCamp. Embora enxergue o negócio de forma tão simplificada, ele não revela quais são suas expectativas, nem de faturamento e nem de números de franquias que pode vender em um ano. “Primeiro, vamos trabalhar o hábito alimentar dos consumidores, depois pensamos em números”.
O sucesso comercial que o hamburguer de carne de Red Angus fez fora do Brasil sustenta a tese otimista de Tuffi. Em 2002, o Burguer King lançou nos Estados Unidos um hamburguer de 300 gramas feito de carne de Angus. Hoje, a rede estendeu o lanche para a Inglaterra, Canadá, Espanha e Itália e é um dos campões de vendas. No ano passado, o Mc Donalds também entrou neste mercado e lançou, em todas as lanchonetes da rede nos Estados Unidos, o seu McAngus, que também compõe o cardápio das lanchonetes instaladas no Canadá, Nova Zelândia, Austrália e Europa. “É uma carne diferenciada, mais macia devido à gordura entremeada por suas fibras musculares, o que lhe confere um sabor peculiar e único”, explica o executivo do Burguer King no Brasil, Luis Eduardo Batalha. O próprio, com um capital de R$ 20 milhões, enfrentou uma verdadeira batalha quando decidiu entrar neste segmento, em 2004. “Eu queria acabar com a ditadura do hamburguer no Brasil e declarei a guerra”. O Mc Donalds tem interesse em incluir em seu cardápio o McAngus a partir de 2011. “Eles nos procuraram e já adiantaram que vão incluir o hamburguer de Angus no cardápio nos próximos anos”, afirma Juliana Brunelli, gerente da Associação Brasileira dos Criadores de Angus, mantenedora do Programa Carne Angus. “Eles também acreditam que o consumidor brasileiro já está pronto para um produto de valor agregado”.
O Brasil abate, em média, cerca de 12 mil animais da raça quando estes atingem o peso médio de 550 quilos. “Hoje, o mercado absorve todas as carnes nobres de Angus. É uma carne de valor agregado e o consumidor provou que está disposto a pagar um pouco mais caro por um bom produto”, analisa Brunelli. “Infelizmente, as partes dianteiras do Red Angus estão indo para o mercado como carnes comuns e perdem o seu valor. Com a possibilidade de criarmos uma indústria de hambúrgueres nacional, estas partes poderão ser mais bem aproveitadas”. Para Tuffi, a hamburgueria só irá incentivar o setor. “Com o mercado de hamburguer em crescimento, a raça Red Angus também crescerá e não vai faltar fornecedor”. Atualmente, Tuffi abate por mês cerca de 1,5 mil cabeças para abastecer seus dois restaurantes. “Pego metade e o resto, acabo deixando no frigorífico. É uma judiação, mas eu já vou avisando: Eloy Tuffi e o Angus Burguer chegarão rapidinho”.
Dinheiro Rural - Novembro de 2010
Gente bacana
Em setembro de 2010, fomos lá mais uma vez pra Bahia a convite da Abac, para um congresso. Quase morri de comer acarajé, ô delícia. Mas os dia que se seguiram foram de muita estrada, carona e situações... A Michelle é uma menina muito legal, bonita, rica e inteligente. Mas ela é, principalmente, muito simples e humilde, como os que são realmente bons e bem educados são. Na fazenda do avô dela, o Elsimar Coutinho, comemos a melhor comida do mundo, da Maria. Arroz, feijão, bife e ovo frito. Depois, junto com ela, ficamos perdidos nas rodovias da Bahia e pegamos outra carona no meio da estrada, para um vilarejo chamado Bravo (Terra de cabra Macho). Chegamos à noite no semi-árido, na fazenda do Ricardo Falcão. Ele me hospedou no quarto da mãe dele. Tinha um penico de porcelana e uma banheira de 1808, acho que a vó dele tomou banho nela quando nasceu. Fiquei tirando fotos do celular dos detalhes do quarto da mulher, que falta de educação, mas foi bem legal. Só antes de eu ir dormir que ele me contou que as cinzas do pai dele tinham sido jogadas no jardim de inverno ao lado do quarto. E tinha uma foto,daquelas pintadas à mão, do homem, pendurada na parede. Eu não dormi naquele dia.
Na outra noite, eu dormi de cansaço, no mesmo quarto. De manha, voltamos pra civilização, mas antes o Falcão resolveu nos mostrar as cidadezinhas da redondeza. Fui em um antigo quilombo, que hoje é uma cidade, mas me olharam muito feio por lá, só porque eu sou branca (ou amarela). Realmente, sentir o preconceito dói!
Na outra noite, eu dormi de cansaço, no mesmo quarto. De manha, voltamos pra civilização, mas antes o Falcão resolveu nos mostrar as cidadezinhas da redondeza. Fui em um antigo quilombo, que hoje é uma cidade, mas me olharam muito feio por lá, só porque eu sou branca (ou amarela). Realmente, sentir o preconceito dói!
De Wall Street para o Recôncavo
De olho no mercado de gado de elite, economista de 27 anos abandona o frenesi do mercado financeiro de Nova York para criar uma marca genética no coração da Bahia
Viviane Taguchi, de São João da Mata Velha (BA)
Um rebanho composto por 1100 animais nelore puro de origem pasta vistoso nos campos da Fazenda Nossa Senhora da Paz, no município de São João da Mata Velha, região do recôncavo baiano, distante aproximadamente 100 quilômetros da capital Salvador. Apoiada numa cerca branca que circunda a propriedade de 1500 hectares e termina engolida pela Mata Atlântica preservada, Michelle Coutinho Dorea observa cada detalhe da boiada que leva no lombo a marca de ferro de um coração, símbolo do amor e da vida. Pega o seu smartphone, ajeita seus longos cabelos loiros, e liga para o celular do avô, o renomado médico e cientista genético Elsimar Metzker Coutinho, e metralha mil perguntas. Ele responde uma a uma com a calma de um típico avô baiano e ao final da conversa, abençoa a neta. Ainda curiosa, dispara mais perguntas para os peões da fazenda, outras vezes ao médico veterinário ou ao biólogo Bira Ramos. Michelle quer aprender tudo, saber tudo sobre o gado, a fazenda e o dia-a-dia da lida no campo, como diziam os mais antigos. “Desde que cheguei aqui, não paro de fazer perguntas”, diz ela, resumindo parte de sua própria história. A menina que nasceu em Londres, estudou em colégios europeus, e formou-se economista nos Estados Unidos, largou uma carreira de sucesso no mercado financeiro de Nova York para começar, aos 27 anos, uma nova empreitada, agora focada no agronegócio: investir em melhoramento genético do rebanho bovino da região nordeste, com o BahiaEmbrio, o único laboratório especializado em técnicas de fertilização in vitro da região, e que leva as marcas Vitrogen e Genética Coutinho como cartão de visitas. De volta à Bahia, terra natal do avô e onde ela passava longas férias de verão, Michelle está apaixonada pela pecuária, os avanços da tecnologia genética e, principalmente, pela natureza. “Cada dia aqui descubro que a minha missão é ainda mais desafiadora do que aquelas que eu tinha em Wall Street”.
A mulher de negócios de Nova York abandonou o tailleur e os finíssimos saltos de grife para usar calça jeans surrada e botas. Sem frescuras, Michelle toca o gado e afaga os bezerrinhos recém-nascidos com a habilidade de quem sempre fez isso na vida. “Eu sempre gostei das coisas da fazenda, passava temporadas aqui e praticava hipismo, mas nunca me envolvi diretamente com o gado e os negócios. Estou aprendendo muito sobre pecuária e quero mudar o perfil do rebanho baiano, resgatar a importância que os rebanhos do nordeste têm para a economia brasileira e, sobretudo, democratizar a fiv (Fertilização In Vitro)”, diz ela, convicta de seus objetivos. “Sei que darei passos lentos, mas vou conquistar este mercado”. A ideia de investir em um laboratório de fertilização in vitro na Bahia partiu do avô, Elsimar Coutinho, acostumado a causar polêmicas do cenário médico, com teses revolucionárias sobre reprodução humana. Isso foi em janeiro de 2008. “Muita gente estranha o meu interesse em dedicar parte do meu tempo à criação de gado, mas eu nasci em fazenda, gosto disso, essa é a minha origem”, revela Coutinho, baiano de Pojuca. “Com a experiência que adquiri na área de reprodução humana, eu não poderia deixar de aplicar o meu conhecimento na melhoria genética do rebanho bovino, o que já estamos fazendo há alguns anos aqui na fazenda Nossa Senhora da Paz”. Aos 80 anos, e atuando em consultórios médicos em seis cidades distintas, Elsimar Coutinho quase não tinha tempo para dedicar-se aos investimentos rurais. “Conversando com o meu avô, percebi que havia aqui uma ideia brilhante de um negócio que poderia dar muito certo. É um desafio e tanto, mas abracei a causa sem medo”, conta Michelle, que mudou-se de mala e cuia para o Brasil nove meses depois da inauguração do BahiaEmbrio. “Mas a partir do momento que eu assumi, resolvi parar tudo e reestruturar o negócio”.
Pode-se dizer que nova empreendedora rural da Bahia praticamente fechou as portas do BahiaEmbrio em janeiro deste ano para “por a casa em ordem”. Em seis meses, investiu R$ 1 milhão no laboratório, foi de norte a sul do país em busca de novos parceiros e clientes e conseguiu o que queria: retomar as atividades do laboratório com capacidade para produzir dois mil embriões ao mês, o que corresponde a 30% da capacidade total do BahiaEmbrio. Atualmente, a produção média do laboratório é de 100 embriões ao mês, que resulta na média de 35 prenhezes confirmadas. “Essa é a média, mas o mercado está se expandindo rapidamente”, diz ela. Para o biólogo Bira Ramos, um dos responsáveis técnicos pelo laboratório, o trabalho de Michelle Coutinho Dorea já tem despertado a atenção dos pecuaristas locais. “Os pecuaristas da região estão chegando. É claro que ainda há aqueles que tem certo receio sobre o trabalho que está sendo desenvolvido aqui, principalmente por ser uma novidade, mas o interesse está sendo bem maior que o esperado”, afirma o biólogo. A média de preço trabalhado é de R$ 600 por prenhez garantida, mas o custo total oscila conforme o serviço oferecido, seja o aluguel do ventre da receptora, transporte ou hospedagem. Michelle aposta na fixação da marca e na disseminação da cultura de seleção genética no nordeste antes de vislumbrar lucros. “É um investimento de longo prazo. Neste momento, o desafio de fazer o negócio dar certo é mais importante que o lucro do negócio em si”. Ainda assim, pelas projeções da empresária, o faturamento do BahiaEmbrio deve ser de R$ 800 mil em seu primeiro ano, com expectativa de crescimento de 50% para o segundo ano de atuação na empresa.
O BahiaEmbrio é o único laboratório brasileiro que oferece infraestrutura para todo o ciclo de produção, com 600 vacas receptoras próprias, mestiças de raças girolando, red angus, nelore, simental e pardo suíço, e estrutura para hospedagem para doadoras e receptoras de terceiros, além de maternidade e baias próprias para abrigar os animais inseminados, e isso faz do investimento um modelo de negócios inédito, capaz de moldar-se à demanda do cliente, e representa um avanço para o segmento. “Temos condições de oferecer o pacote completo do ciclo de reprodução, que vai desde a aspiração do óvulo até a entrega do animal, ou atender algumas etapas do processo, conforme as necessidades e condições do pecuarista”, explica a empresária. “Com isso, ela conseguiu desenvolver um modelo de negócios inédito na pecuária, capaz de atrair investidores que não necessariamente sejam criadores de gado”, analisa André Dayan, diretor presidente do Grupo Vitrogen, de Cravinhos (SP). “Com esta infraestrutura, o investidor não tem nem a necessidade de ver o animal se ele não quiser. A Michelle faz todo o trabalho, garante a prenhez e já entrega o animal para um outro comprador”. A garantia da prenhez é outro fator que diferencia o negócio criado por Michelle Coutinho. Acostumada a assumir riscos na bolsa de valores, também assume na seleção genética os resultados garantidos. “O risco é meu, não tem essa do cliente pagar e não ter o que quer”, diz ela. A viabilidade da aplicação comercial de fiv remete ao valor comercial do bezerro no momento da desmama. “Se este valor for acima de R$ 3 mil, a fiv indica que será geradora de renda, caso contrário, o investimento pode não ser compensador”, explica Dayan.
A preocupação que Michelle teve em oferecer um bom plantel de receptoras foi crucial para viabilizar o negócio, segundo Dayan. “Era um enorme gargalo para os selecionadores baianos”. O próprio Elsimar Coutinho revela que quando decidiu investir em melhoramento genético do seu rebanho nelore P.O vivenciou a dificuldade dos colegas. “A Bahia não contava com uma central de receptoras apropriada e para não comprometer os resultados, a solução era transferir os embriões em São Paulo ou em Minas Gerais. Depois, essas receptoras eram transportadas para a Bahia, aumentando todos os custos”, conta o médico. “Criar a central de receptoras foi tão importante quando investir no laboratório. Além de aumentar as chances de bons resultados, simplifica a logística envolvida”. O pecuarista baiano Joãozito Andrade, de 90 anos, e responsável pela formação do plantel nelore no nordeste explica que uma boa receptora também é fundamental para a compensar o investimento em fiv. “Uma boa receptora é aquela vaca que tem habilidade materna, estrutura corporal adequada e recebe todos os cuidados sanitários adequados para gerar o embrião”, ensina o pioneiro, que foi um dos primeiros compradores dos descendentes de Kavardi, reprodutor nelore trazido da Índia por Torres Homem Rodrigues da Cunha. “Toda a tecnologia e as possibilidades da fiv são muito importantes para a pecuária, mas os cuidados que temos que ter após a implantação dos embriões também são fundamentais para completar o ciclo de forma positiva. Tem que cuidar da mãe de aluguel com tanto zelo quanto todo o processo feito no laboratório e isso, o Elsimar Coutinho e a Michelle sabem fazer muito bem. O que eles trouxeram para a Bahia foi avanço, evolução”.
O Brasil hoje detém 50% dos embriões bovinos do mundo, segundo Dayan, que mantém centrais de seleção genética em sete países. As técnicas de fiv, até pouco tempo, eram desconhecidas e de alto custo. “Houve uma democratização da fiv em todo o mundo, mas principalmente no Brasil. Hoje, estamos na vanguarda deste segmento, sobretudo em São Paulo e Minas Gerais. No entanto, iniciativas como a de Elsimar Coutinho agora colocarão a Bahia, que tem regiões importantíssimas para a pecuária como o oeste, e os demais Estados também no mesmo patamar tecnológico e isso agrega valor a toda a cadeia como um todo”, alega Dayan. “O Elsimar e sua neta Michelle transformaram Salvador no pólo nordestino de seleção genética”. A democratização da fiv também passa pelos valores cobrados e pelas raças. Até alguns anos, o preço médio de uma prenhez oscilava entre US$ 500 e US$ 600 e hoje, em média, paga-se R$ 600/prenhez. “Esta tecnologia se popularizou de maneira importante para a pecuária nacional. Hoje temos criadores de girolando, brangus, ou outros cruzamentos para produção de carne, leite e até para a produção de vacas receptoras em grande escala”. Segundo ele, a evolução da seleção genética em bovinos no Brasil avança tão rápido que em pouco tempo, será indispensável. “Quando nos dermos conta, a fiv vai ser igual telefone celular. Todo mundo terá”.
Info 1
A cegonha no curral
Técnicas laboratoriais podem render até três prenhezes (*as médias sofrem variação de animal para animal e raças). Confira a média para raças zebuínas:
Aspiração na vaca doadora
15 a 20 óvulos
Fertilização in Vitro(fiv)
5 a 7 embriões
Implantação nas vacas receptoras
2 a 3 prenhezes
Info 2 (linha do tempo)
A evolução da fiv
O sucesso de técnicas de fiv em seres humanos antecede a fiv em bovinos
1790 – Cientistas realizam a fecundação de óvulos de estrelas do mar
1820/1890 – As experiências começam ser realizadas com mamíferos, utilizando coelhos
1940 – Descobertas da química abrem a possibilidade de novos meios de cultura e as experiências começam a ser feitas com camundongos
1959 – Nasce o primeiro coelho fiv
1968 – Experiências de sucesso geram o nascimento do 1º camundongo fiv
1970 – Nasce o primeiro rato fiv
1971 – Nascem as primeiras ovelhas fiv
1974 – Nascem os primeiros porcos fiv
1978 – Nasce o primeiro ser humano oriundo de técnicas de fiv
1982 – Pesquisadores finalmente conseguem ter êxito nas pesquisas com bovinos, com o nascimento de um bezerrinho. Foram utilizadas 22 vacas doadoras, sete receptoras, sêmen a fresco e congelado, que geraram 177 oócitos, e 52% deles foram fertilziados. Apenas uma prenhez obteve sucesso. O bezerro nasceu com 45 quilos, nos Estados Unidos.
Info 3
O André Dayan vai enviar dados comparativos de números do Brasil e outros países que investem em fiv bovina
Matéria – Parte 2 (duas últimas páginas)
Onde há uma grande mulher......há um grande negócio
Organização e estratégia para alcançar metas são as principais qualidades destas mulheres que estão mudando a cara do agronegócio brasileiro
Viviane Taguchi
Michelle Coutinho Dorea expõe o novo perfil do agronegócio: meninas que cresceram brincando entre o gado e as lavouras, observando seus avôs, pais e irmãos a lidarem com a peonada transformaram-se em executivas do agronegócio moderno. Jovens, bem formadas e determinadas, elas criaram modelos de negócios diferenciados reestruturando patrimônios já existentes, mas fadados ao comum, e hoje faturam ou almejam lucrar milhões de reais priorizando organização e estratégias inteligentes. Com elegância, delicadeza e autoridade, elas colocaram ordem na casa e o dinheiro no caixa.
Maria Stella Damha, herdeira do Grupo Encalso, quer faturar R$ 300 milhões até 2015 com as atividades diversificadas das sete fazendas que administra há oito anos no interior de São Paulo, Minas Gerais e Goiás. Deixou de lado o mercado financeiro para tornar-se uma executiva do campo. A primeira ação foi organizar e analisar o que precisava mudar, e otimizar o uso das terras, aumentando a produtividade de cada uma das fazendas, antes voltadas apenas para a pecuária extensiva de corte. Confinou 25 mil cabeças de gado e abriu espaço para culturas de cana-de-açúcar, milho e soja, que já respondem por 50% do faturamento total. “Eu não sou apenas a filha do dono, sou uma profissional atuando em uma empresa rural”, diz ela.
Para conseguir o que queria, Maria Stella teve que convencer e ensinar os funcionários e sócios de que era preciso trabalhar como em uma multinacional. Incluiu reuniões de acionistas, planejamento estratégico, gestão financeira e metas a serem alcançadas no dia-a-dia dos peões. “Com a casa em ordem, precisávamos pensar em novas atividades que agregassem valor às terras e que trouxessem novas rentabilidades”. Maria Stella administra o negócio todo do escritório em São Paulo, mas visita as propriedades com freqüência para acompanhar de perto o negócio e cobrar resultados dos gerentes. “É preciso estar sempre de olho porque uma piscadela pode significar prejuízo”. Antenada diariamente na bolsa de valores, é ela quem dita o momento ideal para colocar os bois no mercado ou adquirir lotes para repor o plantel. “O giro é constante e dinâmico. Se bem feito, o confinamento pode ser um excelente negócio, é uma questão de feeling. Hoje, parece simples, mas tivemos muito trabalho até aprender a controlar tudo”.
Marisa Saad compartilha da mesma filosofia de Maria Stella. “É o olho do dono que engorda o negócio”. Por crer nisso, saiu dos bastidores da Rede Bandeirantes de Televisão, nos anos 80, para dar vida aos negócios rurais da família. Sozinha e tendo como princípios lições do avô, João Saad, Marisa administra 4,5 mil hectares de cultivos de grãos e pecuária e consegue faturar R$ 500 mil ao ano. E ela não está satisfeita, quer mais. “Nos últimos anos, investimos em organização, diversificação e profissionalização. Agora, quero aumentar volumes e números”, avisa a fazendeira, que aplicou neste ano R$ 1 milhão em infraestrutura, tecnologia na Fazenda Pantaleão, em Bragança Paulista, interior paulista, e na aquisição de novas áreas. “Herdei do meu pai o gosto por comprar novas terras, mas não como um hobby e sim, como oportunidade de negócios”.
Marisa prefere cuidar dos negócios diretamente no campo e por isso, concentra todas as terras nos arredores de São Paulo. “Posso visitar todas rapidamente”. Na Pantaleão, de 435 hectares, ela circula diariamente entre as lavouras de milho, soja e girassol, segmento responsável por 40% do faturamento total da fazenda, e o rebanho de gado Simental, que iniciou há 19 anos com 40 embriões. Hoje, são mais de 3500 animais selecionados que movimentam o mercado de tourinhos. “Centralizo a administração na Pantaleão, mas trabalhamos em sinergia com todas as outras propriedades da família. Os tourinhos que nascem em Bragança Paulista são encaminhados para outras fazendas para venda, cruzamentos industriais ou engorda, dependendo do mercado”, afirma. O modelo diferenciado de Marisa é a venda rápida de animais premiados. “Não mantemos os animais premiados aqui. Sua venda permite retorno rápido para o negócio e corte de custos com o manejo dos mesmos”. Com os investimentos feitos, ela garante o nascimento de bons animais sempre. “Você tem que se garantir e arriscar para chegar onde quer”.
Dinheiro Rural - Outubro de 2010
Viviane Taguchi, de São João da Mata Velha (BA)
Um rebanho composto por 1100 animais nelore puro de origem pasta vistoso nos campos da Fazenda Nossa Senhora da Paz, no município de São João da Mata Velha, região do recôncavo baiano, distante aproximadamente 100 quilômetros da capital Salvador. Apoiada numa cerca branca que circunda a propriedade de 1500 hectares e termina engolida pela Mata Atlântica preservada, Michelle Coutinho Dorea observa cada detalhe da boiada que leva no lombo a marca de ferro de um coração, símbolo do amor e da vida. Pega o seu smartphone, ajeita seus longos cabelos loiros, e liga para o celular do avô, o renomado médico e cientista genético Elsimar Metzker Coutinho, e metralha mil perguntas. Ele responde uma a uma com a calma de um típico avô baiano e ao final da conversa, abençoa a neta. Ainda curiosa, dispara mais perguntas para os peões da fazenda, outras vezes ao médico veterinário ou ao biólogo Bira Ramos. Michelle quer aprender tudo, saber tudo sobre o gado, a fazenda e o dia-a-dia da lida no campo, como diziam os mais antigos. “Desde que cheguei aqui, não paro de fazer perguntas”, diz ela, resumindo parte de sua própria história. A menina que nasceu em Londres, estudou em colégios europeus, e formou-se economista nos Estados Unidos, largou uma carreira de sucesso no mercado financeiro de Nova York para começar, aos 27 anos, uma nova empreitada, agora focada no agronegócio: investir em melhoramento genético do rebanho bovino da região nordeste, com o BahiaEmbrio, o único laboratório especializado em técnicas de fertilização in vitro da região, e que leva as marcas Vitrogen e Genética Coutinho como cartão de visitas. De volta à Bahia, terra natal do avô e onde ela passava longas férias de verão, Michelle está apaixonada pela pecuária, os avanços da tecnologia genética e, principalmente, pela natureza. “Cada dia aqui descubro que a minha missão é ainda mais desafiadora do que aquelas que eu tinha em Wall Street”.
A mulher de negócios de Nova York abandonou o tailleur e os finíssimos saltos de grife para usar calça jeans surrada e botas. Sem frescuras, Michelle toca o gado e afaga os bezerrinhos recém-nascidos com a habilidade de quem sempre fez isso na vida. “Eu sempre gostei das coisas da fazenda, passava temporadas aqui e praticava hipismo, mas nunca me envolvi diretamente com o gado e os negócios. Estou aprendendo muito sobre pecuária e quero mudar o perfil do rebanho baiano, resgatar a importância que os rebanhos do nordeste têm para a economia brasileira e, sobretudo, democratizar a fiv (Fertilização In Vitro)”, diz ela, convicta de seus objetivos. “Sei que darei passos lentos, mas vou conquistar este mercado”. A ideia de investir em um laboratório de fertilização in vitro na Bahia partiu do avô, Elsimar Coutinho, acostumado a causar polêmicas do cenário médico, com teses revolucionárias sobre reprodução humana. Isso foi em janeiro de 2008. “Muita gente estranha o meu interesse em dedicar parte do meu tempo à criação de gado, mas eu nasci em fazenda, gosto disso, essa é a minha origem”, revela Coutinho, baiano de Pojuca. “Com a experiência que adquiri na área de reprodução humana, eu não poderia deixar de aplicar o meu conhecimento na melhoria genética do rebanho bovino, o que já estamos fazendo há alguns anos aqui na fazenda Nossa Senhora da Paz”. Aos 80 anos, e atuando em consultórios médicos em seis cidades distintas, Elsimar Coutinho quase não tinha tempo para dedicar-se aos investimentos rurais. “Conversando com o meu avô, percebi que havia aqui uma ideia brilhante de um negócio que poderia dar muito certo. É um desafio e tanto, mas abracei a causa sem medo”, conta Michelle, que mudou-se de mala e cuia para o Brasil nove meses depois da inauguração do BahiaEmbrio. “Mas a partir do momento que eu assumi, resolvi parar tudo e reestruturar o negócio”.
Pode-se dizer que nova empreendedora rural da Bahia praticamente fechou as portas do BahiaEmbrio em janeiro deste ano para “por a casa em ordem”. Em seis meses, investiu R$ 1 milhão no laboratório, foi de norte a sul do país em busca de novos parceiros e clientes e conseguiu o que queria: retomar as atividades do laboratório com capacidade para produzir dois mil embriões ao mês, o que corresponde a 30% da capacidade total do BahiaEmbrio. Atualmente, a produção média do laboratório é de 100 embriões ao mês, que resulta na média de 35 prenhezes confirmadas. “Essa é a média, mas o mercado está se expandindo rapidamente”, diz ela. Para o biólogo Bira Ramos, um dos responsáveis técnicos pelo laboratório, o trabalho de Michelle Coutinho Dorea já tem despertado a atenção dos pecuaristas locais. “Os pecuaristas da região estão chegando. É claro que ainda há aqueles que tem certo receio sobre o trabalho que está sendo desenvolvido aqui, principalmente por ser uma novidade, mas o interesse está sendo bem maior que o esperado”, afirma o biólogo. A média de preço trabalhado é de R$ 600 por prenhez garantida, mas o custo total oscila conforme o serviço oferecido, seja o aluguel do ventre da receptora, transporte ou hospedagem. Michelle aposta na fixação da marca e na disseminação da cultura de seleção genética no nordeste antes de vislumbrar lucros. “É um investimento de longo prazo. Neste momento, o desafio de fazer o negócio dar certo é mais importante que o lucro do negócio em si”. Ainda assim, pelas projeções da empresária, o faturamento do BahiaEmbrio deve ser de R$ 800 mil em seu primeiro ano, com expectativa de crescimento de 50% para o segundo ano de atuação na empresa.
O BahiaEmbrio é o único laboratório brasileiro que oferece infraestrutura para todo o ciclo de produção, com 600 vacas receptoras próprias, mestiças de raças girolando, red angus, nelore, simental e pardo suíço, e estrutura para hospedagem para doadoras e receptoras de terceiros, além de maternidade e baias próprias para abrigar os animais inseminados, e isso faz do investimento um modelo de negócios inédito, capaz de moldar-se à demanda do cliente, e representa um avanço para o segmento. “Temos condições de oferecer o pacote completo do ciclo de reprodução, que vai desde a aspiração do óvulo até a entrega do animal, ou atender algumas etapas do processo, conforme as necessidades e condições do pecuarista”, explica a empresária. “Com isso, ela conseguiu desenvolver um modelo de negócios inédito na pecuária, capaz de atrair investidores que não necessariamente sejam criadores de gado”, analisa André Dayan, diretor presidente do Grupo Vitrogen, de Cravinhos (SP). “Com esta infraestrutura, o investidor não tem nem a necessidade de ver o animal se ele não quiser. A Michelle faz todo o trabalho, garante a prenhez e já entrega o animal para um outro comprador”. A garantia da prenhez é outro fator que diferencia o negócio criado por Michelle Coutinho. Acostumada a assumir riscos na bolsa de valores, também assume na seleção genética os resultados garantidos. “O risco é meu, não tem essa do cliente pagar e não ter o que quer”, diz ela. A viabilidade da aplicação comercial de fiv remete ao valor comercial do bezerro no momento da desmama. “Se este valor for acima de R$ 3 mil, a fiv indica que será geradora de renda, caso contrário, o investimento pode não ser compensador”, explica Dayan.
A preocupação que Michelle teve em oferecer um bom plantel de receptoras foi crucial para viabilizar o negócio, segundo Dayan. “Era um enorme gargalo para os selecionadores baianos”. O próprio Elsimar Coutinho revela que quando decidiu investir em melhoramento genético do seu rebanho nelore P.O vivenciou a dificuldade dos colegas. “A Bahia não contava com uma central de receptoras apropriada e para não comprometer os resultados, a solução era transferir os embriões em São Paulo ou em Minas Gerais. Depois, essas receptoras eram transportadas para a Bahia, aumentando todos os custos”, conta o médico. “Criar a central de receptoras foi tão importante quando investir no laboratório. Além de aumentar as chances de bons resultados, simplifica a logística envolvida”. O pecuarista baiano Joãozito Andrade, de 90 anos, e responsável pela formação do plantel nelore no nordeste explica que uma boa receptora também é fundamental para a compensar o investimento em fiv. “Uma boa receptora é aquela vaca que tem habilidade materna, estrutura corporal adequada e recebe todos os cuidados sanitários adequados para gerar o embrião”, ensina o pioneiro, que foi um dos primeiros compradores dos descendentes de Kavardi, reprodutor nelore trazido da Índia por Torres Homem Rodrigues da Cunha. “Toda a tecnologia e as possibilidades da fiv são muito importantes para a pecuária, mas os cuidados que temos que ter após a implantação dos embriões também são fundamentais para completar o ciclo de forma positiva. Tem que cuidar da mãe de aluguel com tanto zelo quanto todo o processo feito no laboratório e isso, o Elsimar Coutinho e a Michelle sabem fazer muito bem. O que eles trouxeram para a Bahia foi avanço, evolução”.
O Brasil hoje detém 50% dos embriões bovinos do mundo, segundo Dayan, que mantém centrais de seleção genética em sete países. As técnicas de fiv, até pouco tempo, eram desconhecidas e de alto custo. “Houve uma democratização da fiv em todo o mundo, mas principalmente no Brasil. Hoje, estamos na vanguarda deste segmento, sobretudo em São Paulo e Minas Gerais. No entanto, iniciativas como a de Elsimar Coutinho agora colocarão a Bahia, que tem regiões importantíssimas para a pecuária como o oeste, e os demais Estados também no mesmo patamar tecnológico e isso agrega valor a toda a cadeia como um todo”, alega Dayan. “O Elsimar e sua neta Michelle transformaram Salvador no pólo nordestino de seleção genética”. A democratização da fiv também passa pelos valores cobrados e pelas raças. Até alguns anos, o preço médio de uma prenhez oscilava entre US$ 500 e US$ 600 e hoje, em média, paga-se R$ 600/prenhez. “Esta tecnologia se popularizou de maneira importante para a pecuária nacional. Hoje temos criadores de girolando, brangus, ou outros cruzamentos para produção de carne, leite e até para a produção de vacas receptoras em grande escala”. Segundo ele, a evolução da seleção genética em bovinos no Brasil avança tão rápido que em pouco tempo, será indispensável. “Quando nos dermos conta, a fiv vai ser igual telefone celular. Todo mundo terá”.
Info 1
A cegonha no curral
Técnicas laboratoriais podem render até três prenhezes (*as médias sofrem variação de animal para animal e raças). Confira a média para raças zebuínas:
Aspiração na vaca doadora
15 a 20 óvulos
Fertilização in Vitro(fiv)
5 a 7 embriões
Implantação nas vacas receptoras
2 a 3 prenhezes
Info 2 (linha do tempo)
A evolução da fiv
O sucesso de técnicas de fiv em seres humanos antecede a fiv em bovinos
1790 – Cientistas realizam a fecundação de óvulos de estrelas do mar
1820/1890 – As experiências começam ser realizadas com mamíferos, utilizando coelhos
1940 – Descobertas da química abrem a possibilidade de novos meios de cultura e as experiências começam a ser feitas com camundongos
1959 – Nasce o primeiro coelho fiv
1968 – Experiências de sucesso geram o nascimento do 1º camundongo fiv
1970 – Nasce o primeiro rato fiv
1971 – Nascem as primeiras ovelhas fiv
1974 – Nascem os primeiros porcos fiv
1978 – Nasce o primeiro ser humano oriundo de técnicas de fiv
1982 – Pesquisadores finalmente conseguem ter êxito nas pesquisas com bovinos, com o nascimento de um bezerrinho. Foram utilizadas 22 vacas doadoras, sete receptoras, sêmen a fresco e congelado, que geraram 177 oócitos, e 52% deles foram fertilziados. Apenas uma prenhez obteve sucesso. O bezerro nasceu com 45 quilos, nos Estados Unidos.
Info 3
O André Dayan vai enviar dados comparativos de números do Brasil e outros países que investem em fiv bovina
Matéria – Parte 2 (duas últimas páginas)
Onde há uma grande mulher......há um grande negócio
Organização e estratégia para alcançar metas são as principais qualidades destas mulheres que estão mudando a cara do agronegócio brasileiro
Viviane Taguchi
Michelle Coutinho Dorea expõe o novo perfil do agronegócio: meninas que cresceram brincando entre o gado e as lavouras, observando seus avôs, pais e irmãos a lidarem com a peonada transformaram-se em executivas do agronegócio moderno. Jovens, bem formadas e determinadas, elas criaram modelos de negócios diferenciados reestruturando patrimônios já existentes, mas fadados ao comum, e hoje faturam ou almejam lucrar milhões de reais priorizando organização e estratégias inteligentes. Com elegância, delicadeza e autoridade, elas colocaram ordem na casa e o dinheiro no caixa.
Maria Stella Damha, herdeira do Grupo Encalso, quer faturar R$ 300 milhões até 2015 com as atividades diversificadas das sete fazendas que administra há oito anos no interior de São Paulo, Minas Gerais e Goiás. Deixou de lado o mercado financeiro para tornar-se uma executiva do campo. A primeira ação foi organizar e analisar o que precisava mudar, e otimizar o uso das terras, aumentando a produtividade de cada uma das fazendas, antes voltadas apenas para a pecuária extensiva de corte. Confinou 25 mil cabeças de gado e abriu espaço para culturas de cana-de-açúcar, milho e soja, que já respondem por 50% do faturamento total. “Eu não sou apenas a filha do dono, sou uma profissional atuando em uma empresa rural”, diz ela.
Para conseguir o que queria, Maria Stella teve que convencer e ensinar os funcionários e sócios de que era preciso trabalhar como em uma multinacional. Incluiu reuniões de acionistas, planejamento estratégico, gestão financeira e metas a serem alcançadas no dia-a-dia dos peões. “Com a casa em ordem, precisávamos pensar em novas atividades que agregassem valor às terras e que trouxessem novas rentabilidades”. Maria Stella administra o negócio todo do escritório em São Paulo, mas visita as propriedades com freqüência para acompanhar de perto o negócio e cobrar resultados dos gerentes. “É preciso estar sempre de olho porque uma piscadela pode significar prejuízo”. Antenada diariamente na bolsa de valores, é ela quem dita o momento ideal para colocar os bois no mercado ou adquirir lotes para repor o plantel. “O giro é constante e dinâmico. Se bem feito, o confinamento pode ser um excelente negócio, é uma questão de feeling. Hoje, parece simples, mas tivemos muito trabalho até aprender a controlar tudo”.
Marisa Saad compartilha da mesma filosofia de Maria Stella. “É o olho do dono que engorda o negócio”. Por crer nisso, saiu dos bastidores da Rede Bandeirantes de Televisão, nos anos 80, para dar vida aos negócios rurais da família. Sozinha e tendo como princípios lições do avô, João Saad, Marisa administra 4,5 mil hectares de cultivos de grãos e pecuária e consegue faturar R$ 500 mil ao ano. E ela não está satisfeita, quer mais. “Nos últimos anos, investimos em organização, diversificação e profissionalização. Agora, quero aumentar volumes e números”, avisa a fazendeira, que aplicou neste ano R$ 1 milhão em infraestrutura, tecnologia na Fazenda Pantaleão, em Bragança Paulista, interior paulista, e na aquisição de novas áreas. “Herdei do meu pai o gosto por comprar novas terras, mas não como um hobby e sim, como oportunidade de negócios”.
Marisa prefere cuidar dos negócios diretamente no campo e por isso, concentra todas as terras nos arredores de São Paulo. “Posso visitar todas rapidamente”. Na Pantaleão, de 435 hectares, ela circula diariamente entre as lavouras de milho, soja e girassol, segmento responsável por 40% do faturamento total da fazenda, e o rebanho de gado Simental, que iniciou há 19 anos com 40 embriões. Hoje, são mais de 3500 animais selecionados que movimentam o mercado de tourinhos. “Centralizo a administração na Pantaleão, mas trabalhamos em sinergia com todas as outras propriedades da família. Os tourinhos que nascem em Bragança Paulista são encaminhados para outras fazendas para venda, cruzamentos industriais ou engorda, dependendo do mercado”, afirma. O modelo diferenciado de Marisa é a venda rápida de animais premiados. “Não mantemos os animais premiados aqui. Sua venda permite retorno rápido para o negócio e corte de custos com o manejo dos mesmos”. Com os investimentos feitos, ela garante o nascimento de bons animais sempre. “Você tem que se garantir e arriscar para chegar onde quer”.
Dinheiro Rural - Outubro de 2010
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